Cinema ou política? Imprimir
Escrito por Matheus Pannebecker   
Segunda, 27 de Setembro de 2010 - 11:19

lulaA escolha do filme Lula – O Filho do Brasil para representar o Brasil na próxima edição do Oscar causou muita polêmica. Se antes a comissão de seleção do cinema brasileiro era acusada de ignorar a recepção do público (e podemos tomar como exemplo o ano em que Tropa de Elite foi ignorado para que O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias fosse o nosso representante), agora é acusada de se vender à política.

Nada mais adequado para uma decisão que, visivelmente, tem o intuito de promover a figura de Luiz Inácio Lula da Silva no momento em que o país vive um momento de eleição.

É fato que a atual influência do presidente na candidatura da petista Dilma Rousseff e a indicação ao prêmio Nobel da paz fizeram a comissão refletir um pouco. Afinal, o que vale mais a pena: selecionar um filme que tem atributos cinematográficos notáveis ou indicar aquele que tem maior apelo?

Infelizmente, escolheram a segunda opção. Não existem dúvidas de que a seleção de Lula – O Filho do Brasil como representante brasileiro ao Oscar nada mais é que um jogo muito esperto de marketing. Na realidade, eles querem conseguir o voto dos membros da Academia com a imagem de Lula, não com o filme em si. Tanto, que a produção resolveu, nessa semana, adicionar fotos de Lula com a Rainha Elizabeth II e com Barack Obama nos créditos finais do longa-metragem, alterando o produto original.

Só isso para explicar a escolha de um filme que foi um fracasso de bilheteria, mal recebido pela crítica e que cujo maior destaque na época de lançamento foi o diretor ter sido hospitalizado por bater a cabeça em um acidente. Por mais que a produção tenha certa relevância histórica (afinal, trata da história pessoal de um dos presidentes mais importantes que o Brasil já teve) não tem qualquer destaque cinematográfico. Chega a ser vergonhoso para o cinema brasileiro escolher um filme pelas suas "chances" e não pela sua atual qualidade.

Mas, vamos aos fatos. É extremamente improvável que Lula – O Filho do Brasil consiga uma indicação. A Academia não costuma indicar biografias na categoria de filme estrangeiro e um filme mal resolvido desses não vai mudar esse quadro. Seria menos pior, então, enviar um filme igualmente comercial mas que fosse menos pretensioso, como Chico Xavier, por exemplo.

Contudo, quem observa o histórico dos filmes indicados ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro sabe que a escolha ideal seria um filme que fugisse dos padrões e que realizasse algo mais autoral e "alternativo". Podemos tomar como exemplo um filme que foi filmado aqui no sul e que tinha uma estrutura que poderia ser facilmente apreciada pelo Oscar. Os Famosos e os Duendes da Morte tem uma narrativa muito autoral, proposta diferente e abordagem introspectiva. Ele se assemelha, por exemplo, com um dos indicados ao Oscar desse ano, A Fita Branca. Alternativo, subjetivo e diferente. O meu voto, portanto, iria para esse filme. Além de ter muito mais chances que Lula – O Filho do Brasil, deixaria uma imagem muito melhor do nosso país no exterior.

Era de se esperar que, depois de dois anos com filmes de "favela" nos representando (os últimos exemplares foram Última Parada 174 e o desastre Salve Geral), a comissão brasileira selecionasse algum filme mais independente e diferente. Não foi o que aconteceu. A escolha da produção baseada na vida do presidente simplesmente vai nos deixar mais um ano sem indicação ao Oscar. Lula pode até eleger a ex-ministra da casa civil para a presidência, mas não tem poder cinematográfico para levar o Brasil ao Kodak Theater. Oportunidade jogada fora. E lá se vai mais de uma década desde que o Brasil compareceu à festa com Central do Brasil. Enquanto isso, a Argentina conquistou, esse ano, a segunda estatueta. E o Brasil? Zero. E não vai ser esse ano que sairemos dessa situação...

 


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