A negação Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quinta, 05 de Dezembro de 2013 - 15:04

paulSempre fui uma pessoa pragmática. Quando algo não ocorria conforme o esperado, tratava de equacionar as causas para resolver a questão. Meu pragmatismo, contudo, me torna chato, pois muitas vezes me sinto incapacitado de pensar com a emoção. Sou 70% razão, eu diria, e constatei, há muito tempo atrás, que tudo tem uma origem, um motivo e um efeito – positivo ou negativo.

Recentemente, uma menina morreu após clicar uma foto do velocímetro do carro que a transportava. 170km/h a imagem condenava. De imediato, meu excesso de objetividade entrou em ação: “não vai fazer falta”, eu disse, pois a culpada foi ela. Mas não pude deixar de me arrepender de minha frase após assistir uma matéria com os pais da menina em questão.

A família praticava a arte da negação, um dos mais eficientes sistemas de defesa do ser humano. “Não é possível”, afirmaram. Não parecia palatável a sua princesinha, a garotinha que viram crescer, atuando daquela forma. Era a realidade. A negação é o motivo pelo qual saímos todos os dias sem pensar nas incontáveis razões pelas quais podemos morrer. Sabemos que estão lá, mas preferimos reorganizar nossas prioridades, de modo a afastar o perigo e viver com certa tranquilidade.

Eu não neguei; fui direto ao ponto. Uma pessoa consegue ser tão estúpida em não raciocinar que entre os 170km/h e o inferno há apenas um passo adiante? Talvez ela não tenha conseguido pensar desse modo na hora, o que causou uma terrível tragédia. Seus pais nunca mais serão os mesmos e, por eles, me arrependo de minha frase, pois ela fará falta, e muita. Fui pragmático em observar as circunstâncias da morte, porém esqueci de seus efeitos. Feri meus próprios critérios.

No mesmo dia que tomei conhecimento da tragédia com a menina, soube do acidente que vitimou o ator Paul Walker, da popular série cinematográfica “Velozes e furiosos”. Com ele, eu já tinha certa identificação em razão de dezenas de filmes assistidos, e neguei a acreditar, em primeira instância, no seu falecimento. De certa forma, Paul era mais próximo de mim do que a menina, sendo que por ele eu senti. E neguei.

Fiquei severos minutos olhando para a TV, incrédulo. Um homem jovem, boa pinta, agente de caridade em nível mundial: carbonizado em vida. Pratiquei minha autodefesa assumindo condição de resguardo. Dois fatos estavam consumados: o falecimento de um famoso ator de Hollywood e minha injustiça com a menina. Fui apressado em julgá-la pela foto postada em uma rede social, mas fui conivente com a morte de Paul. Minha avaliação teve medidas diferentes.

Hoje, gostaria de negar o que não posso. Seria de grande valia esconder as milhares de mortes no trânsito, desejando que a estatística nunca toque aqueles que amamos. A negação pode ser tola e irracional, mas notei que gera clemência, mesmo resultando da articulação de palavras como “Bah”, “coitada”, “que triste”, esperando – o interlocutor – que aquela possibilidade nunca vire realidade. Infelizmente, pode acontecer, mas preferimos negar, pois negar é viver.

Negar é entender o sofrimento do outro sem julgamentos precipitados, mesmo sobre o teto fino dos descuidos. Não existe razão nisso, apenas lamento pelas vítimas. E eu, que era 70% razão, notei que eu estava sendo, na verdade, 70% emoção. O que aconteceu com a menina e com Paul não pode acontecer. Com ninguém.

E assim segue a vida.

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