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Capa Memória Cultura "Estamos em El Mapa e este mapa é de todos"
"Estamos em El Mapa e este mapa é de todos" Imprimir
Escrito por Andrey Cidade. Fotos de Vinicios Lemos   
Terça, 13 de Novembro de 2012 - 09:06

el-mapa-03Foi essa a declaração de Wander Wildner, ex-vocalista dos Replicantes, que estava como espectador e viu de perto um dos festivais do país que mais tem se consolidado e crescido ultimamente. O Festival El Mapa de Todos, depois da sua primeira edição realizada em Brasília, reposicionou-se em Porto Alegre, sendo acolhido pelo público, mídia e autoridades locais.

Em sua primeira edição na "Capital da Integração", o evento demonstrou visível qualidade organizacional e musical, fato valorizado por todos os presentes. Porto Alegre assim se tornou palco, entre os dias 6 e 8 de novembro de uma mistura cultural riquíssima, jamais antes vista, colocando a capital dos gaúchos definitivamente no mapa da cultura latino-americana. Artistas brasileiros se misturavam aos mexicanos, chilenos, uruguaios e afins, e mostraram que para a música, nacionalidade, cor e idioma diferentes não tem a menor importância.

Primeiro dia

el-mapa-01Quem inaugurou as atrações foi a banda General Bonimores, de Passo Fundo. Com uma pegada clássica e muitas vezes dançante, lembra o disco de estreia dos The Strokes, "Is This It" (2001). A apresentação serviu para esquentar platéia e prepará-la para o que ainda estava por vir. Logo após, o venezuelano Algodón Egipcio deu as caras, e mostrou o seu trabalho totalmente experimental e psicodélico, com teclados, synths e samples, lembrando os tempos áureos de Radiohead.

A terceira atração da noite e responsável definitiva e diretamente por lotar a pista do Opinião foi o ex-baixista da Fresno, e agora em carreira solo, Rodrigo Tavares, popularmente conhecido como Esteban. O público compareceu em peso e cantou do início ao fim, em coro, todas as músicas do show. O cantor apresentou seu projeto solo, do recente disco "Adiós, Esteban!", que traz uma pegada platina, com teclado e acordeon, por exemplo.

A banda Franny Glass, vinda do Uruguai conquistou rapidamente o público com suas baladas folks. Com o violão, os uruguaios embalaram os casais que estavam presentes, e apresentaram um som tipicamente platino, comparado a Fito Paez, em alguns momentos. A simpatia da banda refletiu no público e, por mais que não conhecesse algumas músicas, se esforçava para interagir com a banda, ensaiando coros, como em "A través de mi".

Já era madrugada, quando o Apanhador Só entrou no palco para encerrar o primeiro dia do Festival, diga-se de passagem, parecia que todos estavam ali para ver o grupo. A banda gaúcha subiu ao palco com "Maria Augusta", fazendo a casa lotada dançar do começo ao fim. Sem dúvida, a Apanhador Só foi a grande atração da noite, comprovando ser a banda de maior sucesso na atual cena independente porto-alegrense.

Segundo dia

el-mapa-02O relógio marcava 21 horas, quando subia ao palco a primeira atração da segunda noite do Festival El Mapa de Todos, o quarteto instrumental The Tape Disaster. A banda é, sem dúvida, uma das melhores em seu segmento, equiparando-se a grupos de longa estrada como Pata de Elefante e Macaco Bong. Belas melodias preencheram a ausência de vocais, com a sensação de que, realmente não é necessária nenhuma palavra para completar aquela obra. Uma prova de que a música instrumental acima de tudo, tem espaço.

A segunda atração da noite e primeira internacional, foi a Norma, de La Plata, na Argentina. Nove entre 10 pessoas da plateia desconheciam o grupo que, assim, às escuras, mostrou um rock básico, calcado no punk, mas não menos eficiente. A reação do público foi de surpresa, por não conhecer a música do grupo.

Aí veio a vez da Bidê ou Balde que, como sempre, entra a campo com a partida já ganha. Carlinhos Carneiro, líder da Bidê, chegou até mesmo a ensaiar alguns passos sobre a plateia. Isso mesmo, sobre a plateia. Algo surreal. O destaque maior, ainda assim, ficou com a execução, até então inédita em Porto Alegre, de "+Q1 Amigo", música que estará no próximo disco da banda, prestes a sair.

