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Chamas da negligência Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Sexta, 12 de Julho de 2013 - 16:52


felixO Rio Grande do Sul ainda não se recuperou da terrível tragédia que acometeu Santa Maria no início de 2013. O estado, entretanto, parece que não cansou de episódios envolvendo a destruição pelas chamas. O último caso foi o incêndio de grandes proporções no Mercado Público de Porto Alegre, que avariou parte da estrutura da edificação. As imagens são fortes e, independentemente da porcentagem de danos, feriram o coração de um dos cartões-postais da capital dos gaúchos.

O fogo começou por intermédio de um curto-circuito no segundo andar do prédio. A destruição maior lá ficou, tomando o telhado e alarmando a população gaúcha para uma possível destruição viral em toda a estrutura. Entretanto, as informações iniciais não se confirmaram, de modo que o colapso ficou bem menor do que o previsto – diferentemente do que muitos divulgavam freneticamente nas redes sociais.

Nos fatos que se sucederam, há uma grande coincidência entre a boate Kiss e o acontecido no Mercado Público. O local mais democrático de Porto Alegre, como é conhecido o Mercado, foi ferido em função de um sistema que parece adorar oferecer potenciais perigos à população. De acordo com informações dos bombeiros, nunca houve plano contra incêndio. Nunca! Assim, a ausência de uma fiscalização eficiente do poder público colocou, novamente, a vida de muitas pessoas em risco.

Este ano acendeu, além das chamas de tragédias, uma enorme fogueira de alerta ao povo brasileiro. Um estabelecimento histórico que compõe o patrimônio cultural de Porto Alegre não era protegido por um plano contra incêndio. Portanto, a pergunta que me vem à cabeça é: onde estaremos protegidos? Por mais que o caso seja diferente da boate Kiss, a ausência de um controle de prevenção efetivo mostra que no Brasil a vida vale muito pouco, e a efemeridade da jornada se comprova nos motivos negligentes pelos quais podemos deixar este mundo louco.

No caso da tragédia de Santa Maria, os donos da casa noturna fizeram questão de transformar a Kiss em uma prisão sem grades, porém com portas pequenas e ausência de saídas de emergência. O Mercado não goza de tal condição, sendo arejado por aberturas amplas que testemunham a entrada e saída de milhares de pessoas diariamente. A engenharia do prédio, contudo, não justifica o risco imposto aos seus visitantes. Por pouco, o desafio ao fogo não resultou em outra triste memória.

Enquanto isso, as famílias de Santa Maria continuam chorando pela morte de seus parentes – esperando que a justiça dos homens seja aplicada. No Mercado, a situação é diferente, mas não deixa de ser igualmente lamentável. O trabalhador fica impedido de exercer sua atividade até que o local reabra, além de, provavelmente, ter de arcar com profusos gastos pela recuperação dos estabelecimentos.

O sistema me parece tão viciado que os problemas são resolvidos por inflexão da mídia, ou seja, os maiores esforços são dirigidos para aquilo que está em maior evidência. Se amanhã um novo acidente de avião acontecer no Brasil, os olhares irão para questões de tráfego aéreo, até que uma nova tragédia vitime pessoas em outra boate e, assim, sucessivamente. A ideia de prevenção, definitivamente, não habita o dicionário do governo: é preciso ocorrer o sinistro para os responsáveis pensarem em estratégias eficientes. Vamos esperar que as chamas da negligência encerrem 2013 sem levar a vida de mais ninguém.

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