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Os últimos segredos Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Terça, 28 de Janeiro de 2014 - 16:37

kissNaquele dia, minha mãe ligou às pressas para descobrir onde eu estava. Fez igual com meus dois irmãos, mesmo sabendo de nossa distância à cidade de Santa Maria, onde 242 jovens perderam a vida na maior tragédia da história do Rio Grande do Sul. Ali, em um ato preventivo da mulher que me deu a vida, notei o que representa a mínima possibilidade de perder um filho. Ainda não consigo digerir, portanto, o encerramento efetivo e precoce da vida de centenas.

Ninguém deveria viver para enterrar a própria cria. Esse caminho é inatural. Se com os pais aprendemos os primeiros segredos, ensinamos a eles os últimos. Os familiares de Santa Maria, entretanto, jamais abraçarão essa oportunidade e guardarão na memória aquilo que poderia ter sido – o potencial destruído pela incompetência do homem. Não falarei em ganância e muito menos em acidente. Mencionarei sim as palavras causa e efeito – um lamentável efeito.

O incêndio separou amizades, corrompeu relacionamentos e produziu um sentimento de medo que percorreu as paragens do Estado. Criamos um mito forçadamente, indesejavelmente, e vimos no exemplo da terrível tragédia da boate Kiss um motivo para que acontecimentos assim jamais se repitam. A ingenuidade, contudo, reside em pensar que a partir de agora estarão todos seguros. Muito pelo contrário: um ano depois ainda não existem culpados. E muitos estabelecimentos teimam em não aprender com o passado.

Há um ano, o país virou pandemônio, e, ao mesmo tempo, se transformou no epicentro de cada abraço fraternal no filho que em casa residia. Presenciamos o espargir do agradecimento em paralelo às súplicas de fé para aqueles que não gozaram de tal sorte. Parece incredulidade ou sonho, mas a sensação é de que o evento foi tão inacreditável que não aconteceu verdadeiramente. No cinema, talvez. Mas com os preparativos da tragédia se delineando ao arrepio do poder público?

Kiko Spohr é apenas a ponta do iceberg. Neste processo, muitos mais deveriam ser os réus. A incapacidade do Estado em gerir a segurança do povo causa episódios como este, sempre fatais, que drenam a seiva de viver dos familiares remanescentes deste mundo louco. A dor nunca vai passar, todavia o grilhão maior fica no peito – aquela inalienável sensação de que o evento poderia ter sido evitado por intermédio de prevenções ignoradas.

Embora a busca por justiça habite o coração de cada cidadão gaúcho, a resposta do Judiciário ainda não foi descoberta, e, creio, ainda levará considerável tempo para isso aconteça. A condenação, contudo, é um mero verniz que não trará paz às pessoas envolvidas, pelo simples fato de que nenhuma das vítimas retornará da morte. Nesse momento, mesmo os descrentes começam a pensar no jugo de Deus, desejando que os desígnios divinos tragam-lhes um mínimo de prosperidade para os anos que se avizinham.

Se a justiça não é suficiente para superar o lamento, então transformemos a tragédia em marco. Façamos com que as imprecações de 27 de janeiro de 2013 não perambulem em um destino errático. A memória de cada vítima deve prevalecer na história, de modo que a entrega de suas vidas não tenha acontecido por razão alguma. Pegando como base a nova lei estadual de planos de prevenção contra incêndio e contando com a fiscalização direta e incansável do povo, é a hora de gritar para o mundo ouvir: nunca mais!

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