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A Flauta Mágica, paixão pela imagem, paixão pelo corpo Imprimir
Escrito por Pedro Henrique Gomes   
Terça, 27 de Setembro de 2011 - 15:12

flauta-magicaPeter Brook não abre mão do essencial e despreza os excessos. As luzes se acendem e esperamos apenas pelo necessário à fruição da história: o verbo e o ritmo. É assim, localizado nestes espaços delicados, nos extremos opostos, que A Flauta Mágica, ópera baseada em Mozart, em adaptação livre, se monta e desmonta para o público, que não é outro senão o embasbacado, o perplexo. Já sentimos a potência da estrutura nos primeiros minutos, no primeiro dedilhar sobre o piano, pois Brook de fato dirige um espetáculo calcado na sutileza das dramatizações e na ferocidade dos cantos.

Cineasta e dramaturgo cultuado, em Une Flûte Enchantée (em francês, no original) de si mesmo transparece alguma coisa de King Lear (da peça e do filme que dirigiu), principalmente no que diz respeito à simplicidade – não o simplismo – do cenário. A rigor, não há outro tema central aqui senão o amor. Tamino, o protagonista, e Papageno, o caçador de pássaros, se apaixonam e almejam viver esse amor. Mas um amor difícil de se concretizar, se aproximar, se chegar propriamente. Paixão pelo corpo, mas também paixão pela alma. Sem alegorias e com muita precisão, o que vemos é um ambiente onde o único resultado possível pode ser um estado de espírito engendrado no limiar da agonia e do êxtase.

A surpresa não se esgota pela simplicidade dos movimentos e dos objetos cênicos, ela se confunde mesmo através das vozes, dos corpos e das passagens históricas que se articulam através dos ideais muito marcados de liberdade, fraternidade e igualdade, tal qual o espírito revolucionário francês. É uma potência difundida por todos os cantos do palco, um rigor técnico maior do que o próprio olhar artístico demanda (acima da média). Se A Flauta Mágica é decerto baseada na mais célebre ópera de Mozart, e que carrega, justamente por isso, todo o peso histórico e artístico da adaptação, todavia Peter Brook sana as expectativas do público. Um tanto mais: falamos de um espetáculo de imersão total e profunda.

Da maçonaria não surgem tão somente as referências (Mozart, afinal, era membro da sociedade maçônica), mas interioriza-se o espírito pelo mistério, pela sedução do canto. É um jogo bem jogado, esse da sensação, do sensorial, da experiência. E se, historicamente, a ópera de Mozart estreou num contexto todo particular (na alvorada da Revolução Francesa e com a "crise" da filosofia maçônica que veio junto dela), A Flauta Mágica de Peter Brooks (universalização, atualização para a pós-modernidade) invade esse universo não só em dramatização, mas em corporificação de sentimentos e ideologias. O Iluminismo, filosofia de vida intelectual tão cara ao próprio Mozart, permeia a ópera, se perde nela, engendra a razão nos corações de Tamino (príncipe) e Pamina (filha da Rainha da Noite).

Ademais, a história do romance segue a mesma cartilha dos maiores amores encenados no período clássico da música e das artes europeias: o do amor impossível – mas que se realiza. A arquitetura deixa bem claro o contexto: uma Rainha ambiciosa, que quer o poder a qualquer custo; um homem (Monostatos) apaixonado por Pamina que joga segundo as cartas da Rainha; o Sacerdote (Sarastro) que quer a união de Tamino e Pamina; e um casal secundário (Papageno e Papagena), que consuma um amor à primeira vista. Tamino e Pamina precisam ser iniciados no amor, aceitos pela comunidade, enquanto que, paralelamente, Monostatos lança seu plano de sedução sobre a amada – e um plano financiado pela Rainha. Mas Tamino já havia se apaixonado pela imagem de Pamina, pois, literalmente, a primeira impressão que ele tem dela é uma imagem, um retrato, só depois ele (re)conhece suas feições, carnais e sensuais como imaginara. Ele a quer de verdade não por uma questão de poder (status quo), como deseja Monostatos, por isso lhe é confiada a flauta mágica (logo a ele, homem simples), instrumento capaz de transformar o espírito de quem a houve. O final não poderia ser mais simbólico à representação maçônica. A flauta então é soprada.

Da obra de Wolfgang Amadeus Mozart

Direção: Peter Brook
Elenco: Abdou Ouologuem, Adrian Strooper, Aylin Sezer, Betsabée Haas, Dima Bawab, Julia Bullock, Jean-Christophe Born, Leila Benhamza, Malia Bendi-Merad, Patrick Bolleire, Roger Padullès, Romain Pascal, Thomas Dolié , Vicent Pavesi, Virgile Frannais e William Nadylam
Piano: Franck Krawczyk

 


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