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O insano, sedutor e infame Calígula Imprimir
Escrito por Gisele Hirtz Perna   
Segunda, 28 de Junho de 2010 - 12:06

thiago-lacerda1Intenso, visceral e extravagante, assim é Calígula, Imperador de Roma que viu seu império ser arruinado por si mesmo, devido às barbáries que cometeu e levado pela enfermidade e loucura que o atingiu após a morte de sua irmã e amante Drusila. A peça em cartaz aqui no Teatro São Pedro, neste final de semana, traz exatamente essa fase do imperador. Sua insanidade e desatinos o levaram a romper com toda a moralidade social e destruir os alicerces de seu reinado.

Com texto de Franco Argelino Albut Camos (1913-1960), a peça remonta o personagem mais conturbado da história antiga. E quem dá vida a este homem é Thiago Lacerda que comemora através da peça seus 10 anos de carreira.

 

A ideia de assistir Thiago Lacerda transfigurado em Calígula, levou a população em peso de Porto Alegre ao Teatro São Pedro, que permaneceu lotado e com direito a cadeiras extras em todas as noites esta peça veio para marcar, sem dúvida, o espaço cultural do Rio Grande do Sul. Logo na entrada dava para sentir os burburinhos das mulheres na platéia que ansiavam ver o nu de Thiago Lacerda, e que, diferente da montagem de 1990, quando o ator Edson Celulari protagonizou a cena, acabou não acontecendo, para desilusão de boa parte do público feminino. Porém, a brilhante atuação do ator, comoveu a plateia e fez pensar que ele não é somente bonito e, sim, um bom ator. Sustentar Calígula até o fim, mostrando o lado debochado, afeminado e perverso, sem se tornar caricato, realmente, foi uma tarefa bem executada.

Ao mesclar o cenário e figurinos contemporâneos com um texto forte, carregado de palavras e subtextos, Calígula é classificado como um drama, mesmo contendo leve pinceladas de humor e com pequenas doses de críticas social, como o caso do personagem que faz o papel de chefe do tesouro, com um sotaque americanizado, além de uma bolsa da Nike. Ao fazer questão de mostrá-la, justifica o seu uso como o próprio tesouro. De um modo geral, a peça é forte e tráz cenas comoventes, em especial, quando Calígula mostra sua total loucura e desespero pela morte.

Dividida em dois atos e um epílogo, a peça mostra poucos atores e uma trilha que compõe toda a idéia de tragédia, tornando-se um objeto fundamental na construção cênica. A parte importante que permite entender a complexidade da personagem, o lado promiscuo de Calígula, é encenada com cuidado sem deixar o vulgar e o mau gosto tomar conta do palco. Alias, como falar de Calígula e não falar de suas orgias sexuais? Sem condições, porém, a montagem foi muito implícita no que mostrar. A sexualidade sutil é apenas sugeria através da encenação de umas das festas satíricas de Calígula. O ponto mais sexual é dado através do beijo entre Thiago e outro ator que arrancou os olhares de todos e suspiros de muitos.

A peça termina com o assassinato de Calígula, tramado pelos seus homens que, cansados de tanta maldade, viram na execução do imperador a única forma de salvar suas vidas. Momento trágico e carregado de sangue que, por mais que seja cenográfico, nos arrepia pela união da dor, sofrimento, musica e toda a interpretação fantástica de Lacerda.

No final, as cortinas se fecham ao som de Je ne regrette rien, de Piaf, como um hino aos atos de Calígula, cujas ações ele nunca se arrependeu ao assumir que precisava do sangue e da morte ao seu lado, uma vez que a vida o transtornava e, portanto, sentia o poder quando decidia a quem devia morrer, gritando alto e firme: "Sou todos os homens e não sou nenhum. Portanto, sou um deus".

 


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