banner multi
Capa Memória Cultura Seminário Malraux
Seminário Malraux Imprimir
Quarta, 06 de Maio de 2009 - 16:44

24deabril

Integrado às comemorações do Ano da França no Brasil, que ocorrem em diversas localidades do país, ao longo deste ano, desta-se uma homenagem especial a André Malraux, pensador, crítico de arte, escritor, ativista político e três vezes Ministro de Estado do governo Charles de Gaulle. O “Seminário Malraux” chegou a Porto Alegre, através do Santander Cultural, após passar por 44 países desde 1994. A capital dos gaúchos, considerada o centro do Mercosul, dá início às comemorações do Ano da França no Brasil. E a equipe da AJor foi conferir de perto as principais atrações programadas de 23 a 25 de abril.

O Seminário Malraux é uma promoção do Ministério da Cultura e Comunicação da França, e se propõe a debater e refletir sobre a gestão e as políticas culturais. Durante a edição realizada em Porto Alegre, as políticas públicas, o patrimônio e a preservação das indústrias culturais foram alguns dos temas das conferências mediadas por especialistas brasileiros.

Patrimônio e preservação

“Vejo que o Brasil tem de adotar duas medidas urgentes, necessárias para preservar seu patrimônio – a primeira delas é criar políticas púbicas, e a segunda é gerar sistemas de financiamento que amparem essas políticas”.

por Luiz Fernando de Almeida

A palestra sobre “Patrimônio e preservação”, proferida pela arquiteta francesa Sophie Walhain, foi mediada e comentada pelo presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Brasil (IPHAN), Luiz Fernando de Almeida. Diplomada pela Escola Nacional Superior de Belas Artes de Versailles, a arquiteta foi conservadora do Louvre entre 2004 e 2008 e administradora do Palais-Royal e das Tuileries em 2004.

Walhain se diz “apaixonada pelo patrimônio público” e considera que preservá-lo, não significa voltar ao passado, mas trata-se de um procedimento moderno e de grande criatividade. Segundo ela, o povo francês preza muito pela sua qualidade de vida, e o patrimônio é um dos pontos: “A arquitetura, urbanismo e o paisagismo francês ajudam a compor a identidade do país”, comenta.

Na França, e mais precisamente em Paris, a preservação de seu patrimônio é levado tão a sério, que toda a construção deve obedecer a um limite padrão de altura e arquitetura, mantendo coerência com a planta oficial da cidade, segundo a arquiteta. A cidade preserva sua estrutura atual de distribuição e densidade urbana desde 1860. “Um proprietário, que deseja reformar o interior de seu imóvel, tem de consultar um arquiteto credenciado e solicitar ao estado a permissão para alterar a sua propriedade”, contou Walhain.

Em relação ao protecionismo do patrimônio público, a situação do Brasil é extremamente inversa, se comparado com a França. De acordo com Almeida, nosso país não possui nenhuma política pública em relação à qualidade de arquitetura nas cidades, e tampouco no que diz respeito à preservação. O processo de destruição do patrimônio no Brasil foi agravado quando o país passou pelo processo de modernização, no início do século XX, onde prosperar tornou-se sinônimo de demolição do patrimônio antigo. 

Para Almeida, se por um lado o país passou por um processo industrial acelerado e desenvolveu-se muito nessa questão, por outro, culturalmente o Brasil manteve-se um tanto primitivo em alguns pontos. “A cultura de um país torna-se limitada se não há no mesmo um fomento ao seu patrimônio antigo”, comentou o presidente do IPHAN. 

A homenagem a André Malraux tem bons motivos para o patrimônio e preservação. Segundo Walhain, partiu dele a política, que perdura até os dias de hoje, sobre a proteção do patrimônio francês em diálogo com as concepções modernas de arquitetura, urbanismo e paisagismo. “Além disso, Malraux foi um dos responsáveis por Paris transformar-se num patrimônio não apenas da França, mas de toda a Europa”, comentou a arquiteta.

Malraux também foi responsável pelo processo de agregar o patrimônio ao cotidiano da população, e não mais mantê-lo intocável, como ocorria anteriormente. Na ocasião, proferiu a seguinte frase – “Uma obra prima isolada é uma obra prima morta” - frase de Malraux, sobre a existência de monumentos e patrimônios públicos isolados da população. 

Uma vez que não tivemos no Brasil um Malraux e nem em nosso Estado, resta refletirmos quais as medidas necessárias para preservar nosso patrimônio nacional. Almeida finalizou a palestra com um alerta: “Vejo que o Brasil tem de adotar duas medidas urgentes, necessárias para preservar seu patrimônio – a primeira delas é criar políticas púbicas, e a segunda é gerar sistemas de financiamento que amparem essas políticas”.

Indústrias culturais – uma visão crítica

“É nas universidades norte-americanas sem fins lucrativos, onde nasce uma boa parte das criações culturais, ao utilizar uma estrutura idêntica à profissional em seus estúdios”.

por Frédéric Martel

Frédéric Martel é um escritor, além de jornalista, sociólogo, professor e pesquisador. Ele encerrou o ciclo de conferências em homenagem à Malraux com uma abordagem especial à geopolítica das indústrias culturais do mundo. Na mediação a economista, administradora pública e consultora em economia criativa para a ONU, Ana Carla Fonseca Reis. 

