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Ideologia, eu quero uma pra viver! Imprimir
Escrito por Daniel Freire   
Sexta, 04 de Abril de 2008 - 10:42

cazuza"Meu partido/ É um coração partido/ E as ilusões estão todas perdidas/ Os meus sonhos foram todos vendidos/ Tão baratos que eu nem acredito/ Que aquele garoto que ia mudar o mundo/ Agora assiste a tudo em cima do muro".

Os versos acima carregam em si as angústias de um ser desapontado com a sua geração. Geração pós-ditadura militar que não deu curso às lutas empreendidas por sonhadores rebeldes que acreditavam ser possível mudar o mundo. Mudar o Brasil. Agenor Miranda de Araújo Neto. Simplesmente Cazuza. O garoto rebelde nascido no Rio de janeiro, no outono de 58 - 04/04 - no Humaitá. Criado nas dunas de Ipanema, bairro nobre carioca detentor de musas, poesia e afortunados moradores, com estadia cativa no não menos abastado bairro do Leblon, sempre questionou a vida e suas intrincadas divergências. De uma infância tranqüila passou a uma adolescência conturbada onde a experimentação foi o condutor de sua vivência. Quis tudo, foi fundo... e descobriu uma infinidade de possibilidades. E sua vocação profissional? Nada. E entre goles e porres homéricos tentava encontrar um significado maior para sua vida.

Filho do produtor musical, diretor da gravadora SOM LIVRE, João Araújo, Cazuza não queria, em hipótese alguma, passar por situações de intempéries geradas por uma associação tipo: "Este é o filho do homem". Por isso não vingou como profissional que escrevia releases para artistas da Som Livre. O garoto que gostava de Dalva de Oliveira e Lupicínio Rodrigues não se permitia cantar.

Depois de tentativas no Teatro, na fotografia e um flerte com o jornalismo, Cazuza encontra a sua turma. Um grupo de rock, o Barão Vermelho, ponto propulsor para uma carreira de sucesso. A voz berrada, vomitada, juntamente com sua poesia carnívora, carregada de amor visceral que já houvera conquistado seu amigo Léo Jaime, também encanta os meninos do Barão. A partir desse instante um "amor à primeira vista" ocorre. Roberto Frejat e Cazuza se entendem perfeitamente e uma parceria salutar para a música popular brasileira institui-se.

Com a imagem sempre ligada à boêmia, Cazuza continuava seduzindo, agregando, multiplicando amizades. Um inconformado, pode-se assim dizer, é percebido naquela figura. Dizia-se infeliz por nunca ter ralado na vida. Perdulário convicto e amigo com "A" maiúsculo tinha amigos no asfalto, na favela. Com preto, branco. Garçons e prostitutas. Grã-finos e ralés.

Depois de quatro anos de muito sucesso com o Barão Vermelho, Cazuza, carinhosamente chamado de Caju, verte para a carreira solo. Seu primeiro sucesso é "Exagerado", canção cheia de palavras escandalosamente apaixonadas, com articulações do fazer tudo pelo o amor, que se transforma numa perfeita tradução de seu intérprete:

"Amor da minha vida daqui até a eternidade/ Nossos destinos foram traçados na maternidade/ Eu nunca mais vou respirar se você não me notar/ Eu posso até morrer de fome/ Se você não me amar/ Exagerado/ Jogado aos teus pés eu sou mesmo exagerado/ Adoro um amor inventado".

Quando colhia o devido reconhecimento profissional, envolto em enorme satisfação pessoal, vê-se acometido por uma enfermidade pernóstica, ferina, cruel, que o atinge em cheio. Algumas internações e meses depois, no ano de 87, durante o início da turnê do seu segundo disco solo, Cazuza recebe a confirmação do mal fatal: AIDS. Síndrome da imunodeficiência adquirida. Prostrou-se? Que nada. Redobra suas forças, não se entrega, continua sonhando e entra na fase mais sublime de sua carreira. Deixa de falar do seu umbigo, torna-se mais amplo. E entra de cabeça na atmosfera social. Até então achava que não podia falar de temas sociais por ser 'filhinho de papai', situação que muito o incomodava. Precisava exorcizar seus fantasmas. Partiu para o confronto e falou tudo o que lhe perturbava. Criticou, esbravejou, mensurou o sofrimento de um povo e tornou-se o seu porta-voz. A doença que fragilizava seu corpo não era capaz de conter a sua enorme vontade de clamar por um país decente e justo; pelo acesso social dos excluídos e, pela vida.

