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As cores do consumo Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Terça, 06 de Maio de 2014 - 00:23

fei3Pacto de vida. Adentrar o shopping e curtir as promoções de malhas, sapatos, blusas, jaquetas e uma infinidade de outros itens. Em verdade, o consumo é um processo extremamente democrático; não exclui ninguém de sua equação. Quem tem alguns vinténs é bem-vindo ao clube e poderá escolher entre aqueles produtos que lustrarão o ego e deixarão a carne mais apresentável ao açougue humano chamado planeta Terra.

Em uma fileira, blusas das cores branca, preta, vermelha e amarela. Todas indispensáveis. Todas preenchendo gostos individuais. Por vezes, um artigo aparece na novela das 9h e aí ganha status de sobremundo. A correria para adquiri-lo é digna de uma São Silvestre desvairada. O desfecho é sempre o mesmo: “estamos em falta”. Os compradores vão à loucura. O corpo resiste, sisudo. A alma chora copiosamente.

Não há preço que negue o bel-prazer. Pode custar caro, caríssimo; pode custar o valor de um carro popular, mas o indivíduo que assoma sua vontade ao pico da obstinação, consegue. O dia após o outro é que é problemático. Se arrependimento matasse, não existiria mercado no globo. O dinheiro empregado aqui, falta ali e pode faltar lá na frente, o que é mais grave. Prioridades…

“Estamos todos nus diante de Deus”. Mas Deus não sabe nada de finanças. Sabe de geologia, astrologia. Só não sabe de dinossauros. Adão e Eva, de tanguinha, se surpreenderiam com o consumismo que adveio ao surgimento das novas tecnologias. Agora comprar é fácil. Vivemos um mundo taylorista-fordista! E as linhas de crédito então… as pessoas ficam endividadas, mas compram. Compram e ficam felizes. Gastam o que tem e o que não tem para obter as peças dos sonhos.

O vaticínio, contudo, é outro. Estamos, sim, pelados na escuridão, Deus sabe bem. Então por qual razão a blusa branca é tratada como superior à blusa preta? E a blusa vermelha, que parece não se posicionar, sempre considerada minoria? As amarelas, então, tem uma gola repuxada que não agrada certas classes. Blusas… gostaria de saber o motivo de tanta complexidade. Vocês, providas pelo dinheiro, são racistas. O dinheiro, provedor das blusas, é igualitário. Dialética Hegeliana para o bom admirador.

Pensando bem, o dinheiro não pode ser o herói dessa história. Ele é interesseiro, gera influência. Vai ver a aceitação das blusas brancas, negras, vermelhas e amarelas – ah, esqueci-me de mencionar as adereçadas com purpurina – não é honesta. Será o próprio dinheiro um gerador escuso das desigualdades? Afinal, o que faz da blusa nova um produto melhor que a blusa velha? Existem peças entre 60 e 80 anos ainda muito bem apresentáveis, carregando no tecido a experiência da idade e a maleabilidade do uso.

Girando a moeda, a culpa enviesa às blusas, objetos incapazes de dar o grito de independência. Enquanto existir a filosofia do consumo que prega a branca acima da negra, as vermelhas e amarelas em segundo plano, e as “purpurinadas” encontrando resistência do mercado, bem, as pessoas permanecerão endividadas, arrependidas e insatisfeitas.

Mas belíssimas por fora.

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