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Cine Esquema Novo, um espaço para produções independentes Imprimir
Escrito por Pedro Henrique Gomes   
Segunda, 02 de Maio de 2011 - 13:51

cen_final-2011A 7º edição de CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre superou as expectativas de todos. Do dia 23 até sábado último (30), as salas de cinema da Usina do Gasômetro (P.F. Gastal), do Cine Santander Cultural e do Cine Bancários, mais o espaço Ateliê Subterrânea, foram tomados por filmes, exposições, debates, seminários e palestras.

Ao longo dos sete dias de festival, o público pôde prestigiar o que vem sendo feito no cinema e nas artes visuais contemporâneas. A programação, apoiada por um forte ideário de renovação das linguagens audiovisuais, e que teve entrada franca em todos seus eventos, vem se tornando cada vez mais um espaço aberto à apreciação e discussão do cenário artístico brasileiro.

O que de melhor está sendo produzido no cinema independente nacional preencheu maciçamente a programação do festival, que contou com aproximadamente 80 filmes entre curtas, médias e longas-metragens.

Na noite de premiação, o grande vencedor da noite foi Pacific, longa-metragem dirigido por Marcelo Pedroso (MG), que levou para casa R$ 12 mil como prêmio. Na mostra competitiva de curtas e médias-metragens, o prêmio principal outorgado pelo júri escolheu Sarcófago, de Daniel Lisboa (BA), contemplado com R$ 5 mil. De acordo com as preferências do júri popular, o melhor filme em longa-metragem apresentado no festival foi Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro Martins (que também venceram como melhor direção) e o melhor curta, Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John (RS). O prêmio da crítica foi Ex Isto, de Cao Guimarães (MG), filme baseado livremente na obra catatau, prosa-experimental do poeta e escritor curitibano Paulo Leminski.

Após a última edição do festival, em 2009 (devido aos novos patrocínios, ano passado não houve festival), a sensação era de que as coisas iriam melhorar ainda mais. A expectativa se confirmou, mas não sem grandes esforços da parte dos organizadores (Alisson Avila, Gustavo Spolidoro, Jaqueline Beltrame, Morgana Rissinger e Ramiro Azevedo) e colaboradores do evento. A grande presença de convidados, realizadores e jornalistas, aliada a alta diversificação dos filmes selecionados e a competente organização do festival, não decepcionou o público presente. Aliás, mesmo com sessões gratuitas e vasta programação, ainda não se viu a quantidade de espectadores que se esperava. A cinefilia portoalegrense, lado a lado com a busca por uma identidade que o festival vem realizando, poderia ser mais efetiva.

Dentre os 12 longas em competição, quatro se destacam e revelam a potencialidade das escolhas da curadoria. Leia abaixo alguns comentários sobre eles:

Ex Isto, de Cao Guimarães

E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau? Livremente baseado em Catatau, prosa experimental de Paulo Leminski, o filme Ex Isto, de Cao Guimarães, tenta dar imagens às palavras do poeta curitibano a partir dessa ideia. Mas o que poderia ser entendido como uma adaptação ponta a ponta da obra de Leminski, mais convencional, com um esqueleto dramático-narrativo mastigado, aos olhos de Cao, transcende a própria criação-base, metamorfoseia-se em uma atmosfera diletante, onde resplandece a sede da descoberta, do saber, do conhecer, do experimentar; do medo, da dúvida, da apreensão, da razão, da moral, da ética, da criação, da insanidade. Nada é pura imersão ao sublime, ao fantástico. Não se trata de exprimir, mas de explorar. Estamos falando de um filme certamente consciente de que o limite criativo não existe. Mas para além do filme de belas imagens e de lindos planos, acima desse jogo visual melindroso que aos olhos de um cineasta menos habilidoso pode soar presunçoso, Ex Isto assume logo cedo que mergulhar nessa viagem é estar ciente de quão distante é o infinito de possibilidades ao qual a atividade gravitacional de seu eixo imaginativo poderá nos conduzir. Resta-nos embarcar.