O maior letrista do ano de 87, ao lado de Chico Buarque, escolhido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, vencedor de todos os prêmios musicais de 88 e artista realizador de um dos maiores shows que o Brasil já viu - Turnê "O tempo não Pára" - o poeta exagerado autor do sucesso que dizia: "Brasil mostra tua cara/ Quero ver quem paga pra gente ficar assim/ Brasil qual é o teu negócio?/ O nome do teu sócio?/ Confia em mim", não podia deixar de ser verdadeiro como sempre foi. Mostrando respeito aos seus fãs declarou publicamente num ato de extrema coragem ser portador do HIV. Lutou! Deixou este mundo em 1990 e foi pra outras bandas aprender mais. Sua mãe hoje comanda uma Instituição que acolhe crianças com HIV oferecendo tratamento, educação, alimentação e moradia. É ela também quem distribui remédios e cestas básicas entre soropositivos adultos e carentes. Tudo isso com os direitos autorais do filho. Cazuza renasce a cada dia no sorriso de cada criança da "Sociedade Viva Cazuza".

Na comemoração do seu cinqüentenário vale bebermos da fonte de seus versos provocativos, ácidos, fervilhantes, que caminham ao lado de outros tão cheios de amor. E para quem compôs:

Disparo contra o sol/ Sou forte, sou por acaso/ Minha metralhadora cheia de mágoas/ Eu sou o cara/ Cansado de correr na direção contrária/ Sem pódio de chegada ou beijo de namorada/ Eu sou mais um cara/ Mas se você achar que eu tô derrotado/ Saiba que ainda estão rolando os dados/ Porque o tempo, o tempo não pára;

E ainda

A burguesia fede/ A burguesia quer ficar rica/ Enquanto houver burguesia/ Não vai haver poesia/ Pobre de mim que vim do seio da burguesia/ Sou rico mas não sou mesquinho/ Eu também cheiro mal/ As pessoas vão ver que estão sendo roubadas/ Vai haver uma revolução ao contrário da de 64/ O Brasil é medroso/ Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia/ Vamos pra rua;

E

No mundo inteiro há tragédias/ E o planeta tá morrendo/ O desespero dos africanos/ A culpa dos americanos/ O Brasil vai ensinar o mundo/ A convivência entre as raças/ Preto, branco, judeu, palestino/ Porque aqui não tem rancor/ E há um jeitinho pra tudo/ O Brasil vai ensinar ao mundo/ A arte de viver sem guerra/ E, apesar de tudo, ser alegre/ Respeitar o seu irmão/ O Brasil vai ensinar ao mundo/ O mundo vai aprender com o Brasil/ O Brasil tem que aprender com o mundo/ A ser menos preguiçoso/ A respeitar as leis/ Eles têm que aprender a ser alegres/
E a conversar mais com Deus...

Juntamente com

Quando a gente conversa/ Contando casos besteiras/ Tanta coisa em comum/ Deixando escapar segredos/ E eu nem sei em que hora dizer/ Me dá um medo/
Eu preciso dizer que eu te amo/ Te ganhar ou perder sem engano/
É eu preciso dizer que eu te amo/ Tanto;

Passando por

Dizem que tô louco/ Por te querer assim/ Por pedir tão pouco/ E me dar por feliz/
Em perder noites de sono/ Só pra te ver dormir/ E me fingir de burro/
Pra você sobressair;

E também

Eu queria te dar a lua/ Só que pintada de verde/ E todo o dinheiro falso do mundo/
Eu queria te dar/ Um carro conversível Forrado de branco/ Uma viagem pelo mundo/ Num navio branco/ E um sapato com salto de brilhante Pra você passear/ Porque te amo, te adoro e venero/ Eu sou louco por você;

Fica a gratidão dos admiradores e de algumas cabeças pensantes que perceberam em Cazuza, mais especificamente em suas composições, acima de tudo verdades, coragem de nadar contra a maré, de viver intensamente e de acreditar que quem tem um sonho não dança. Fica sua obra. O resto é detalhe fútil.

 


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