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Um balanço do Festival de Cinema de Gramado Imprimir
Escrito por * Matheus Pannebecker   
Terça, 16 de Agosto de 2011 - 15:50

festival-cinema-2011Quando Lúcia Murat subiu ao palco do Palácio dos Festivais, na noite do último sábado, em Gramado, para receber o Kikito de melhor filme pelo júri oficial, algo já estava mais do que confirmado: a 39ª edição do Festival de Cinema de Gramado não trouxe surpresas. Era previsível que "Uma Longa Viagem", o documentário da diretora, tinha grandes chances de vencer o prêmio principal, assim como também era óbvio que "Riscado" fosse ganhar vários troféus. E assim foi.

O problema, na realidade, ficou com a cerimônia. Se ela já é cansativa em função do grande número de categorias (são quase 40 prêmios distribuídos por três júris em categorias de longas nacionais e estrangeiros, além de curtas), também temos a decepção de acompanhar uma festa sem glamour. Tudo muito simples e sem inspiração, como uma mera formalidade, onde apresentadores simplesmente abrem envelopes sem grande entusiasmo. Isso reflete, claro, outros grandes problemas dessa edição do prêmio. E o maior deles foi a exibição de quase todos os longas estrangeiros em cópias de dvd com baixa qualidade.

Só que, apesar de tantos problemas técnicos e falta de originalidade, o Festival de Cinema de Gramado reafirma algo que poucos festivais têm: resistência. São quase 40 edições celebrando o cinema latino-americano. Se o prestígio já não é mais o mesmo de outrora, pelo menos a equipe pode estufar o peito e dizer que grandes nomes como Fernanda Montenegro ainda vão até à cidade para receber homenagens do prêmio. Com ou sem glamour, errando ou acertando, o Festival de Cinema de Gramado ainda tem sua força por celebrar o cinema que poucos celebram.

Confira, abaixo, pequenas análises dos 14 longas que estiveram em competição.

RISCADO, de Gustavo Pizzi: com uma excelente interpretação de Karine Telles, o filme foi um dos melhores em competição. Ao traçar o eficiente retrato de uma garota que deseja ser atriz e que consegue seu primeiro papel em um filme, "Riscado" fala sobre persistência e sorte. Uma grata surpresa.

MEDIANERAS – BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL, de Gustavo Taretto: possivelmente, o melhor longa desta edição do Festival. Dinâmico e cheio de análises inteligentes, o filme é irresistível. Injustamente criticado por ser mais "acessível" e "comercial" que os outros longas da mostra, é mais um exemplar da qualidade do cinema argentino.

PONTO FINAL, de Marcelo Taranto: um dos piores filmes dessa edição Festival. Peca, principalmente, na forma como tenta deixar tudo muito "bonito". Os personagens falam como se fossem poetas, o roteiro traz inúmeras lições de moral e a direção deixa tudo ainda mais monótono quando mistura linguagem literária, teatral e cinematográfica. Só os fortes sobrevivem.

A TIRO DE PIEDRA, de Sebastian Hiriart: é complicado quando um filme não passa sensação alguma. Infelizmente, é o caso desse "A Tiro de Piedra". Narrado de forma muito lenta, é uma obra que não mostra originalidade em um assunto batido: a jornada de um homem que resolve entrar ilegalmente nos EUA.

UMA LONGA VIAGEM, de Lúcia Murat: não é o estouro que muitos apontam, mas é um documentário original (mistura fatos reais com as dramatizações de Caio Blat) e, acima de tudo, muito pessoal. Em certo ponto, confunde e se desvia de sua proposta ao se transformar em um filme de apenas um personagem (e que personagem!), mas nada que comprometa a positiva experiência que é entrar nas memórias familiares da diretora.

LAS MALAS INTENCIONES, de Rosario Garcia-Montero: histórias de crianças geniosas e que possuem inteligência acima da média para suas idades sempre me conquistam. E não foi diferente com esse longa. "Las Malas Intenciónes" traz uma excelente performance da jovem Fatima Buntix e mostra, com muita habilidade, a angústia e solidão de uma garota preterida por todos em sua vida.

