Na pele dos personagens Imprimir
Escrito por Matheus Pannebecker   
Terça, 07 de Fevereiro de 2012 - 15:46

kevinLogo após o nascimento de Kevin, Eva (Tilda Swinton) já conseguia perceber dificuldades com o filho recém-chegado. Ele, que chorava compulsivamente quando passava o dia com a mãe, era calmo e silencioso na presença do pai. E assim foi durante toda a vida: com a mãe, Kevin era um menino que parecia ter o demônio no corpo. Com o pai, era justamente o oposto. Eva, portanto, não sabia como lidar direito com essa situação.

Afinal, não era apenas o fato do filho não demonstrar qualquer sentimento positivo por ela que a incomodava, mas também o fato de Eva não conseguir provar tal desafeto para o marido, com quem Kevin era tão agradável. Unindo o filho problemático com a mãe que não sabia direito como agir diante de tal situação, criou-se um ambiente doentio. Um ambiente que, posteriormente, teria consequências trágicas para toda a família. É a partir dessas tragédias que Precisamos Falar Sobre o Kevin constrói sua narrativa. Com um enredo que vai e volta no tempo, esse poderoso filme de Lynne Ramsay é cheio de complexidades, além de ser muito incômodo e, por que não, realista – especialmente numa sociedade que muito discute o modo como crianças e adolescentes devem ser criados.

Para início de conversa, é bom avisar que Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme para os fortes. Com uma atmosfera extremamente negativa, o enredo, a cada minuto, torna-se cada vez mais angustiante. É uma jornada de dor não apenas em função de como a tragédia não revelada (só se torna clara por completo no final) destruiu a vida da protagonista, mas também por cada cena que evidencia a completa falta de diálogo entre mãe e filho. Fácil seria culpar a personagem de Tilda Swinton pelas atitudes do filho, mas Precisamos Falar Sobre o Kevin cria cada situação difícil que faz o espectador compreender a total confusão e inércia da mãe. E esse, possivelmente, é o maior mérito do longa-metragem: colocar todos na pele de Eva. Nós sentimos tudo o que ela passa, suas dores e desesperos. Por isso que o trabalho da diretora Lynne Ramsay é tão difícil, uma vez que não somos apenas espectadores desse relacionamento que se desintegra a cada dia. Parece que nós também fazemos parte dele. Tal angústia, presente em momentos maravilhosamente bem explorados por flashbacks e em momentos da atual situação da protagonista, é sentida a todo momento, o que torna Precisamos Falar Sobre o Kevin tão intenso e, arrisco a dizer, desesperador.

Baseado no livro de mesmo nome da autora Lionel Shriver, o roteiro não faz questão de facilitar nada. É um texto que não se preocupa em encenar longos diálogos que evidenciem complexidades. A profundidade de Precisamos Falar Sobre o Kevin está no silêncio, na sensação que certas situações passam. No entanto, esse roteiro construído com tamanha precisão não seria o mesmo sem a extraordinária performance de Tilda Swinton. A britânica de 51 anos de idade sempre foi sinônimo de qualidade (e o seu Oscar por Conduta de Risco foi extremamente merecido), só que, aqui, ela alcança o que é, possivelmente, o trabalho mais complexo de toda a sua carreira.

Difícil imaginar o sofrimento da atriz ao mergulhar nesse papel que, basicamente, não tem um momento sequer de alegria. Tilda, porém, tira tudo de letra: econômica em palavras, mas com uma notável habilidade ao transmitir qualquer sentimento com uma simples expressão, ela é outro fator que ajuda Precisamos Falar Sobre o Kevin ser tão marcante. Junto com o roteiro, Tilda intensifica as sensações desse longa-metragem difícil, mas que, se apreciado pelo público certo, está destinado a permanecer durante muito com quem o assite. E isso é o que existe de mais precioso no cinema: a possibilidade do espectador poder se importar com os personagens, entrar na história deles e, acima de tudo, sentir tudo o que eles sentem. Precisamos Falar Sobre o Kevin faz isso com uma facilidade que assusta.

 


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