O luto da luta Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Sexta, 28 de Junho de 2013 - 14:23
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Os movimentos sociais na era da internet permitiram aos navegantes conhecer de realidades que antes nunca haviam batido à sua porta. O grande volume de dados, entretanto, é um portal de conhecimento e desconhecimento, restando ao receptor saber filtrar o que é informação entre as mentiras deslavadas que se espalham de forma viral. Nesse contexto, quando leio a verdade nas palavras de um filho que, pela superlotação das emergências, viu o pai se contorcer em convulsões na fila, eu entro em reflexão.
 
A história, nas palavras de um amigo, diz o seguinte: “Meu pai teve seu quarto AVC e entrou no posto de saúde às 11h30 da manhã de uma quarta feira. Não existia leito em hospital nenhum em Porto Alegre, então tive que ficar esperando. Passei a noite com meu pai acompanhado de outra paciente; uma senhora que também sofreu um AVC. Na manhã do dia seguinte, meu pai teve uma parada cardíaca. Ele jorrava sangue pela boca sem parar enquanto o pessoal tentava reanimá-lo. Uma cena horrível, de deixar qualquer um desesperado”.
 
Felizmente, o pai de meu amigo conseguiu sobreviver. Após o falecimento de um paciente que se encontrava na UTI de um hospital em Porto Alegre, um leito foi liberado para o atendimento. Desse caso, entretanto, fica uma pergunta maior. Os sete bilhões investidos em estádios da Copa poderiam ter diminuído o sofrimento dessa família? Em caso de um novo AVC, para qual arena o paciente deve se dirigir?
 
Nessas oportunidades, vemos quais são as prioridades de um país em desenvolvimento. O que causa a indignação do povo é ver o dinheiro sendo investido em grandes obras de construção civil, sendo que os serviços de base, que salvam vidas, estão jogados às traças. Enquanto torcedores gritam gol, pacientes morrem em função da péssima estrutura dos postos de saúde. Paralelamente ao levantamento de uma taça, pessoas levantam seus parentes mortos do chão de corredores de hospitais.
 
O que foi dito, mas não debatido na “compra” da Copa de 2014 todos já sabem. O Brasil não tem condições de sediar um evento desta magnitude. Não por falta de dinheiro, mas sim pelo contraste social que o investimento gera. Em um país de grandes desigualdades, gastar com eventos em detrimento de qualificação dos serviços é uma afronta à inteligência do próprio cidadão que, indignado, foi às ruas protestar.
 
As manifestações não são um acaso de reacionários, pelo contrário, são o grito de um povo que cansou das prioridades da política. Em época de eleição, candidatos são convincentes e honestos. Após, promovem ou apoiam iniciativas lesivas ao cidadão. O povo não aguenta mais ser explorado e, assim, se manifesta pelas cidades do Brasil. Mesmo o discurso de Dilma Roussef na televisão, que objetivou acalmar os ânimos, não foi convincente ao ponto de arrefecer o ímpeto deste grande movimento nacional.
 
Mais do que uma crítica acintosa ao sistema vigente, a revolta é de pessoas como meu amigo, vítimas de uma estrutura insuficiente. Se assistir ao jogo de futebol aprimorasse o sustentáculo de uma nação, então o gasto seria pleno e correto. Contudo, em um sistema falido cujas prioridades não compactuam os desejos da população, cidadãos permanecem a mercê da inoperância governista. Quantos mais precisarão sofrer para isso mudar? É preciso revogar a ditadura partidária e reformular a política. Somente assim a crença ao regime democrático voltará a ter a força de outrora.
 
No momento, portanto, a oposição é o povo.
 


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