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Escrito por Matheus Pannebecker   
Terça, 28 de Agosto de 2012 - 13:15

hope-springsDos nichos cinematográficos que surgiram nos últimos tempos, o que trata da meia/terceira idade deve ser o mais interessante. Tudo começou com o ótimo Alguém Tem Que Ceder, que era diferente por trazer Jack Nicholson e Diane Keaton em uma comédia romântica que falava sobre as expectativas e decepções de pessoas já experientes e que não sabem muito bem o que fazer com diferentes tipos de solidão. Desde então, surgiram várias produções que dialogam com esse público até então inexplorado. Mais recentemente, por exemplo, tivemos O Exótico Hotel Marigold, comédia de John Madden sobre um grupo de idosos em uma viagem de auto-descoberta na Índia. Agora, Um Divã Para Dois se une a esse nicho, trazendo uma perspectiva mais reflexiva e menos de entretenimento sobre os desafios da vida a dois depois dos 60.

No mais novo filme de David Frankel – que, aqui, repete a parceria com Meryl Streep depois de O Diabo Veste Prada – acompanhamos a vida de Kay (Meryl) e Arnold (Tommy Lee Jones), um casal que já não tem mais aquele encanto de um matrimônio. Ele trabalha, ela é dona-de-casa. Os filhos são adultos, já saíram de casa e têm pouca participação em suas vidas. Só que a situação é ainda mais complicada: Kay e Arnold não dormem no mesmo quarto, são mais colegas de casa do que necessariamente conhecidos e só trocam palavras para falar sobre trivialidades como o prato especial para o jantar ou o que precisa ser comprado para a casa. Arnold está acomodado com essa sensação enquanto Kay, dia após dia, olha para o marido com a esperança de que eles voltem a se conectar. Um dia, ela toma a decisão de comprar um pacote de terapia intensiva com um psicólogo de outra cidade para alcançar esse objetivo. Relutante, Arnold aceita a ideia e ambos viajam até Maine para, quem sabe, conseguir uma segunda chance.

Pode parecer um limitador, mas na verdade não é: se dizer que Um Divã Para Dois só funciona por ter protagonistas mais velhos pode parecer demérito, logo essa ideia desaparece durante o longa. É por contar uma reflexiva história sobre pessoas de tal idade que o filme de David Frankel ganha o espectador – que, em determinado ponto, releva vários problemas só pela delicadeza da proposta. Vendido como uma comédia (principalmente no Brasil), Um Divã Para Dois, apesar de ter vários momentos de humor, é um drama em sua essência. Especificamente, um drama com toques de comédia. Para falar bem a verdade, todas as piadas envolvendo os personagens podem ser até um pouco incômodas, já que rimos de um casal que não sabe mais se conectar, de suas inabilidades em se comunicar, de sua incapacidade de demonstrar afeto e até mesmo de suas frustrações sexuais. Com um olhar mais crítico, Um Divã Para Dois nem engraçado é. E, para todos os efeitos, isso não é necessariamente um defeito. Pelo contrário: só enaltece a proposta do filme de trazer um olhar mais profundo sobre esse o casal.

O que existe de mais belo em Um Divã Para Dois é a forma como ele fala sobre esperança. Se o personagem de Tommy Lee Jones cai no estereótipo de velhinho rabugento só para fazer o público rir (e o ator, em contrapartida, aproveita bastante os momentos de drama), o de Meryl Streep transborda humanidade: ela é o coração dessa relação. Sua Kay não quer desistir, mesmo que seu marido tenha se tornado uma pessoa particularmente desagradável e muito diferente daquela com quem um dia ela causou. Entre os constrangimentos de não ser uma perita na cama e de não conseguir falar sobre aquilo que lhe magoa, ela nos lembra que, a partir de certa idade, não temos mais a possibilidade de desistir. E se temos, esse será, possivelmente, o desafio mais doloroso e amedrontador de nossas vidas. Um casamento de 30 anos não se sustenta à toa. Kay sabe disso e prefere batalhar por ele. Com isso, Meryl esbanja sua habitual naturalidade e competência para, com um único olhar, dizer tudo aquilo que a direção de David Frankel muitas vez não consegue transmitir.

Por não ter uma direção mais consistente – e, por que não, experiente – como seus protagonistas, Um Divã Para Dois, em diversos momentos, descamba para um estilo água com açúcar mais simplista e mastigado do que deveria. Existe um certo impasse ali: não é nem tão contundente para ser abraçado como um produto refinado nem tão popular para fazer sucesso de bilheteria. Assim, as ótimas cenas dramáticas se misturam com uma estrutura meio estranha que traz repetitivas cenas de terapia (o que não ajuda tanto a contida interpretação de Steve Carell como um unilateral terapeuta) e uma ou outra cena de humor só para cumprir tabela. Sorte que o interessante roteiro de Vanessa Taylor e a boa dinâmica entre Streep e Tommy Lee Jones conseguem ultrapassar esses obstáculos e conquistar o coração do espectador. Quem sabe o que esperar (sem muita exigência) passará, pelo menos, quase duas horas com bons atores em um filme descompromissadamente agradável

 


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