Os peruanos da Barreto marcaram o começo do fim do segundo dia, vieram com força, uma percussão marcante, que transformou o Opinião em um grande salão de baile. Diga-se de passagem, não era nem preciso conhecer as letras da banda: a cumbia, um dos ritmos latinos mais disseminados em toda a América do Sul colocou todo mundo pra dançar. O grupo ainda mencionou a semelhança com os ritmos nordestinos e tocou uma versão de "Mulher Rendeira", um xaxado nordestino escrito há quase um século que se tornou "hino" de Lampião e seus cangaceiros. Quem viu, viu!

Sem dúvida alguma, a atração internacional mais aguardada do festival era El Cuarteto de Nos. O veterano grupo uruguaio tem uma ampla gama de fãs no Rio Grande do Sul, e isso se mostrou presente ao longo do show, onde bandeiras celestes foram erguidas no meio da pista e no mezanino, e um coro para recepcionar o Cuarteto. O grupo abriu a apresentação com "Algo Mejor que Hacer", que ao lado do hit "Ya No Sé qué Hacer Comigo" foram os pontos altos do show. Um show simplesmente perfeito, cujo único motivo para lamentar é o fato de uma banda como El Cuarteto de Nos não ser mais conhecida em outras regiões do Brasil.

Terceiro dia

Quem abriu os trabalhos, na última noite do festival, foi Medialunas , uma dupla composta pelo casal Andrio Maquenzi, na guitarra e vocais e Liege Milk, na bateria e vocais. Com a dupla cantando em português, inglês e espanhol, a meia hora de show passou voando. O som é aquele rockzinho grudento e de guitarras distorcidas especialmente no ponto, que provou a qualidade da banda ao vivo.

Em seguida, foi a vez da chilena Denver que subiu ao palco com um dos sets mais dançantes, até então. A banda conta com uma bateria eletrônica e utiliza muito os sintetizadores. Também conta com uma grande presença de palco dos integrantes, em especial da vocalista, que mesmo com o braço engessado não se conteve nem um segundo durante a apresentação.

Mesmo assim, foi necessária a entrada dos Autoramas, banda carioca, para agitar de vez o público presente na casa. Os Autoramas são um dos grupos mais bem-sucedidos no cenário independente brasileiro, com participações em diversos festivais por todo o Brasil e show, até mesmo fora do país. O set foi formado, quase ao todo, por músicas do último CD, de 2011, chamado Música Crocante, em ordem de execução. Poucas palavras com o público, mas de muita interação e entrega musical, o Autoramas fez o show mais empolgante da noite, disparado.

O mexicano Juan Cirecol foi o franco atirador do Festival. Ele não tinha nada a perder, só a ganhar, e ganhou a plateia, para muitos, a surpresa do Festival. O vocalista carregava consigo apenas um violão e uma gaita de boca, e, mesmo assim, conseguiu manter a empolgação do show anterior, um trabalho, diga-se de passagem, nada fácil. A variedade de ritmos somada a uma boa capacidade vocal, fez com que Cirerol saísse bastante aplaudido do palco, e classificado como o Bob Dylan mexicano.

E para encerrar as apresentações que somaram três dias de festival de muita música, a convidada foi a banda gaúcha e conhecida em toda a América Latina, Nenhum de Nós. Antes da sua entrada, no palco, contou com o discurso de Fernando Rosa, idealizador do El Mapa de Todos, que agradeceu carinhosamente ao público e a todos que ajudaram na organização. "A intenção sempre foi promover a integração sul-americana, tenho orgulho do público de Porto Alegre e do Brasil, que ajudou a proporcionar isso. Bom show a todos, o Mapa é de vocês", disse Fernando.

Aí sim foi a deixa para a entrada do Nenhum, que a exemplo da Bidê, na noite anterior, teve o tempo todo a plateia na mão. Entrou e cantou seus maiores sucessos, hit pós hit. Animados com a proposta do festival, o Nenhum de Nós deixou para o final até mesmo a apresentação de algumas músicas em espanhol, ganhando todo mundo.

Que esses três dias sirvam de exemplo, para que mais festivais como esse possam aparecer e mostrar que a música é muito mais do que é vendido na TV, Espera-se que Porto Alegre siga no mapa e no roteiro dos grandes eventos, mas que não dê as costas para a cena independente. E como Fernando Rosa, idealizador do evento mesmo disse: "O Mapa é de vocês".

 


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