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Vandana Shiva aclamada no Fronteiras do Pensamento Imprimir
Escrito por Renato Araújo   
Segunda, 04 de Junho de 2012 - 23:07

Vandana-ShivaA ecologista indiana Vandana Shiva proferiu sua conferência: "Democracia da Terra", no dia 25 de maio, durante o Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS. Antes da conferência, os participantes assistiram a uma apresentação de dança promovida pelo Studio Clio, parceiro do Fronteiras do Pensamento.

A ecologista compartilhou seu conhecimento e experiência com os participantes do evento ao trazer todo o seu conhecimento e experiência como ativista do movimento ecológico há mais de 40 anos. Vandana é reconhecida internacionalmente pela sua luta na década de 1970, junto ao Movimento das Mulheres de Chipko, um grupo que se amarrou em árvores para impedir o seu corte e a criação de um depósito de lixo atômico.

Ganhadora do Right Livelihood Award em 1993, que é considerado o Prêmio Nobel Alternativo, por sua incansável luta pelos direitos da Natureza, a palestrante, em sua conferência, abordou temas profundos, deixando explícito que necessitamos de uma nova democracia que respeite os direitos da Natureza: uma democracia da Terra.

Em sua juventude, acompanhou o Apartheid, regime de segregação racial da África do Sul, no qual os negros tiveram seus direitos civis restringidos. Para a ecofeminista, esse tipo de separação encontra-se na mente, tendo ela percebido que hoje vivemos um ecoapartheid, em que a 'humanidade se sente separada da natureza'.

O sistema produtivo humano é ineficiente

GMO-EmperorVandana relata que durante o voo para o Brasil foi abrir um pacote de bolachas e percebeu que, devido à quantidade de embalagens, a energia para produzir aquelas embalagens era superior ao valor energético da própria bolacha. Usou esse exemplo para afirmar que atualmente se gasta muita energia na produção de alimentos.

Defensora da agricultura ecológica, a palestrante apresentou os diversos motivos pelos quais o agronegócio é ineficiente. Primeiramente deixou claro que o sistema produtivo químico na agricultura somente pode ser considerado produtivo se não forem contabilizados todos os investimentos necessários para mantê-lo, além das perdas ambientais.

Comparado com um sistema de produção ecológico, o químico é extremamente deficitário, pois, além de necessitar de muitos insumos químicos, é produzido em monoculturas. Enquanto o sistema ecológico permite a produção de culturas consorciadas e não é dependente de insumos químicos.

A monocultura da mente

A ecofeminista defende a visão de que o modelo de desenvolvimento humano teve seu norte definido pela influência do filósofo inglês Francis Bacon, que no século XVII constituiu uma nova maneira de estudar os fenômenos naturais. Bacon propõe o domínio da natureza em favor do homem, passando de dominado para dominador da natureza.

Para os povos nativos das Américas, a natureza possuía um significado sagrado, e essa visão era rechaçada pelo novo paradigma. A partir desse ponto, institui-se a morte da Natureza, perdendo sua relação materna para se tornar perigosa e inerte. Nesse mesmo período ocorreu a ascensão do modelo mecanicista, segundo o qual todos os fenômenos que se manifestam nos seres vivos são mecanicamente determinados.

Vandana vê nessa mudança de paradigma o que ela chama de 'monocultura da mente'. Dentre as consequências dessa visão de dominação e subjugação da Natureza, se encontra o patenteamento da vida. Para a ecologista, a patenteação deve ser utilizada para preservar os direitos de criação intelectual, mas patentear a vida, como no caso das sementes, é o que ela chama de biopirataria.

Esse mecanismo de patente é utilizado pelas empresas de engenharia genética para obrigar os agricultores a pagar royalties sobre as produções que fazem uso de sementes geneticamente modificadas. A ecologista afirma que para patentear sementes teríamos que negar a evolução da Natureza.

Escravos novamente

Mahatma Gandhi é uma grande influência de Vandana Shiva e, para ilustrar a situação atual da Índia, traça uma relação histórica sobre a produção de algodão e a escravidão do seu povo: na época em que Gandhi lutava pela independência da Índia, a manufatura do algodão para produção de roupas era realizado pela colônia britânica e o povo indiano pagava altas taxas para comprar o tecido que era feito com o algodão que eles mesmos cultivavam.

