O auge de James Bond Imprimir
Escrito por Matheus Pannebecker   
Segunda, 29 de Outubro de 2012 - 12:10

skyfallQuando voltou à ativa em Cassino Royale, James Bond estava renovado. Em tempos que o cinema de ação preza mais pela veracidade do que por qualquer trama mais fantasiosa, o agente secreto se reinventou em todos os aspectos, deixando claro, de uma vez por todas, que tramas de espionagem são definitivamente mais interessantes se moldadas de acordo com o que Paul Greengrass construiu a partir de A Supremacia Bourne. E se Quantum of Solace, sequência do primeiro filme com Daniel Craig na pele de James Bond, foi uma verdadeira decepção, a nova abordagem de 007 nunca abandonou o tom realista, mesmo com diretores tão distintos. Agora, não é diferente com Sam Mendes, um nome que, à primeira vista, não seria associado ao mundo de Bond, mas que, nem transcorrido todo 007 – Operação Skyfall, já se mostra o melhor entre os novos diretores da franquia.

No ano em que James Bond completa 50 anos nas telas do cinema, Sam Mendes fez um trabalho exemplar atrás das câmeras. E o que mais atesta esse acerto é a habilidade de Mendes em conseguir manter todo o tom contemporâneo que a série adotou desde Cassino Royale e ainda mexer com vários elementos que tornaram Bond um personagem icônico. De um lado, o protagonista pé no chão, que prefere o corpo a corpo ao invés de artimanhas e equipamentos mirabolantes para ganhar um confronto. Junto a ele, uma trama atualizada, apoiada em um mundo computadorizado que cada vez mais reflete a herança da trilogia Bourne. De outro, um clima de conspiração, com o protagonista cruzando o mundo (de Shangai a Londres, todas as locações são fascinantes), intrigas internas, etc. E Mendes, cercado por grandes profissionais como Thomas Newman (trilha sonora) e Roger Deakins (fotografia), consegue cruzar os dois tons com uma direção surpreendentemente segura – e também cheia de estilo.

Por outro lado, o público acostumado com tramas mais movimentadas pode se decepcionar com a primeira hora de 007 – Operação Skyfall. É nessa parte que a trama se dedica mais aos diálogos e a criar um clima mais sombrio e psicológico que, depois, culminará na chegada do verdadeiro vilão da história – figura que finalmente colocará ação na tela. Não que o filme esteja desprovido dela em seus momentos iniciais. Pelo contrário: a sequência do trem que antecede os belíssimos créditos iniciais já é um indício de que o longa se sairá bem nesse sentido. O problema é que 007 – Operação Skyfall causa, de certa forma, estranhamento com uma primeira metade mais, digamos, subjetiva. Só que é nela que está a maioria das referências ao Bond clássico, o que, claro, será totalmente envolvente para quem as identifica. São, de certa forma, dois filmes em um, mas isso não é obstáculo para o longa de Sam Mendes.

Contudo, é só Javier Bardem entrar em ação para o filme agradar a todos. E isso se deve não só ao fato de que 007 – Operação Skyfall se torna muito mais dinâmico como um todo a partir de sua entrada, mas especialmente pela presença de Bardem. Estavam errados os que pensavam que o ator espanhol faria uma variação de seu Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez ao assumir o papel do mais novo vilão de James Bond. Bardem nunca se repete: ele cria uma figura totalmente nova e, mais uma vez, impressiona com a composição de um personagem cheio de insanidade, trejeitos afeminados e atitudes um tanto homoeróticas. Ele rouba a cena. E vale destacar também a primeira cena dele com Judi Dench, onde, em uma prisão envidraçada, ele faz quase um monólogo sobre ódio e vingança. E quem é fã de analogias, certamente se lembrará de O Silêncio dos Inocentes nesse momento, quando o vilão calmo e perigoso confronta a agente de segurança com um crescente clima de tensão, já que, devido à transparência do vidro, temos a sensação de que nada os separa de fato.

Por falar em Judi Dench, a veterana (que, hoje está perdendo a visão e já necessita da ajuda de familiares e amigos para decorar suas falas) sempre foi uma coadjuvante de luxo como a eficiente M. Agora, no entanto, a situação já é bem diferente. Dench, de chefe que só serve para dar ordens ao protagonista, passa a ser uma figura fundamental em todo o desenvolvimento de 007 – Operação Skyfall. M agora dá sentido a praticamente todo o filme e é um deleite ver uma atriz tão especial como Judi Dench ser devidamente aproveitada. Méritos, mais uma vez, de Sam Mendes, diretor que tem suas origens justamente no desenvolvimento dramático de personagens (seu Oscar por Beleza Americana não foi à toa) e que aqui extrai de Judi tudo o que ela tem para oferecer de melhor para a personagem. Do drama à comédia, ela, ao lado de Bardem, é um dos grandes destaques do filme. Daniel Craig, cada vez mais seguro de sua responsabilidade, teve sorte de atuar com os dois.

Em todos os sentidos, 007 – Operação Skyfall apaga a má impressão deixada pelo preguiçoso Quantum of Solace e revigora ainda mais o mundo de James Bond. Sam Mendes está de parabéns por ter feito com tanta precisão um filme que serve como homenagem aos 50 anos do personagem e também como um excelente exemplar de filme de ação. Além disso, Mendes ainda mostra um grande apuro visual, habilidade intacta de comandar atores e, sem dúvida, qualidades suficientes para continuar como diretor dos próximos filmes da franquia. E também não dá para falar de 007 – Operação Skyfall sem mencionar a música-tema de Adele. Embalando os créditos iniciais mais interessantes dos recentes filmes de Bond, a canção Skyfall também diz muito sobre o filme: ela é escrita e interpretada por uma cantora jovem, mas é, na realidade, uma homenagem aos velhos tempos do agente secreto. Mais uma vez, passado e presente se entrelaçam nesse filme que não deixa os detalhes de lado.

 


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