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Ser ou parecer ser, eis a questão Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Terça, 23 de Abril de 2013 - 16:05

Está matéria foi publicada no jornal Correio do Povo

no domingo, 28/04, na página 2

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Ao cruzar a sala de estar, notei em uma estante qualquer um porta-retratos que guardava uma fotografia sob um invólucro de vidro. Os cabelos brancos condenavam o patriarca. A matriarca, alegre, segurava um pequeno; talvez um neto ou bisneto. Olhei para imagem e vi uma família feliz, sorrisos largos, compondo um termo antigo que não se configura mais com a frequência de outrora: o resgate das memórias. Na geração das redes sociais, o verbo recordar deu lugar a outro que não possui o mesmo valor: exibir.

Ser ou_parecer_ser

Quem passasse por aquela sala saberia que, em algum lugar do mundo, uma família foi feliz. Suas lembranças estariam imortalizadas pela imagem, e os momentos importantes, tristes ou felizes, ficariam registrados para sempre. Esta realidade mudou. Não que eu seja nostálgico ao ponto de exigir um álbum ou uma seleção mais criteriosa neste universo de facilidades permitido pelas tecnologias digitais, mas aquela foto tinha valor, pois exprimia significados, diferente de outras que são jogadas e esquecidas em milhões de páginas na rede ou escondidas dentro de um cd ou pen drive.

Em tempos de redes sociais, a necessidade constante de informação alterou a vida das pessoas. Todos se tornaram vinculados à rede, com uma busca desumana pela conectividade, escravizando o mundo aos confins da internet. Não estar conectado é tornar-se um alienado aquém das principais conversas do dia a dia. Ao mesmo tempo em que os usuários procuram ligar-se ao plano digital, não percebem que o computador se tornou uma própria extensão de quem eles são; uma espécie de identidade que não exprime sentimentos e que não possui um coração pulsante – apenas conteúdo audiovisual representativo.

No universo infinito da internet, as pessoas estão se moldando para uma inclusão cada vez mais intensa - os fenômenos virais são uma grande prova deste fato. Quem consegue explicar o porquê de um acontecimento bobinho ou um vídeo engraçadinho se espalhar em profusão? Há conteúdo que o justifique? Às vezes indivíduos compartilham conteúdo sem nem saber por que, apenas para jogar informação no sistema. Alguns, sensatos, procuram entender o fato antes de exibi-lo, o que não é o caso de grande parte da população internética.

O Facebook, principalmente ele, provou que Willian Shakespeare estava errado em seus pensamentos. Ser ou não ser não é a questão e nunca foi. O correto é “ser ou parecer ser”. A era digital apenas agravou este caso, induzindo as pessoas, dentro de suas liberdades, a não ter liberdade alguma. O que eram fotos para recordar hoje são imagens vazias para mostrar o que se está fazendo 24 horas por dia. Desse modo, vivemos um exibicionismo interminável que apenas involui a identidade humana e traz cada vez menos informação edificante, exigindo, dos receptores, um processo cognitivo amplo para não se influenciarem com as inutilidades compartilhadas.

Portanto, o verbo exibir age livremente com um destaque sem precedentes na história. Mostrar-se, pavonear conquistas ou estilo social é uma mácula que afere a todos, revertendo esta linha de ação em uma preocupação com o futuro da conectividade. Afinal, a dependência da rede é um recurso positivo ou negativo? Até que ponto as pessoas estão vivendo por intermédio de uma tela de computador, prendendo-se a identidades providas pelas novas tecnologias? A resposta só o tempo dirá.

Visite também: http://gabrielguidotti.wordpress.com

 


Link Correio do Povo:
http://digital.correiodopovo.com.br/web/

 

 


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