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Escrito por Charline Pereira   
Segunda, 28 de Novembro de 2011 - 10:36

abaporuNada convencional foi o meu primeiro encontro com Abaporu. Eu devia ter uns 11 anos e estava apreensiva na sala de espera de um consultório odontológico. Sentia medo, pois sempre ouvia falar que "usar aparelho corretivo doía muito". Achava que era incompreensível o fato de, por conta própria (quer dizer, por conta dos meus pais), voltar todos os meses a um local onde me dirigia para "ser sacrificada". Naquela época, minhas impressões daquele consultório eram as piores possíveis, só com a ressalva do quadro que eu via antes de entrar na sala de atendimento. E não lembro exatamente, mas creio que demorei alguns meses, até que soubesse mais sobre a obra.

A série era a 5ª, do Ensino Fundamental, e eu nada entendia de ciências, mas sempre fora aluna aplicada. Numa manhã, a professora da disciplina explicou sobre a doença tropical infecciosa filariose linfática, ou elefantíase, como é conhecida popularmente. Falou sobre alguns casos e, quando projetou no quadro algumas fotos, tive certeza: eu já tinha visto um quadro com uma moça nua e portadora dessa doença! Falei para a professora, que me orientou a questionar sobre a tal 'foto', exposta na sala do meu dentista e depois explicar melhor o que eu havia visto.

Naquela semana, quando voltei ao consultório, tal era minha curiosidade, que tratei de começar com as minhas perguntas, assim que cheguei, e a primeira foi - "Ela sofre de elefantíase? - Porque pintaram uma pessoa doente?" E esperei pelas respostas apontando para o quadro. O médico riu. Riu muito.

Até que se recompôs e me explicou.

- "Não se trata de uma moça doente, mas sim de uma réplica da obra da Tarsila do Amaral. Chama-se Abaporu, que vem da língua Tupi, e quer dizer "homem que come gente".

No dia seguinte, falei à professora sobre a confusão que eu havia feito com a obra e a elefantíase. Ganhei um puxão de orelhas e uma tarefa: pesquisar os dois assuntos.

Sobre a patologia, confesso, pouco lembro. Já sobre o grande Abaporu ficou um bom aprendizado. Entendi o quanto Tarsila foi importante para a arte brasileira. Soube que a obra foi um presente de aniversário a Oswald de Andrade, e que se empolgou com a artista e fez surgir o movimento "Antropofágico". E hoje sei também que a tela é a mais valorizada entre as obras brasileiras, fora do país.

Mais tarde, já no Ensino Médio, nas aulas de Literatura Brasileira, pesquisei sobre Tarsila. Ela nasceu em 1º de setembro de 1886, na Fazenda São Bernardo, município de Capivari, interior do Estado de São Paulo. Estudou no Colégio Sion, e completou seus estudos em Barcelona, na Espanha, onde pintou, com seus 16 anos de Idade, o seu 1º Quadro denominado "Sagrado Coração de Jesus". Em 1920, embarcou para a Europa com o objetivo de Ingressar na"Académie Julian", em Paris, onde frequentou o ateliê de"Émile Renard". Em 1922, uma de suas telas foi escolhida para integrar o Salão Oficial dos Artistas Franceses. Nesse mesmo ano, ao regressar ao Brasil, integrou-se aos intelectuais do grupo modernista e faz parte do "grupo dos cinco", juntamente com, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Nessa época começou o seu namoro com o escritor Oswald de Andrade. Em 1923, Tarsila voltou à Europa e deu início ao contato com os modernistas: Albert Gleizes, Fernand Léger e Blaise Cendrars, que visitou o Brasil no ano de 1924. Foi também no mesmo ano que Tarsila se casou com Oswald de Andrade, e cujo relacionamento se rompeu no ano de 1930. Mas seus relacionamentos não terminaram por aí. No ano de 1934 ela passou a viver com o escritor Luís Martins, por quase 20 anos. De 1936 a 1952, trabalhou como colunista nos "Diários Associados". Tarsila faleceu em São Paulo, no dia 17 de janeiro de 1973.

Hoje, mais à vontade e com quase nada de medo, ainda freqüento o mesmo consultório e continuo a admirar a Tela que me conquistou à primeira vista: Abaporu.

 


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