Crise seletiva Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Segunda, 02 de Fevereiro de 2015 - 11:15

salariosNo Rio Grande do Sul, a solenidade de posse de José Ivo Sartori – em 1º de janeiro – não teve a pompa do que se viu no Palácio do Planalto, quando Dilma vestiu seu segundo mandato. Ainda assim, o novo governador assumiu a função pela qual foi eleito. Ao se pronunciar a dezenas de convidados que ocupavam os corredores do Piratini, ele mostrou a mesma simplicidade com que conduziu sua campanha. O arcabouço do peemedebista será o reajuste das contas do Estado, atormentadas por uma dívida bilionária. Na ocasião, afirmou que uma interlocução cada vez maior com o cidadão, favorecendo a transparência, também está em seus planos. Entretanto, este diálogo já começa arranhado.

Para a nata política da sociedade, isto é, as pessoas que ocupam as esferas de poder, não há crise econômica. A prova disso é que Sartori, contrariando a política de contenção que impôs ao povo gaúcho no início de sua gestão, sancionou lei que reajusta o salário de membros do Executivo, Legislativo e Judiciário. Trata-se de um reajuste considerável, distante como a maior parte do povo brasileiro jamais terá o prazer de desfrutar.

O texto aumenta para R$ 25,3 mil o subsídio mensal do governador e dos próprios deputados. E para R$ 18,9 mil o subsídio mensal do vice-governador e dos secretários de Estado. Antes, o salário mensal do governador era de R$ 17,3 mil, sendo que o vice e os secretários recebiam R$ 11,5 mil. Os Parlamentares, por sua vez, ganhavam cerca de R$ 20 mil. Como se vê, números gordos mesmo antes da majoração. Isso sem considerar todos os privilégios inerentes às funções.

Os acréscimos suplantam a inflação dos respectivos períodos onde não houve reajuste. Assim sendo, a preocupante turbulência financeira que passa o Rio Grande do Sul afeta o governo seletivamente: à sociedade, o discurso é de economia e responsabilidade com gastos. Para políticos e membros do Judiciário, não há crise ou retenção do capital público. Lembrando que, em dezembro do ano passado, os ilustres parlamentares ratificaram projeto de lei complementar que disciplina suas aposentadorias. O texto prevê que deputados estaduais com 35 anos de mandato e 60 anos de idade podem se aposentar com o salário integral. Não atendendo ao parâmetro, ganharão valores proporcionais enquanto inativos. O projeto está na mira da OAB, que o considera inconstitucional.

Se os campos da política fossem férteis em empenho, honestidade e, especialmente, assiduidade, talvez as pessoas avaliassem de forma diferente as últimas decisões da Assembleia – bem como a aprovação de Sartori. Não é o caso. E não é a primeira, e nem a última vez, que a aprovação de leis visando o interesse da classe política – unicamente – entra na pauta. A indignação da opinião pública, contudo, bate na couraça dos três poderes. Contanto que a situação seja benéfica, vale suportar algumas críticas.

O reajuste é um direito de todo cidadão, político ou não. Entretanto, não há equidade para com outras classes. A si, os deputados são rápidos e eficazes em revisar salários (acima da inflação); ao funcionalismo público, precisam de uma hecatombe para fazer concessões. E muitas vezes a luta é inglória. No Brasil, esperar uma sociedade mais justa constitui uma abstração das mais irônicas. Sem o exemplo de quem detém o poder, como imaginar um futuro diferente? O sistema parece incapaz de se reciclar.

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