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Faróis cintilantes Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quarta, 12 de Fevereiro de 2014 - 11:51

greve4Eu estava na sede da Carris, em Porto Alegre, às quatro horas da manhã de terça-feira (11). A ocasião era especial: cobrir a saída dos ônibus que retornavam, após 15 dias de paralisação, às escalas normais de tráfego. No currículo, já carrego a experiência de uma greve, a do Detran/RS, no segundo semestre de 2012. Ao chegar à Carris, me vi de frente com outra. Começo a suspeitar que o culpado seja eu.

Desde as primeiras horas da manhã, minha preocupação se ligava a movimentos civis que não acatassem o acordo da assembleia dos rodoviários, que determinou 100% da frota no dia seguinte, embora o estado de greve permaneça. Seria mais um momento de ócio onde o povo precisaria novamente mostrar sua força leal e valorosa para suportar a ausência da frota de ônibus?

Horas passadas, não houve percalço. A garagem da empresa estava com a saída límpida, quase cristalina; translúcida para aqueles que ponderavam suas expectativas. Quando o primeiro ônibus saiu, o peso da ansiedade livrou as costas, e notei que aquele dia seria diferente. Aquele dia presenciaria a volta do ritmo normal de uma grande cidade, que necessita do transporte público para girar. 

Ainda na penumbra, os faróis dos ônibus cintilavam como nunca. Durante vários dias abandonados, sem cumprir seu propósito, acredito que mesmo a máquina consegue pavonear sua alegria em voltar à ativa. Mas o comentário maior fica em cima das pessoas. Motoristas e cobradores sorridentes formavam suas equipes e partiam para mais uma jornada de trabalho. Se as condições deste trabalho ainda esperam o julgamento do tribunal, não interessa. Vi muitos abraços e confraternização, como se os colaboradores estivessem ansiando pelo retorno ao fluxo normal de operação.

A greve, inegavelmente, se estendeu demais. Nem empregadores, nem empregados esperavam que o impasse levasse tanto tempo para ser solucionado. Sem fazer juízos de valor, acredito que ambos os lados tenham fragmentos da razão, embora o choque de seus interesses tenha gerado a discussão. Greves são comuns no país e estão cada vez mais recorrentes. Talvez seja a hora de avaliarmos melhor o modo como conduzimos as relações trabalhistas.

Para arguir melhores condições, contudo, é necessário agir com equilibro para que o povo não saia prejudicado. Em Porto Alegre, a ausência de ônibus nas ruas causou uma série de transtornos, a começar, principalmente, pelos prejuízos econômicos de estabelecimentos desfalcados no número de funcionários e no número de clientes – ambos incapazes de transladar. Em duas semanas de greve dos rodoviários, houve queda média de 60% das vendas no comércio de rua e de shoppings na Capital em relação ao mesmo período do ano passado. Além dos números negativos de janeiro, fevereiro também está comprometido, segundo o Sindicato dos Lojistas da Capital (Sindilojas).

Sem o transporte público, os cidadãos porto-alegrenses se resignaram à adaptação, movendo catarses para conseguir se locomover aos seus locais de destino. Causou-me alegria, assim, ver os ônibus deixando a garagem. Imaginei os milhares de pessoas que se beneficiam do transporte todos os dias, indo ao trabalho e voltando para a casa. Independentemente dos prejuízos da greve, essa sensação não tem preço.

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