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Mordida no preconceito Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Sexta, 02 de Maio de 2014 - 13:04

mordidaA bravura está no coração de cada um. Bravura de lutar contra acepções equivocadas; bravura de promover a paz em um mundo assolado pela guerra; bravura de ser superior quando atacado por atitudes pequenas e mesquinhas. A bravura maior, contudo, é aquela que enfrenta o preconceito da sociedade com um exemplo. A punição já não assusta mais os infratores. É preciso ir além – fazer história para provar um ponto.

Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona, deu show. No último domingo (27), pelo Campeonato Espanhol, os catalães enfrentavam o Villarreal, fora de casa. No segundo tempo, a torcida local jogou uma banana em direção ao jogador enquanto ele se preparava para cobrar um escanteio. Desta vez, a abjeta intenção do racista não deu certo. Com naturalidade, Daniel pegou a fruta no chão e comeu-a, tirando sarro da ofensa e rebatendo o preconceito com a classe de um campeão.

Em terra multicultural é possível ser bom, mau, indolente, perverso e calculista: tudo em espasmos mínimos de tempo. A rotatividade dos sentimentos é motivada pelo contínuo das circunstâncias. Fatos felizes vão trazer felicidade. Fatos tristes causarão desfecho contrário. E no meio do “ziriguidum”, uma incapacidade humana bastante tangente: olhar para o próprio umbigo. Esse é o grande problema dos racistas e daqueles que forçam transparência – todos que não mexem um dedo para construir um mundo melhor.

Quando é conveniente, indivíduos assumem o caráter de negação. “Existem muitas pessoas homofóbicas, mas eu não sou”. Que tal, “existem muitas pessoas racistas, mas eu não sou”. E, ainda, “existem muitos homens machistas, mas eu não sou”. Ninguém é, embora o preconceito exista no país e no mundo. Qualquer análise de discurso concluiria uma distorção no depoimento-cidadão. Distorção esta também conhecida como “mentirinha social”. A realidade é dura e embaçada.

Dizem que as pessoas são parecidas. Leem os mesmos jornais, assistem aos meus filmes, andam nos mesmos ônibus. Quando o assunto é opinião, contudo, a tenuidade da linha se revela abertamente. Inabalável é a Carta-Cidadã brasileira de 1988, que determina a igualdade perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Documentos internacionais defendem o mesmo.

Veja: pensamentos racistas, homofóbicos e machistas em pleno século XXI? Não existe mais espaço para certas discussões. Elas foram, simplesmente, limadas pela ascensão da pós-modernidade. Isso não impede que permaneçam como entraves nas relações humanas. Onde existir cultura que prega certas posturas, dali sempre resultará a ebulição das ideias desprezíveis. E é esse modelo que precisa ter fim.

Daniel Alves mostrou que é possível combater a estupidez de uma minoria com irreverência e certa dose de humor. O motivo maior, contudo, não pode ser uma mera partida de futebol, mas sim a fraternidade entre as pessoas, direcionando-as a áreas traduzidas por modelos e expectativas. Chegará o dia onde o preconceito se tornará uma memória de muito mau gosto? É desejável que sim, embora essa batalha não possa ser travada sozinha. Deve começar no berço, no papo do bar, na conversa dentro do ônibus e, principalmente, no coração de cada um. Pelo bem da humanidade, se ver, denuncie. O exemplo é você que dá.

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