A dama insegura Imprimir
Escrito por Matheus Pannebecker   
Quarta, 14 de Março de 2012 - 15:07

game-change"Nós todos assistimos ao filme Game Change e confirmamos tudo aquilo que dissemos anteriormente: o filme é, no máximo, uma 'ficção histórica' – histórica apenas no sentido de que Sarah Palin foi indicada e concorreu como vice-presidente.

O filme é uma série de cenas onde os diálogos, locações e participantes são inventados ou aleatoriamente irreconhecíveis em seus efeitos dramáticos. A HBO continua argumentando que conversaram com 25 fontes. Nenhuma delas está documentada em nível de envolvimento com a campanha". Em uma tradução literal e, em uma versão resumida, essa foi a opinião da política Sarah Palin sobre o mais novo telefilme da HBO, Game Change, exibido no último sábado (10) pelo canal HBO estado-unidense. Também pudera, quem gostaria de ver seus defeitos estampados em um filme? Agora, quer Palin goste ou não, o retrato feito dela no recente trabalho do diretor Jay Roach não maquia a verdade.

Por mais que Game Change tenha inúmeros méritos (que serão discutidos mais adiante), o que mais impressiona, claro, é o desenvolvimento de Sarah Palin. No início, a governadora do Alasca é convocada para ser a vice-presidente do republicano John McCain. Ela é a escolha perfeita: sua figura consegue atingir o público feminino e ela adora estar frente a frente com o povo, além de ser popular e bem articulada ao expôr suas opiniões. McCain e praticamente toda a equipe caem de amores por ela e, claro, apoiam sua candidatura como vice do representante republicano. A partir daí, surge, então, uma grande reviravolta: Palin, no fundo, tem muitos defeitos (descobertos tarde demais para tirá-la da campanha). Ela, ao contrário do que vimos com Margaret Thatcher no recente A Dama de Ferro, não precisa apenas ser assessorada sobre novos visuais ou posturas frente às câmeras.

Palin, pasmem, está no meio político e não compreende aspectos básicos sobre o seu próprio país. "Não foi Saddam Hussein que nos atacou no 11 de setembro?", indaga a candidata. Assim, acompanhamos toda a transformação de Palin não só para se portar como uma possível vice-presidente mas também para aprender fatos políticos e aspectos históricos dos Estados Unidos e do mundo. Só que a campanha já começou e a imprensa está atacando por todos os lados. Ela começa a entrar em colapso, esquece falas, faz afirmações erradas e, inclusive, tem sua saúde mental questionada pelos colegas. Uma pessoa inofensiva, mas, infelizmente, muito longe de estar preparada para um cargo de tal magnitude. Palin, por outro lado, conseguia surpreender na mesma medida que decepcionava: quando acertava, despertava a empolgação de seus colegas e fazia bonito frente às câmeras. Só que esses eram momentos de sorte. O interessante é que Game Change tem o poder de levar o espectador para dentro da insegurança dos outros personagens em relação à Palin. Assim como eles, fomos encantados por ela no início para, depois, não sabermos mais o que, de fato, a candidata pode acrescentar.

E ao transitar por todos os temperamentos e comportamentos inconstantes de Sarah Palin, Julianne Moore realizou um trabalho não menos que incrível, podendo ser facilmente listado entre os seus melhores (e eles não são poucos!). Muito se falou sobre a possibilidade de Tina Fey ser a protagonista, uma vez que a comediante alcançou grande sucesso ao imitar com perfeição a candidata na TV (o que é, inclusive, mostrado no filme). Só que não seria uma escolha prudente. Tina Fey é ótima, mas criou uma versão cômica de Palin – e isso poderia interferir na proposta de Game Change. Uma profissional como Julianne Moore era necessária. E ela que, inclusive, chegou a contracenar com Tina na série 30 Rock, tira tudo de letra. Assim como Meryl Streep na pele de Margaret Thatcher, Moore desaparece na figura que representa. O mais impactante é que ela não deixa a sensação de estarmos acompanhando um filme de biografia política. Palin poderia ser muito bem uma personagem de ficção tamanha a habilidade da atriz ao mostrar todas as forças e vulnerabilidades dela. Trabalho simplesmente impecável.

Game Change é dirigido por um certo Jay Roach, que, anteriormente, já havia se aventurado em terrenos políticos com Recontagem, outro celebrado telefilme da HBO. No início de seu novo trabalho, o diretor dava a sensação de que entregaria mais do mesmo, principalmente na forma quase documental com que apresenta seus personagens (desnecessárias, por exemplo, as legendas aparecendo na tela toda vez que um deles entra em cena). Game Changetambém parecia um filme sobre John McCain (e a caracterização de Ed Harris é impressionante), mas, na medida em que a história se desenvolve, o foco muda e, claro, passa a ser sobre Palin. O que temos, portanto, é uma produção concebida com estilo e que consegue até mesmo empolgar – e isso é uma surpresa, já que biografias políticas costumam ter sempre a mesma cara (quadrada). Ao desenvolver de forma magnética a excelente personagem que tem em mãos, o telefilme encontrou a vitória, tornando-se mais do que um corriqueiro exemplar do gênero: é, também, a história de uma mulher que nunca teve o devido embasamento ou segurança para alçar grandes voos. Um roteiro que não toma partido, mas que não fica sem personalidade em função disso. Uma história que não mascara sua protagonista, mas que também não exagera nas polêmicas.

Várias lições podem ser tiradas de Game Change. E todas elas podem muito bem ser direcionadas à diretora Phyllida Lloyd. O longa estrelado por Julianne Moore é uma prova de como histórias sobre figuras políticas não precisam abranger toda a vida de uma pessoa. Às vezes, um período da vida dela já é o suficiente para conhecermos praticamente tudo, desde valores e ideais até fragilidades e pontos fortes. Se Lloyd também tivesse aplicado, em A Dama de Ferro, toda a consistência (seja em conflitos dramáticos ou em situações políticas) que Roach apresentou sem pensar que quantidade é sinônimo de qualidade, teria feito um trabalho mais decente sobre Margaret Thatcher. Essa comparação é sim extremamente válida porque são duas produções recentes sobre mulheres polêmicas e difíceis. Mais do que isso, são filmes com atrizes simplesmente brilhantes. Só que Meryl, vencedora do Oscar por seu papel como Thatcher, deu azar de estar em um filme esquecível e muito mal contado. Moore, por outro lado, tirou a sorte grande ao protagonizar Game Change, que apesar de algumas previsibilidades no formato, é um filme que surpreendente dentro do gênero já cansativo. A TV venceu. De novo.

 


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