PAÍS DO DESEJO, de Paulo Caldas: fácil é levantar várias polêmicas. O problema é discutir cada uma delas. "País do Desejo" fala de aborto, estupro, doação de órgãos e religiosidade. Só que tudo aleatório e sem consistência, deixando a sensação de que o diretor está mais preocupado em chamar a atenção do que realizar algo com conteúdo. Superficial demais. O elenco global também não ajuda a esconder erros quase que infantis dessa produção.

LA LECCIÓN DE PINTURA, de Pablo Perelman: uma história que pode ser chamada de "pura", ao trazer um jeito muito humilde de falar sobre amizades, amores e descobertas. Agradável de assistir, "La Lección de Pintura", além de ter uma excelente fotografia e ótimo elenco, também é capaz de emocionar. Um dos melhores da seleção do Festival.

AS HIPER MULHERES, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro: parece especial do Globo Repórter sobre índios. É um documentário que poderia ter sido facilmente contado em formato de curta-metragem. Longo, cansativo e até atordoante (as índias retratadas ficam cantando quase que o filme inteiro), é um trabalho que quase não tem efeito nem documental. Péssimo.

EL CASAMIENTO, de Aldo Garay: a princípio, poderia ser um filme apenas sobre um transexual. No entanto, "El Casamiento" coloca esse assunto de escanteio e fala sobre afetividade e companheirismo. Só faltou uma direção mais firme para executar tudo de forma mais instigante. Do jeito que ficou, o longa acaba apenas como satisfatório.

OLHE PRA MIM DE NOVO, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman: o filme "ame ou odeie" do Festival. Ao contar a história de Syllvio Luis, um transexual do nordeste do Brasil, o documentário fala abertamente sobre sexualidade e a questão da aceitação. No meio disso tudo, somos brindados com um personagem marcante e de forte personalidade. É sim filme de uma história só. Mas uma história que deveria servir de exemplo para muita gente. Drama (e, também, humor) nesse documentário que foi um dos pontos altos do Festival.

GARCIA, de Jose Luis Rugeles: é até uma surpresa ver um filme como esse entre os selecionados. Adotando o estilo "Fargo" de contar uma história sobre um plano simples mas que dá errado em função de pequenos, essa obra é simples demais – e até mesmo boba. Difícil entender como foram selecionar um trabalho tão passageiro como esse. De positivo mesmo só ficam as interpretações dos atores principais.

O CARTEIRO, de Reginaldo Faria: Reginaldo Faria tentou, mas não conseguiu. "O Carteiro" quer divertir, falar de romance e mostrar dramas. Mas a mistura é tão confusa que o resultado é inexpressivo. Não fica claro o tom do filme e o extenso elenco, por muitas vezes, cai na caricatura. Em certo ponto, não se consegue nem mais acompanhar com atenção todas as histórias. Decepção.

JEAN GENTIL, de Laura Guzmán e Israel Cárdenas: um dos filmes mais curiosos da mostra competitiva. É uma bela história (um sujeito que não consegue se adaptar ao novo estado de sua vida) e que, em diversos momentos, apresenta tocantes momentos que exploram a solidão do protagonista. Algumas cenas são mesmo de arrepiar, como a que encerra a história. No entanto, "Jean Gentil" acha que silêncio é sinônimo de introspecção. E esse filme de 80 minutos termina parecendo ter o dobro. Se não fosse tão cansativo, seria bem mais interessante...

* Matheus Pannebecker, acadêmico do curso de Jornalismo do IPA,
integrou o júri popular do Festival de Gramado 2011. Sua escolha ocorreu após
vencer uma ma seleção do jornal Zero Hora, com o texto sobre o filme nacional
'Os famosos e os duendes da morte', dirigido por Esmir Filho.

 


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