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Capa Memória Cultura Porto Alegre em Cena 2011 – A Lua Vem da Ásia
Porto Alegre em Cena 2011 – A Lua Vem da Ásia Imprimir
Escrito por Pedro Henrique Gomes   
Quarta, 21 de Setembro de 2011 - 15:28

poaemcena-2011Os recursos cênicos são mínimos neste espetáculo dirigido por Moacir Chaves a partir do texto de Campos de Carvalho. A Lua Vem da Ásia, monólogo interpretado por Chico Diaz, retoma (ou investe) uma questão de suma importância para o teatro nacional: o drama é o que importa, depois o rosto. Chico Diaz dá vida a esse personagem de vários nomes (ou sem nome, afinal), travando literalmente um duelo com seu duplo, que ele diz ser seu irmão gêmeo.

Como uma sagaz crítica social, o texto de Campos de Carvalho, em toda sua sofisticação, se vê incorporado à potência do ator, que lhe dá um rigor para além da representatividade, pois é quase inumano. Do surrealismo temos não somente a disposição dos objetos cênicos, mas principalmente o texto em si e articulação dos diálogos. Ele olha para a parede do quarto e não vê nada além do vazio do branco que a recobre. Por detrás das grades daquela prisão malcheirosa, fita a chuva. Dorme e sonha, delira e agoniza com frequência, mas sempre questionador; desafiado e desafiante, vítima e algoz. A narrativa fragmenta-se entre os capítulos, o que dá liberdade ao observador para criar seus ideários possíveis.

Se o surrealismo que se transfigura no corpo e no cenário tonifica o discurso crítico em toda sua potencialidade rítmica (Chico Diaz de fato domina o plateia, com a sinergia do olhar e inquietação do poeta; encanta inclusive pelo improviso quando a luz cai no instante/lugar errado, aí reconhecemos o grande ator), todavia, assim como em Artaud, a relação entre a moral e a ética confunde-se sensivelmente com o drama do personagem inominável, que tão logo fala já anuncia ser um assassino – matou seu professor de lógica, mas em legítima defesa, com está exposto na primeira linha do livro de Campos de Carvalho.

A razão é dele por um instante, para em outro momento ser contestada, não sem um grande fluxo de "diálogos consigo", inconscientes sim, mas talvez justamente por seu excesso de consciência. Pois, indubitavelmente, o personagem, quando delira, o faz com absoluta lucidez, com destreza e finesse, sem alegorias pueris.

O elogio da loucura corporifica-se no imaginário dele, porque, tal qual o célebre livro de Erasmo, a loucura toma o corpo do personagem somente para demonstrar sua sanidade. A loucura é amiga. A sátira justamente parece vir lá de onde nascem estas ervas daninhas que prontificam os problemas sociais, ou seja, quando ele fala com aparente lucidez (essa lucidez formal a que se resume tão complexa e delicada palavra), ele está negando essa fala como um conceito possível de verdade. Enquanto que, por outro lado, é através daqueles momentos de insanidade que lhe escapam as verdades críticas mais justas a sua personalidade e ideologia anarquista.

Para ele o manicômio é um hotel elegante, reduto da criação, na companhia da chuva, no abraço das lágrimas que lhe escapam. É quando ele escreve. Escreve não para guardar a memória, mas para lembrá-la a si própria, pois o louco, quando já é declarado como tal, não esquece jamais. O que ele rabisca são suas próprias memórias, sua própria história, antes que ninguém a escreva. A história do ponto de vista da loucura. Aí repousa a sensibilidade do ator, mais do que do próprio diretor, pois é ele quem externa o drama, muitas vezes silenciosamente, outras vezes agonizando, se contorcendo e gritando.

Dividida em duas partes, cada qual separada por capítulos que não seguem qualquer ordem numérica, A Lua Vem da Ásia vive da loucura por um instante para metamorfoseá-la na exata proporção da dor da consciência. Estamos aqui falando de uma construção dramática em crescente valorização de sentimentos, pois o que se representa no palco é reflexo constante da inquietação do personagem, do escritor, do diretor, salientada na pele mesma, na raiz do problema. Falamos essencialmente de um problema antropológico disfarçado de embasamento teórico, que se faz difícil pela transposição da linguagem da literatura (quase um realismo-mágico, flertando com o surrealismo clássico), uma vez que não foi escrito primeiramente para o teatro, mas que encontra sua força no diálogo muito preciso que idealiza com o público.

Texto: Campos de Carvalho
Direção: Moacir Chaves
Elenco: Chico Diaz

 


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