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Nos primeiros passos Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quarta, 30 de Janeiro de 2013 - 09:21

smOs olhinhos ainda não estão abertos, mas outros tantos olhares observam com atenção aquela criaturinha que dorme faceiramente nos braços de uma doce e apaixonada mãe. O pai, orgulhoso como jamais estivera, quase vai às lágrimas quando descobre que o fruto de sua descendência veio ao mundo com a saúde de um leão. A parti dali seriam uma feliz família, imanente, intrinsecamente ligados por um elo sentido, mas não visto; inabalável e afetuoso.

Nos primeiros anos, nos primeiros passos, com dificuldade, eles estavam lá por você. Quando você caiu pela primeira vez ao tentar caminhar, eles lhe seguraram para que nenhum mal lhe viesse. Com um sorriso, apoiaram sua iniciativa e lhe amaram dentro de um sentimento tão puro que nenhum homem ou mulher na terra poderia substituir. Entre tenros carinhos, nada pode conspurcar a beleza de ver o crescimento de uma criança. Nada.

Ao desabrochar dos anos, você ficou rebelde, querendo descobrir o mundo. Teve sua primeira briga na escola; aquela gatinha da frente não lhe dava bola, apesar de achá-la muito bonita. Seus pais viveram todas essas situações com você. O que muitos não sabem, entretanto, é que eles têm um inato poder de ler mentes. Especificamente, a sua. Se não falar, eles saberão. Eles saberão que há algo errado ou que há algo certo que não deve ser contado. Você, com seus sinais, não pode fugir ao olhar deles, mesmo que seja um bebê de colo ou um adulto formado.

Na adolescência, começam grandes preocupações. Uma fase da vida onde as liberdades causam dúvidas tão individuais que não merecem ser partilhadas. É um momento difícil onde o filho começa a desejar seu espaço, a questionar autoridade, projetando o que vai ser, como vai ser e com quem vai ser. Trata-se da época das tentações, onde a justaposição entre bebidas, drogas e princípios será alvo da intervenção paternal. Talvez tal intervenção não seja suficiente. O que eles podem fazer é lhe dar 50% do caminho; a outra metade cabe a você.

Ensimesmados para torná-los pessoas de bem, cada saída de casa, longe de seu castelo de proteção, é uma agonia. Cada caminhada no parque vira uma tortura; intensa, interna, porém latente de não saber a resposta para a pergunta: será que verei meu filho de novo? Você não sente. Vive sua plenitude. Mas eles sim, sentem e muito. Eu sei disso. Eles sentem, pois o futuro é uma ilusão e, de vez em quando, acidentes inesperados silenciam o mundo.

Quando pais perdem filhos, não há indulgência. A vida que se foi é a morte de uma parte de si, que não retornará mais. Após longos anos cuidando, amando, sua criança vai a uma festa qualquer, supostamente segura e com uma boa estrutura, e se envolve na maior tragédia que o Rio Grande do Sul já viu. Jovens universitários que tinham planos e uma trajetória inteira pela frente – corrompidos pela morte.

Imagino que deixar voar a andorinha que carregaram em suas mãos é um sofrimento terrível de digerir, mas é um caminho natural. O caminho é inatural, entretanto, quando a andorinha lhes é tirada de forma prematura. Os pais ensinam aos filhos os primeiros segredos; depois aprendem, com os filhos, os últimos.

Esses pais jamais aprenderão. Presto minha solidariedade às vítimas.

Publicado em http://gabrielguidotti.wordpress.com/

 


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