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Linchamentos públicos na rede Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quarta, 23 de Julho de 2014 - 19:00

internet-1A internet deu asas a quem não podia voar. Por meio de milhões de “janelas virtuais”, as pessoas ganharam a condição de falar sem precisar dizer nada, ouvir sem estar escutando, achando que é fácil se eximir de toda e qualquer responsabilidade. A rede de computadores constitui imensas lavouras de personalidades digitais, que, muitos usuários têm dificuldade em entender, consagram-se em uma extensão de quem os indivíduos são. Destarte, como no mundo real, a web apresenta formas covardes e deploráveis de fomentar injustiças.

Em junho, Porto alegre viveu um episódio conturbado onde a rede manifestou sua intensidade sem encarar todos os fatos. No Facebook, um professor de uma conceituada universidade da capital compartilhou um link de cunho machista. A publicação hostilizava as mulheres e maculava a imagem feminina. Naturalmente, a resposta da comunidade acadêmica foi de total repúdio, sobretudo por parte do alunato, que pediu o afastamento do docente. Respondendo ao ocorrido, o professor afirmou em entrevista: “Foi um terrível, terrível erro de um texto não lido, de um compartilhamento às pressas”.

Para muitos na internet, a explicação não foi suficiente. Mesmo semanas depois da retratação, o caso ainda repercutia na rede. Inúmeros usuários permaneciam compartilhando o vacilo do professor, condenando-o sem direito ao contraditório – pessoas, estas, que nem o conheciam. Isso revela que qualquer fato incutido à responsabilidade de alguém pode ter condão absolutamente destrutivo, mesmo que a apuração das razões não tenha se dado da forma devida. O episódio ocorreu, mas não com a maldade vendida por centenas de compartilhamentos. Honestamente, o professor procurou se redimir. Ainda assim, o linchamento público já estava instaurado.

Fato mais grave aconteceu em São Paulo. Fabiane Maria de Jesus, dona de casa, foi espancada e morta após a publicação de uma imagem semelhante à sua na mesma rede social. Confundida com uma suposta sequestradora de crianças, dezenas de moradores do Guarujá não tiveram dúvida: puniram, sumariamente, a “criminosa”. O linchamento, no caso, saiu do meio digital e investiu no plano material por intermédio de um detestável equívoco espalhado pela web. Equívoco, este, que custou a vida de uma inocente.

O “compartilhamento” é um fenômeno digno de estudo por parte de comunicadores, cientistas sociais, antropólogos, bem como outros profissionais que tenham ingerência em redes sociais. Em muitas ocasiões, o repasse da informação não é estudado e, mais preocupante ainda, nem lido. O caso do professor da universidade de Porto Alegre mostra isso, ainda que ele tenha conseguido se explicar a tempo. Para a carreira dele, o erro poderia ter custado muito mais, em função de uma corja de receptores que não busca elucidar o que lê. Para Fabiane, não houve súplica que a salvasse da ignorância alheia.

As pessoas devem ter responsabilidade sobre aquilo que reverberam. A internet tem se mostrado injusta, sobretudo quando ausente se faz a segunda ou terceira versão de um mesmo fato. A rede propicia o acesso a um grande volume de informação; pouco se revela credível. Aliás, há páginas especializadas em espargir mentiras que buscam prejudicar a imagem de alguém. É imperativo moral de cada cidadão procurar entender se um acontecimento foi maquinado com prévio consentimento do usuário. Se sim, o motivos; se não, a denúncia. Caso contrário, todos estão em risco. Cuide o que posta, você pode ser a próxima vítima.

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