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O país de Sísifo Imprimir
Escrito por Gabriel Bocorny Guidotti   
Quinta, 17 de Maio de 2012 - 16:01

sisifoO Supremo Tribunal Federal aprovou a permanência das tão discutidas cotas raciais. A decisão possui caráter histórico evidente, pois, nas palavras dos ministros, trata-se de uma forma de diminuir a desigualdade social que as classes marginalizadas foram submetidas ao longo da história. O país de Sísifo, com mais este episódio, mostra a sua cara. E não estamos falando da Grécia, mas sim do Brasil, aquele que sempre levanta suas pedras, mas que não sabe como mantê-las no alto da colina.

Cotas são um instrumento de amplo debate que geram constantes divergências na sociedade. Em uma primeira análise, deve-se fazer um retorno ao falho processo de educação no Brasil, que não suporta concorridos vestibulares para o ingresso no ensino superior. São poucos os casos de pessoas que saem de escolas públicas e conseguem uma vaga na faculdade. As cotas, nesse sentido, são louváveis, pois dão chances àqueles que carecem de ensino. Em um país onde o dinheiro é fator importante na preparação de aspirantes universitários, facilita-se o acesso dos mais humildes e protelam-se, com primazia, os efeitos de um problema que é muito maior.

De acordo com a mitologia, Zeus condenou Sísifo a levantar uma pedra todos os dias até o alto da colina – e por toda a eternidade. Após, a pedra rolaria e o grego deveria começar seu trabalho novamente. Do vício de Sísifo, nosso país também partilha. Estamos acostumados a carregar as mesmas pedras que estarão fadadas à cadência, após o alcance de certo nível. O grande problema do Brasil é o ataque à conseqüência e jamais à causa. Então, por que as cotas são necessárias? Os jovens são mal instruídos, o ensino ruim é mantido, nosso país aceita essa falha e remenda com um coeficiente menor na hora das provas. Aceitar este modelo é banalizar valores. É aceitar um erro anterior e atenuá-lo para que uma "suposta" igualdade seja alcançada.

A decisão do STF é a ponta do iceberg, ou uma forma de jogar o grosso da sujeira para baixo do tapete, enquanto atitudes mais efetivas frente à educação não são tomadas. Nesse contexto, todavia, cotas raciais são problemáticas. O preconceito ainda existe de forma bastante evidente e inegável, mas há a certeza de que já foi muito maior. Hoje o ordenamento apresenta diversos documentos, nacionais e internacionais, que garantem o valor fundamental: a integridade humana. Todos somos iguais perante a lei, mas não perante as cotas. Uma desigualdade histórica justifica a reserva de vagas a negros e índios e, supostamente, diminui o desnível que tiveram ao longo das gerações. Ao mesmo tempo, corre-se o risco de fomentar o racismo, como o lamentável episódio no campus da UFRGS, há alguns anos, quando amanheceu pichado com os dizeres: "voltem para a senzala".

Cotas raciais significam justificar, através de nossa história, uma espécie de tribunal social que amplia e limita – ao mesmo tempo – o acesso à universidade. A ideia é educar até que elas não sejam mais necessárias, e assim, a aceitação deverá se manifestar no ato de preterir vagas de outros grupos da sociedade que, supostamente, causam a desigualdade. O aluno passa o ano inteiro estudando e deverá estudar muito mais para aprender que excluir pessoas por raça é errado. Deverá, ainda, respeitar aqueles que tiram suas vagas não por motivos de concorrência, mas pela cor de sua pele. Isso, me desculpem, não inclui ninguém, apenas gera mais preconceito.

Outro problema relativo a cotas raciais é a segregação. Trata-se de uma solução passageira. É verdade que muitos ainda lutam por seus direitos, mas esconder essa demora através de políticas compensatórias é descartar a educação e achar que as cotas, em alguns anos, resolverão todos os nossos problemas. Adota-se esse procedimento em uma sociedade aonde a inclusão não aconteceu naturalmente: a reserva de vagas é temporária. Podemos ter certeza absoluta, todavia, que a educação acompanhará o desenvolvimento desse processo? A resposta é um sonoro não. Preconceito é triste, abominável e não se resolve com ações alternativas. O critério deve ser econômico-social e não baseado em condições humanas históricas. Ao invés de cotas; professores, ao invés de desigualdade; educação.

Assim, essa pedra continuará rolando, se o Brasil permanecer com o seu foco direcionado a uma iniciativa insuficiente. Nosso país e Sísifo estarão lado a lado ao não atacar a base do problema. Políticas compensatórias estão muito longe do ideal de uma sociedade.

Anseio um mundo onde a educação seja igualitária, para que os estudantes das escolas públicas possam se tornar candidatos e concorrentes. Não se resolvem problemas educacionais através de cotas, mas sim através de uma luta efetiva por um ensino de qualidade. Só assim formaremos cidadãos capacitados e sem preconceito.

 


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