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Capa Memória Colunistas Nos tempos do vinil Beatles em versão brasileira
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Beatles em versão brasileira Imprimir
Escrito por Luís Bustamante   
Quinta, 28 de Abril de 2011 - 16:39

ReSBC_1967Rita Lee caiu nas graças dos beatlemaníacos brasileiros ao fazer versões de algumas canções do quarteto, por sinal, trabalho muito bem feito. If I fell virou Pra você eu digo sim, Can't buy me love / Tudo por amor, In my life / Minha vida e Here, There and everywhere / Aqui, ali, em qualquer lugar. Isso foi há dez anos e as versões da Rita continuam encantando a gurizada que, na época, ainda aprendia a andar.

Pensando bem, não são muito comuns versões brasileiras das músicas dos Beatles. Cantores brasileiros que gravam Beatles existem às pencas, covers tem aos montes, cada um imitando melhor que o outro, chegando às raias da perfeição – não basta tocar Beatles, tem que ser idêntico, neuroticamente idêntico.

Parece que há um pacto silencioso quanto a versões em português, algo do tipo "não vamos macular o trabalho dos carinhas", "música beatle não admite versão", "as músicas deles só no idioma deles" e vai por aí. Concessão feita apenas à diva do rock nacional? Nem sempre foi assim. Houve, entre os anos 1960 e 1970, quem se aventurasse a fazer versões livres para as músicas do Beatles – livres porque não constituíam traduções literais (ou por causa da métrica e da rima ou porque a turma não dominava bem o inglês e reescrevia as letras pela semelhança das palavras). Nesse período, entre diversos cantores, cantoras e bandas que se atreveram a "traduzir" as canções dos Beatles, destacou-se o conjunto Renato e Seus Blue Caps.

Considerada a mais antiga banda de rock do mundo ainda em atividade (iniciou antes mesmo dos eternos Rolling Stones), Renato e Seus Blue Caps foram os primeiros versionistas das canções beatles. E talvez os mais produtivos – fizeram pelo menos 14 versões durante 13 anos, as primeiras em 1964, cuja mais famosa foi Menina Linda / I should have known beter e as últimas em 1977 (O que eu posso fazer / Baby's in black e Tudo que sonhei / If I fell). Nos tempos do vinil, daria um daqueles elepês em edição especial (boa idéia, hem, Renato!).

Na época, houve quem torcesse o nariz. Puristas e implicantes acusavam a banda surgida no bairro da Piedade (Rio de Janeiro) de "estragarem" as músicas do quarteto de Liverpool. Além da ousadia, criticavam as letras romantizadas e as rimas fáceis – as originais não eram muito diferentes, mas Beatles é Beatles, certo? Na verdade, o conjunto Renato e Seus Blue Caps foi, talvez o principal responsável pela divulgação dos Beatles no Brasil. Muita gente, naquele tempo, chegou a pensar que os Beatles copiavam o Renato, já que, graças a produtores e colaboradores antenados no que acontecia pelo mundo, as versões eram lançadas bem antes – segundo alguns críticos, com vozes e instrumental tão bons quanto as originais que aqui chegariam tempos depois.

Talvez as primeiras não fossem assim tão boas. Escutando a primeira gravação de Menina Linda (I should have known better), Sou feliz dançando com você (I'm so happy just to dance with you) e Garota malvada (I call your name), todas de 1964, dá pra perceber que "os Renatos" (como se dizia por essas plagas) não conseguiam uma reprodução exata ou algo mais próximo disso, talvez nem fosse esse o objetivo. Porém, a partir de Feche os olhos (All my loving) e outras versões de 1965, a banda fez jus à alcunha de beatles brasileiros (que até hoje nega). Chegaram à perfeição de reproduzir cada detalhe dos arranjos de Paul, John, George e Ringo – com a extrema ousadia de melhorarem algumas passagens, alguns toquezinhos, notadamente no vocal, já que os nossos beatles eram cinco (ok, lá tinha o quinto beatle, George Martin, mas esse não cantava, arrá!).

Com Feche os olhos, ainda em 65 vieram Eu sei (I'll be back), Meu primeiro amor (You're going to lose that girl) e Sou tão feliz (Love me do). Ano seguinte foi a vez de Até o fim (You won't see me), Gosto de você (Tell me what you see) e Dona do meu coração (Run for your life). Em 1967, R&SBC elegeu apenas uma beatle song para versão, Anna – Go to him, porque nessa altura da carreira o conjunto queria focar em suas composições próprias, no que foram muito felizes. Só retornaram à beatlemania dois anos depois, com Não volto mais (Paperback Writer), também tão boa quanto a original, e, após longo intervalo, em 1977, com as já citadas O que eu posso fazer (Baby's in black) e Tudo que sonhei (If I fell).

Renato e Seus Blue Caps ainda aproveitaram os últimos suspiros do vinil e gravaram o derradeiro elepê em 1987 – sem Beatles (aliás, sem versão alguma), mas ainda com traços daqueles velhos tempos. Depois entraram para o CD, onde passaram a viver de reedições e, claro, dos shows que acontecem até hoje país afora, com público cativo (sem preconceito de idade) e platéias lotadas. Adivinha quais as músicas mais pedidas ou mais esperadas: Menina Linda, Feche os olhos, Meu primeiro amor... Beatles forever em versão brasileira.

Confere no player as músicas (se não gostar, vale a referência histórica).

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