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O adeus de uma geração Imprimir
Escrito por Matheus Pannebecker   
Segunda, 25 de Julho de 2011 - 10:56

David Yates não é qualquer diretor. Haja coragem para assumir uma saga mundialmente famosa, conduzi-la durante quatro filmes e também ser responsável pelo desfecho. Quando assumiu a cadeira de direção em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o britânico já mostrou habilidade ao guiar um longa que compensava todas as deficiências da obra de J.K. Rowling. Yates construiu uma visão mais sombria (palavra inevitável, não?) do mundo do protagonista, adotou um estilo visual diferenciado e se firmou como um dos grandes nomes da franquia. Yates, posteriormente, tropeçou feio em O Enigma do Príncipe e se reergueu de maneira surpreendente em As Relíquias da Morte – Parte 1. Mas nada nos preparava para o que estava por vir no capítulo final de Harry Potter...

Ao não escolher o caminho de se aproveitar da emoção dos fãs para criar dramas fáceis, Yates prova, mais uma vez, o seu amadurecimento como diretor. Mais do que uma revolução visual (é o filme mais impressionante do ponto de vista estético), Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 transparece a intensa vontade do diretor e do roteirista Steve Kloves de apresentar uma história bem narrada e que não deixa resoluções confusas. Se os leitores das obras de J.K. Rowling podem reclamar de pequenos detalhes mal desenvolvidos, talvez o mesmo não seja dito por quem tem apenas conhecimento cinematográfico da saga. É fácil, por exemplo, que até mesmo aqueles que mal se lembram do enredo (como eu, que li As Relíquias da Morte há quatro anos atrás), não fiquem incomodados com passagens meio difíceis de compreender. Tudo é facilmente digerível.

Só que toda essa excepcional qualidade do roteiro não teria o mesmo impacto se o trabalho do elenco não correspondesse. A boa notícia é que todos os atores estão em plena harmonia. Ao passo que, pela primeira vez em toda a saga, Daniel Radcliffe comanda o espetáculo sem qualquer momento que possa desapontar, o resto do elenco juvenil surge mais eficiente do que nunca – até porque, se nessa altura do campeonato não demonstrassem entrosamento, seria preocupante. A história é sim centrada neles, mas o grande destaque é das figuras secundárias. Se dame Maggie Smith aparece valente e representando os bons ideais que um dia fizeram Hogwarts ser palco de inspiração, Alan Rickman surge como uma figura extremamente emblemática. Smith e Rickman, por sinal, protagonizam um duelo (literalmente) de arrepiar.

Ainda assim, é Rickman que fica com o melhor show. Com um flashback simplesmente devastador (e filmado com uma sutileza quase poética), o ator encarna o caráter dúbio do personagem com uma precisão nunca vista antes. É certo que seu Severo Snape (assim com o Dumbledore de Michael Gambon ou a Minerva McGonagall de Maggie Smith) tem espaço muito limitado em cena. No entanto, poucos minutos são o suficiente para o filme e o ator conseguirem extrair passagens memoráveis de um personagem que, no final das contas, é a resposta para vários questionamentos de Harry. Assim, também vale mencionar o bom senso da produção, que não se aproveita de momentos de maior carga dramática desse personagem para forçar emoções.

É mais uma decisão sábia de Yates: apostar na simplicidade e não no melodramático. Portanto, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 é um filme que vai construindo sua carga emocional de forma muito natural – algo perceptível, inclusive, na excelente trilha de Alexandre Desplat, que se torna muito mais eficente no filme do que no seu pouco expressivo resultado fora. Desse jeito, no meio de tanta emoção, sejam elas em relação ao drama ou aos tensos momentos de confronto, a angústia vai acumulando e o espectador se enxerga numa verdadeira montanha-russa de emoções. Isso mesmo, As Relíquias da Morte – Parte 2 éum filme extremamente movimentado nos mais variados tipos de sensações. Mas, como mencionado, sem nunca ser piegas.

Contornando soluções simplórias ou momentos de fraco impacto no livro de J.K. Rowling, o longa é um verdadeiro presente – tanto para os fãs, que encontram nele o melhor momento da saga, quanto para os cinéfilos, que estão diante do grande blockbuster do verão norte-americano. As Relíquias da Morte – Parte 2 é grandioso sem se esquecer de emocionar e dramático sem ignorar a ação. A experiência é totalmente livre de defeitos, com um epílogo que é infinitamente melhor do que o esperado. A melancolia, que já era esperada em função do desfecho, está presente de forma muito genuína na eterna sensação despedida que temos durante a sessão e no resgate das composições clássicas que John Williams fez para a série.

Enfim, As Relíquias da Morte – Parte 2, depois de ter arrepiado em diversos momentos, não poderia ter dado um golpe mais cruel nos momentos finais. Relembrando o primeiro ano de Harry Potter, quando o protagonista embarcava pela primeira vez no trem rumo a Hogwarts na plataforma 9 3/4, o filme vasculha as memórias mais profundas de quem acompanhou a saga desde o início. A despedida traz um tom mais do que especial para quem é fã e acompanhou tudo com muita admiração desde o início. Com essas lembranças, As Relíquias da Morte – Parte 2 é a despedida perfeita para quem teve a infância marcada por Harry Potter. E só de lembrar que Hogwarts nunca mais se materializará no cinema ou em livros, já dá um aperto no coração. Os afortunados são aqueles que sempre acompanharam tudo com muita paixão e que sempre terãoa escola de magia presente na imaginação. Sorte que sou um deles. Esse épico desfecho é para marcar gerações. Perfeito, perfeito, perfeito...

 


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