Como a filosofia de Gandhi era a prática da não-violência, ele passou a incentivar o boicote do tecido britânico e a defender a produção local, sendo que ele mesmo tecia suas roupas. Isso fez com que o povo indiano deixasse de ser escravo pelo domínio econômico exercido pela colônia inglesa. Atualmente o algodão voltou a ser motivo de escravidão na Índia.

Com a introdução das sementes de algodão geneticamente modificadas, os agricultores tiveram, além de um aumento dos insumos, de arcar com os elevados custos dos royalties (95% das plantações de algodão da Índia são de algodão geneticamente modificado). Tais fatos levaram a uma onda de suicídios entre os produtores devido à incapacidade de pagar suas dívidas, trazendo novamente a escravidão para os campos indianos.

Não estamos mais produzindo comida

Vandana-Shiva-4Os seres humanos já foram acostumados a comer mais de 8 mil variedades de plantas. Atualmente, devido às monoculturas, reduzimos drasticamente as variedades de plantas que utilizamos como alimento. A palestrante critica o que ela chama de comodificação dos alimentos que tornam os alimentos em mercadorias.

Trocou-se o cultivo biodiverso por organismos geneticamente modificados, os quais foram inseridos na agricultura com a promessa de aumentar a produção e reduzir os insumos químicos. Hoje tais argumentos já se provaram falsos, pois houve a redução, tanto da biodiversidade quanto da produtividade, e um acréscimo do uso de insumos químicos, como fertilizantes e pesticidas.

Junto com outros ativistas, Vandana publicou o relatório "The GMO emperor has no clothes", que faz uma paródia com o conto de fadas "A Roupa Nova do Rei", na qual um rei é convencido de que usa uma roupa que só os inteligentes poderiam ver. Mas, como ninguém queria ser considerado burro, todos elogiavam a nova roupa do rei, afirmando conseguir vê-la. Somente uma criança, símbolo de inocência, falou: "O rei está nu!".

Nesse relatório é abordado o estado atual dos organismos geneticamente modificados, que os caracterizam como: uma falsa promessa e uma tecnologia falha. E entre as consequências de seu uso estão a proliferação de super pragas, o alto valor dos royalties e o intenso uso de insumos químicos, que inviabilizam a vida no campo.

Temos que redefinir o paradigma econômico

A ecologista não acredita na falsa economia verde, que transformou em mercadoria a poluição planetária. Mecanismos como crédito carbono não são eficientes e acabam por se tornar mais uma faceta do mercado especulativo, sendo mais importante o lucro das corporações e não a redução da degradação ambiental.

O Produto Interno Bruto (PIB), indicador usado para medir o progresso, representa todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região. No caso da Floresta Amazônica, que consome todo o carbono que produz, ela se torna improdutiva. Para explicar isso Vandana disse: "PIB não mede produção, mede comodificação. Se você consome o que produz, você não produz. Este é a lógica".

Temos que redefinir o paradigma econômico, defende a ecologista, para ela: "A produção não mede o que não plantamos - os ciclos que mantêm a vida do solo e da água, a alimentação da população local". Sendo assim, ela defende a criação de uma "Democracia da Terra", na qual a humanidade e a natureza progridam juntas, pois, para a palestrante: "O império da humanidade gerou sua crise".

Novas fronteiras do pensamento

Vandana-Shiva-2Com muita esperança, Vandana deixa claro que a luta ecológica está nas mãos de cada um, e afirma: "é preciso fazer a diferença reconhecendo que somos sujeitos em luta. Optar por alimentos orgânicos, cuidar do corpo e do outro com amor". Ela também deixa claro que o momento atual é o da criação de novas fronteiras, em que os seres humanos tenham maior compaixão e se conectem com a sua feminilidade.

Aplaudida de pé pelo salão de Atos da UFRGS lotado, Vandana Shiva deixou sua mensagem de que precisamos trabalhar a partir do amor e da confiança, mostrando como a luta ecológica influência toda a sociedade. E termina parafraseando o tema do Fórum Social Mundial: "mais que possível, outro mundo é necessário".

 


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