Chantal Akerman, de cá, de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira

  

A câmera já está instalada, apoiada no tripé, a espera do verbo. Alguns ruídos e algumas vozes vão surgindo. Chegam algumas pessoas, se apresentam como pessoas da equipe. Chantal Akerman senta na cadeira e começa a responder as perguntas. Esse é Chantal Akerman, de cá, filme de Gustavo Beck (realização) e Leonardo Luiz Ferreira (entrevista). Mas por trás desse único plano, dessa única imagem, há todo um processo rigoroso de marcação de cena (de mise en scène), de composição do quadro único. Não é a toa que Chantal é única no plano (vemos apenas algumas pessoas passando em frente à câmera, mas a totalidade do plano já tem um corpo para lhe preencher), que a cadeira esteja posicionada daquela forma, que o entrevistador não apareça no filme com nada além de sua voz, que a câmera esteja distante o suficiente para não coagir e perto o bastante para poder sentir as vibrações da entrevistada. Leonardo conduz a entrevista com sobriedade, realiza pausas longas entre a formulação da pergunta, manipula bem o suspense. Chantal sente o clima e responde da mesma maneira. É uma personagem e tanto.

Pacific, de Marcelo Pedroso


Durante uma viagem, é natural ver diversas pessoas saírem a registrar (em vídeos, fotografias) com suas câmeras e seus portáteis os momentos vividos, salvaguardando "os instantes" para a posteridade, guardando em imagens as lembranças dos lugares e das pessoas que conhecem para não serem traídas pela memória. Num cruzeiro rumo a Fernando de Noronha, próximo ao Réveillon de 2008/2009, no qual estava a bordo a produção do filme, algumas dessas pessoas tiveram suas filmagens emprestadas à equipe para uso em um futuro documentário que uniria essas gravações e construiria uma narrativa a partir delas. Pacific, o filme realizado a partir dessas imagens anônimas, dirigido por Marcelo Pedroso, faz a colagem a partir do olhar que esses pequenos filmes possuem indistintamente (tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais) para elaborar outro olhar através do filme que os abraça, e esse tem a visão do diretor. O que torna Pacific um filme até mesmo encantador é a impossibilidade de o diretor interferir na ação do jogo (ninguém sabia que estava "atuando" para um futuro filme a ser exibido em cinema) e como isso não o torna epicentro para pequenos filmes desfilarem suas irreverências, mas um espaço crítico onde todos podem conviver e aglomerarem-se para construírem uma história só, uma história que diz muito de nossa própria sociedade – de nossos costumes, escolhas, sonhos e ilusões.

O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges

O Céu sobre os Ombros, primeiro longa de Sérgio Borges, mete a mão num formigueiro, mas sai de lá apenas com algumas picadas. A narrativa vai se conjurando de maneira a funcionalizar e expor o procedimento ficcional: câmera quase sempre fixa, no tripé; narrativa estruturada com o intuito de servir à fluência das diversas histórias de vida (e da vida) que são filmadas. No entanto, há uma apropriação de personagens reais, juntando os pedaços de suas histórias numa fricção constante que resulta num método eficiente de narrar: a transexual que trabalha como puta (ela prefere ser chamada assim) e que, transversalmente, dá aulas sobre a psicossexualidade estudada por Freud; o monge Hare Krishna que divide suas atividades entre o futebol (pois é torcedor fanático do Atlético Mineiro) e o skate, além é claro de sua religiosidade; o escritor que perdeu a fé nas pessoas e que, por isso, não quer mais viver. Dessas três vidas tão distantes (literalmente, pois não há algo que as interligue), desses corpos que só querem se identificar, extrai-se uma comunicabilidade possível: a busca pela significação própria.

 

Veja abaixo a relação completa dos vencedores:

Longa-metragem

Melhor filme: Pacific, de Marcelo Pedroso (PE).
Prêmio especial do júri: Álbum de Família, de Wallace Nogueira (BA).
Melhor direção: para Helena Ignez e Ícaro Martins, de Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (SP).
Troféu melhor dispositivo: Chantal Akerman, de Cá, de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira (RJ).
Filme vencedor do prêmio da crítica: Ex Isto de Cao Guimarães (MG).
Melhor filme de longa metragem escolhido pelo júri popular: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro Martins (SP).
Prêmio CineEsquemaNovo: filme Os Residentes, de Tiago Mata Machado.

Curta e média-metragem

Melhor filme: O Sarcófago, de Daniel Lisboa (BA).
Melhor filme de curta ou média metragem escolhido pelo júri popular: Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John (RS).

Prêmios livres

- As Corujas, de Fred Benevides (CE).
- Raimundo dos Queijos, de Victor Furtado (CE).
- My Way, de Camilo Cavalcante (PE).

Prêmio CineEsquemaNovo

Os Residentes, de Tiago Mata Machado (MG).

 


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