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Xingu, o filme Imprimir
Escrito por Pedro Henrique Gomes   
Segunda, 11 de Junho de 2012 - 23:16

xingu-filmeXingu carrega todo o bom do cinema umbilicado à sua produção. Filme grande, custoso e metafísico. A decupagem não nos é estranha, a cor reconhecemos a distância, a musicalidade já chega atravessando todos os traços de preconcepções possíveis. Com dez minutos de filme, já estamos jogados na correnteza dos rios e do verde imponente que faz a paisagem, substituídos que somos pela estetização da câmera e da luz.

A imagem de Xingu (e do Xingu) não é exótica (o que é um mérito), mas também não é muito diferente da televisiva (o que é um problema). Se a realidade é uma questão de/do olhar, de ponto de vista, então Xingu satisfaz as instâncias mais íntimas, quais sejam: contar a história dos Villas-Bôas. Mas poderia ser qualquer história, já que só há uma vontade pela história dos livros médios, sem a dialética despojada que a exploração temática exigia.

Ora, somos nós que criamos nossos ídolos, não o contrário – à semelhança daqueles discursos colonialistas. O branco pode querer ser índio, mas o índio não precisa querer ser branco ou mesmo ideologizado como tal. A indianização é um decalque do branco, o embranquecimento não é um desejo do índio. As lágrimas indígenas vertem sangue, assim como as dos irmãos Villas-Bôas, que nos contam a história. Eles foram pro Xingu, viveram com os povos indígenas e lutaram por e com eles, ajudando a garantir o espaço (a terra) naturalmente conquistado. Aqui, o Xingu de Cao Hamburguer é um anjo desejante e malvado, como tem de ser.

Ok. O tema tem atualidade (pois falar do Parque do Indígena do Xingu, desde a Marcha Para o Oeste de Getúlio, até os Villas-Bôas assumirem a coordenação da expedição, passando pelo projeto de Darcy Ribeiro, em época conturbada como essa, já é algo; os problemas são outros) e carrega sua potência intrínseca nas imagens políticas e antropológicas que registra, mas, como quase toda comunicação e os instrumentos que são seus meios, o ponto crítico está mais naquilo que é omitido do que naquilo que é mostrado. As sequências que mais resistem ao corte são as que se pretendem amplificadoras das tensões e das disputas políticas; o olhar humano, ou seja, o olhar do índio, não fixa sua imagem quando era necessário suspender o tempo e perder-se nela – algo como em Serras da Desordem, ainda o filme-síntese; ou como no rugido poético de Febre do Rato, último do Claudio Assis; ou mesmo na rica simplicidade (sic) de Girimunho. Ao Xingu, faltou aquilo que ele não quis ser: o peso ontológico daquilo que representou apenas superficialmente, pois é um filme sobre o homem branco, o que não é um mal em si. Ora, os Villas-Bôas, afinal, foram responsáveis pela criação do Parque, mas não só, agindo também na preservação da diversidade indígena presente no Xingu. Percebe-se, portanto, que não estamos falando de um problema de concepção, até porque nesse ponto o filme não é nada inocente.

Por outro lado, é na força interpretativa de João Miguel que Xingu dá gosto – mesmo que o roteiro de cada um dos irmãos crie caricaturas para comportá-los dentro de uma narrativa estetizada, esse cara que rasga as telas de ouro da grife novelística para se construir grande. Suprimindo as alegorias hollywoodianas que afloram aqui e ali, retirando do drama aquele peso da História e da necessidade de respeitá-la, o filme de Cao Hamburguer trabalha os monstros (que são os outros) sem o apetite que aquela terra parece emanar pelos homens que lá vivem e resistem. Ora, conflitos dramáticos não correspondem ao drama em si (aliás, não existe drama quando ele não é filmado; à exceção quando raramente existe, mas é bem filmado, como em Straub e Huillet) simplesmente porque não potencializam o discurso por coerção. O Xingu é mais e é melhor. Se por um lado o filme assalta com vigor a História ao roubar seus personagens, todavia a existência de uma experiência mitológica parece servir como fonte suficiente para fornecer tudo aquilo que lhe falta: o índio enquanto cultura de resistência. Isso tudo não por falta de equilíbrio, mas alimentado por um desejo insano pelo épico.

Se o brasileiro urbano não gosta do índio porque não o conhece, não será com Xingu que passará a conhecê-lo. Se a estética precisa sempre dizer mais do mundo do que o mundo precisa dizer da estética (e da política), então o cinema passa (sem perceber a ironia - mas perdendo-a), a ser uma questão de enquadramento e de travelling, onde agentes da história, da ficção e do real, discutem seus dilemas. É verdade que essa história se oferecia para o cinema, mas o cinema precisava também se oferecer mais a ela. Mesmo com toda qualidade em jogo, sem paradoxos, a trajetória mundana dos diálogos entre o homem branco (herói sim, porque não?) e o índio (herói não, resistente sim!) reduz sua potência à temporalidade e à lógica dos discursos. Do ponto de vista narrativo, é a morte da palavra. O mundo é um thriller.

(Xingu, 2011, Brasil) De Cão Hamburguer. Com Caio Blat, João Miguel, Felipe Camargo,
Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié Waurá, Totomai Yawalapiti.

 


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