O custo da fama Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quinta, 14 de Agosto de 2014 - 17:14

flubberO homem é um ser coletivo. Jamais poderia viver isolado. Isso não quer dizer que momentos de solidão não sejam bem-vindos. Muito pelo contrário. Há raciocínios que precisam ser realizados junto ao alter ego, sem a inserção de interpretações externas. Entretanto, quando a fama de um indivíduo suplanta sua própria liberdade, essa solidão se torna um bem intangível, e as pessoas, frágeis para lidar com a superexposição ou com a intermitente pressão diária, acabam se entregando a um coquetel de remédios ou, não raro, às drogas.

Robin Williams morreu. Michael Jackson morreu. Heath Ledger morreu. Nomes importantes para a sociedade, mas pessoas comuns ao ocaso da vida. As celebridades estão morrendo. Os artistas estão morrendo. Anônimos também estão morrendo. O que explica essa onda de suicídios coletivos? Chegaremos lá. A humanidade está adoecendo. À morte entrega sua incapacidade de suportar dissabores da fama e do prestígio, seja por excesso de exposição, seja pela perda de valores simples do cotidiano, como ir ao parque, fazer compras no shopping ou curtir o pôr do Sol em uma fria tarde de inverno.

A condição de celebridade cobra um preço alto; é a prova de que dinheiro não espelha a felicidade. Pode auxiliá-la, no máximo. Atores e atrizes não suportam a outra face da moeda. Pessoas tentam incitá-los o tempo inteiro, a fim de criar factoides. No mercado, a privacidade de um artista vale muito. Resultado? O medo. Medo de ser alvejado a qualquer momento por algum demente religioso. Medo cruzar o pórtico de casa e cegar-se pela infinidade de flashes dos paparazzi. Medo do mundo.

Os famosos acumulam dinheiro para centenas ou milhares de vidas, mas se esquecem de viver a sua. Entram em depressão, abusam da Medicina. Perdem a noção do certo e errado e abraçam qualquer meio para aliviar a dor. E conseguem, mas, em troca, entregam muito mais do que poderiam suportar. Os capítulos seguintes refletem desolação e comoção das pessoas que lhes idolatravam. O mesmo vale para empresários de grandes corporações, que veem seus empregados como um tubo de pasta de dente; espremendo, sempre se tira um pouquinho mais. No íntimo, entretanto, a intransigência destes gestores gera um arrependimento que vai corroendo a alma gradativamente. E esse preço não há cheque que pague.

Artista ou anônimo, não importa. As pessoas estão cada vez mais frágeis e acanhadas. E não é o corpo que está enfraquecendo, mas sim o espírito. A resiliência da humanidade está sendo posta em xeque e cabe a cada indivíduo despertar sua força interior para suportar o genocídio espiritual que a sociedade pós-moderna anda introjetando. A culpa não é da internet e muito menos da Medicina, que busca amparar indivíduos carentes. A culpa não reside em novas tecnologias, que afrontam, cada vez mais, nossos momentos íntimos. A culpa é da civilidade – ou da falta dela.

A culpa também não é de Robin Williams, uma estrela que agora apagou seu brilho no céu. Ele foi um grande ator; contagiou milhões de pessoas por meio de seus filmes divertidos e inusitados. Mostrou que a ficção poderia imbuir a realidade com um pouco mais de gentileza e alegria. Afirmou, em personagens inesquecíveis, que a felicidade, temperada por largos sorrisos, é o principal combustível mundano, pois reduz desigualdades e afasta doenças que dominam a alma. E, inequivocamente, curar a alma, coletivamente, será o principal fator de transformação da sociedade. Caso contrário, o futuro é uma incógnita.

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