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Capa Memória Cultura Quando a Nigéria mostrou o seu controverso filho
Quando a Nigéria mostrou o seu controverso filho Imprimir
Escrito por Leonardo Ferreira   
Quinta, 19 de Abril de 2007 - 00:00

frut-kutiOs anos 60 para a música foram marcados pelo surgimento dos Beatles, Rolling Stones, do movimento hippie, enfim, a consagração do rock'n'roll em sua mais pura efervescência. Europa e América mostravam para o mundo as mais consagradas bandas da história, fazendo com que o rock, fosse o estilo musical mais popular da década e das que viriam a seguir. Mas como sempre, as exceções sempre existem, o reggae, por exemplo, Bob Marley deu uma nova cara e opção aos ouvidos da sociedade, essa, talvez tenha sido a alternativa de maior sucesso. Mas nessa mesma época, surgiu na África, precisamente na Nigéria, um cara chamado Fela Anikulapo Ransome Kuti, criador de um dos estilos musicais mais criativos e de maior diversidade instrumental e rítmicas, o Afrobeat.

O Afrobeat é combinação do jazz, funk, rhythm'n'blues e cantos tradicionais africanos, o resultado disso: uma composição de ritmos profusos junto a psicodélicas percussões que eletrizavam a música afro para o mundo. Criando a cada show, um transe entre os espectadores em cada uma de suas músicas que chegavam a quase 20 minutos de duração hipnótica. Alguns discos de Fela Kuti (como ficou conhecido), eram compostos por duas músicas, uma em cada lado dos antigos "bolachões".

Fela Kuti nasceu em Abeokuta, ao sul da Nigéria, no dia 15 de outubro de 1938. A sua mãe era uma ativista dos movimentos feministas nos anos 40, o seu pai, autoritário e repressor, tornou-se uma comparação para apresentar a conjuntura de seu povo e de sua terra. Os seus discos serviram como trilha sonora na luta pela revolução em seu país. Além das composições, Kuti conduzia as suas idéias na prática, sempre quando necessário, pegava em armas no auxílio da luta contra as autoridades nigerianas.

O nome afrobeat surgiu após a chegada de Kuti a Inglaterra, a sua família tinha o mandado para o velho mundo com o intuito de que ele estudasse medicina, mas transferiu-se para o curso de música. Lá conheceu o jazz e o rhythm'n'blues, logo após formou o seu primeiro grupo, que era formado somente por nigerianos em intercâmbio na Inglaterra, o Cool Cats, que depois se tornou Koola Lobitos. Ao voltar para a Nigéria, o grupo conquistou uma pequena notoriedade, ao mostrar a sua mescla de ritmos ocidentais com a música tradicional africana.

Mais tarde, após a entrada de Tony Allen, parceiro musical de Kuti durante muitos anos, eles realizam a primeira turnê nos Estados Unidos, já sobre a alcunha de Fela Kuti. Lá conheceu grandes nomes do funk como James Brown, George Clinton, Bootsy Colins e muitos outros nomes que serviram como influência tanto para Kuti quanto para o funk nos Estados Unidos.

Em 1974, Kuti em um desafio ao governo, criou o seu próprio país em sua residência, onde a nomeou de República de Kalakuta, um estado independente segundo ele. Em 1977, a sua mãe foi morta em resposta a mais um protesto de Kuti contra o poder nigeriano. Em 1978, casou em uma mesma cerimônia com 27 mulheres, todas levando o sobrenome Anikulapo Kuti. No ano seguinte, candidatou-se à presidência da república, tendo a sua candidatura rejeitada pelas autoridades.

Em suas viagens pelos Estados Unidos, Kuti estreitou os seus laços com grandes lideranças afro-americanas, como Eldrigde Cleaver, Malcom X, Ângela Davis e os Panteras Negras. Amizades que levaram Kuti a uma forte politização e novas idéias ideológicas revolucionarias. Certa vez, Kuti criticou Bob Marley em relação a músicas de protesto, após o atentado sofrido pelo 1976 por ordem do governo jamaicano, Marley deixou de lado as suas composições políticas. Kuti não perdoou a atitude do regueiro, que se deixou calar após pressões da oposição.

Em toda a sua carreira, Kuti lançou mais de 80 discos, o seu trabalho até hoje continua desconhecido pela maioria, aqueles que ouviram, cultuam o músico que apresentou uma nova "cara" do continente africano para o mundo. Kuti morreu em 2 de agosto de 1997, em Lagos na Nigéria, vítima do vírus HIV. O seu legado deixou seguidores em várias partes do mundo, dois exemplos: no Brasil, a Nação Zumbi é um grande exemplo, na Índia, o Asian Dub Foudantion ainda mescla a música eletrônica em seu repertório.

Além de Fela Kuti, outras grandes bandas fizeram e fazem parte desse movimento, Antibalas Afrobeat Orchestra, Femi Kuti (filho de Fela), Boston Afrobeat Society, Femm Nameless, Nigéria 70 (banda que acompanhou Kuti até os anos 70), Miriam Makeba, Manu Dibango e muitos outros que continuam a escrever a história do Afrobeat.

 


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