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Escrito por Gabriel Guidotti   
Terça, 22 de Abril de 2014 - 21:02

bernardoVoe, anjo liberto, você nos orgulhou com seu exemplo. A morte lhe conduziu ao éter, onde a perversidade e o calculismo não possuem vez. Em terra, resta apurar os fatos, perseguir a ferro e fogo os conspiradores do mal e sentir saudade de um menino que o povo brasileiro jamais conhecerá a fundo, mas cuja história está sendo reconstruída fragmento por fragmento, até desembocar em uma tragédia anunciada. Bernardo Uglioni Boldrini morreu.

Quem são os culpados? Unicamente os agentes do crime? Ou há outros indivíduos com sangue nas mãos – o sangue vertido pela aplicação lacônica da lei. Em janeiro, Bernardo esteve no Ministério Público de Três Passos, no Rio Grande do Sul, e relatou detalhes de sua rotina, marcada pelo descompromisso paterno e falta de amor na casa em que vivia. A iniciativa virou processo, mas sem resultado. Como não havia registro de violência física, o juiz optou por tentar preservar os laços familiares, suspendendo a demanda por 60 dias – para dar chance de uma reaproximação.

“Justiça é dar a cada um o que é seu”, explicam os teóricos do Direito. O conceito é incompleto, pois “dar a cada um o que é seu” exprime, em minha concepção, uma ideia de posteridade, a partir de um fato gerador refletido nos órgãos do Judiciário. Onde estaria a noção de precaução? O Brasil quer a vida de Bernardo de volta. Se soubesse do caso, o país desejaria uma proteção eficiente ao pobre menino. A justiça deu o que era de todos? “Garantir a cada um o que é seu”, começando muito antes da petição – essa deveria ser a linha de ação.

Bernardo foi vítima de uma linha de montagem chamada justiça. Quantos meninos de apenas 11 anos têm o discernimento de entender quão fatídica é sua realidade e buscar ajuda às autoridades competentes? Ali, naquele momento, era hora de notar que se tratava de um caso diferente; diferente, grave e urgente, embora não tenha sido interpretado dessa maneira. Bernardo entrou na fila, tornou-se o que todos os seres humanos são ao Judiciário: um número espalhado em processos colacionados nos foros e tribunais.

Em inúmeros casos, os operadores não conseguem ser francos com o espírito da lei, aplicando textos literais e não olhando o caso concreto com o empenho necessário. A crítica não se dirige à tecnicidade das decisões, mas sim ao processo robótico que traduz os julgamentos. O que desejo afirmar? Falta sensibilidade. A preocupação em auxiliar a sociedade não parece real.

É a hora de reavaliar a frieza com a qual o Judiciário determina o destino das pessoas. Precisamos salvar Bernardos, proteger Isabellas, dar condições dignas às milhares de crianças vítimas de maus-tratos dos pais. Os culpados são eles, que ignoram nomes e se prendem a dados. Mascaram a realidade com o inalienável texto legal e se eximem de discussões profundas, que exigem envolvimento com as pessoas. Eles, que lustram o ego por superioridade e poder, se esquecem da mais inevitável condição humana: todos viram cinzas a terra.

Leandro e Graciele Boldrini são meros suspeitos de um homicídio. A se confirmarem as informações prestadas pela Polícia Civil, foram vítimas de sua própria natureza doentia, seja pela ação da madrasta ou frente a omissão do pai. Dada a repercussão que o caso tomou, a “justiça” dos homens concederá uma resposta digna à cidadania brasileira, se permitindo o engajamento debatido ao longo deste texto. Uma salutar exceção.

Bernardo está em um plano melhor. Confio nisso. Nós é que somos os infelizes por termos de presenciar, diariamente, tamanho desatino com o povo.

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