Adido cultural na Embaixada da França nos Estados Unidos entre 2001 e 2005, Martel prepara atualmente, para ser editada pela Gallimard, uma obra sobre as indústrias culturais através do mundo. Segundo o escritor, a globalização e as novas tecnologias estão produzindo uma grande alteração da geopolítica cultural mundial. O poderio tecnológico passou a ser fator determinante no mercado da cultura do planeta. Dentro dessa nova era da indústria cultural, algumas potências reafirmaram sua hegemonia, outras submergiram enquanto outras emergiram. 

Para a economista mediadora, a indústria cultural leva em conta dois fatores principais: o interesse público e o interesse privado, porém o segundo, na maioria das vezes, acaba sobrepondo-se ao primeiro. No Brasil, assim como em diversos lugares do mundo, a distribuição das obras é centralizada em um pequeno grupo de empresas que dominam o mercado. Na indústria fonográfica nacional, segundo Ana, 70% das produções estão na mão de apenas quatro empresas. No mercado audiovisual a situação não é muito distinta: 85% das salas de cinema pertencem ao mesmo número de empresas, ressalta a mediadora.

A economista comunga com a idéia de Martel, na qual as novas tecnologias reorganizaram-se a partir de outras novas tecnologias. Também destaca que a distribuição mundial ramificou-se e foi ampliada a partir da utilização da internet. Porém, destaca que o uso das mídias digitais na indústria cultural gerou um novo problema – “a exclusão digital tornou-se também uma exclusão cultural”. 

Em relação à hegemonia dos grandes grupos, que em geral são norte-americanos ou nortes-americanizados, a França parece ter criado ferramentas que protegem a produção cultural local. Um dos mecanismos do governo francês ocorre no setor audiovisual. Em qualquer sala de cinema do país, 10% do ingresso pago pelo público se destina ao Centro Nacional de Cinematografia (CNC) que, posteriormente, contemplará com essa quantia, através de programas de financiamento, a produção cinematográfica nacional. Isso vale para obras locais ou estrangeiras: “Quando se vai a um blockbuster se está financiando as produções nacionais”.

Seguindo na indústria audiovisual, é inevitável citar Hollywood, situado na cidade norte-americana de Los Angeles. Segundo Martel, a indústria cultural de cinema mais poderosa do mundo, leva em consideração apenas sete países, que participam efetivamente de sua indústria. São eles: Mercado doméstico (do qual fazem parte México e Canadá), Japão, Inglaterra, Alemanha, França, Itália e Espanha. A esse mercado, é dado o nome de box-office. 

Para Frédéric, o cinema do Brasil ainda não entrou no grande box-office mundial. Porém, as suas telenovelas e músicas participam fortemente dessa indústria. Ao tratar sobre a indústria fonográfica, o sociólogo trouxe um número expressivo: “A grande dominadora da indústria fonográfica é a Sony. 20% de toda a indústria fonográfica do mundo pertence à empresa ”. Apesar de ser uma empresa japonesa, a sua chefia geral fica em Nova Iorque, e é ela quem tem a palavra final em relação às produções que a empresa financia nos Estados Unidos, por exemplo. Essa relação não ocorre apenas com a empresa Sony. Se observarmos as quatro empresas que constituem o que é chamado de “conglomerado da música”, destaca Martel: Warner, Sony/BMG, Universal e EMI, apenas uma é genuinamente americana. Porém, aos olhos do mercado, todas elas, na prática, comportam-se como empresas norte-americanas.

No setor audiovisual, cinco são as empresas que formam o conglomerado da hegemonia de produção. A Sony aparece novamente, seguida de Disney, Viacom/CBS, NBC/Universal e NewsCo. Exceto a Sony, todas as demais possuem importantes canais de TV aberta norte-americana e à cabo mundial. Além disso, têm grande presença na produção teatral e de shows, na Broadway e no mundo todo. 

Um bom exemplo do novo mercado produtor audiovisual no mundo é a Índia, que se tornou um poderoso pólo da indústria do cinema do mundo, chamado de Boollywood. No país, 80% das exibições das salas são de produções nacionais, sendo 20% o limite para filmes estrangeiros. “Porém Hollywood não dormiu no ponto, e começou a desenvolver parcerias com a Índia. Não à toa, o filme ’Quem quer ser um milionário’, produção norte-americana que retrata a vida na Índia, foi o grande vencedor no Oscar desse ano”, comentou o conferencista.

Situação semelhante ocorre também em outros países como, por exemplo, no Japão, onde a maior parte das exibições é de produção local. Porém fato oposto é vivido nos países árabes, onde boa parte da produção consumida pela população é estrangeira, e, principalmente, oriunda do mercado norte-americano, segundo o sociólogo. “Os países de origem árabe possuem dinheiro, porém não têm produção cultural própria”, explica. 

Para Martel, o exemplo dos países árabes serve para uma reflexão em relação aos Estados Unidos – a dominação norte-americana na indústria cultural mundial não é apenas uma questão de dinheiro. O sociólogo acredita que são três os pontos responsáveis por essa hegemonia. Naturalmente um deles é a estrutura e o capital e o segundo, as universidades, responsáveis pela maioria das obras criadas para a Broadway. De acordo com Frédéric, “é nas universidades norte-americanas sem fins lucrativos, onde nasce uma boa parte das criações culturais, que utilizam uma estrutura idêntica à profissional em seus estúdios”. A última questão que posiciona os Estados Unidos como a nação mais poderosa do mercado cultural mundial é a diversidade. Segundo Martel, os norte-americanos agregam e adotam a cultura estrangeira no país, não por bondade, mas porque mercadologicamente a miscigenação fortalece a sua produção, criando um mundo em miniatura dentro de uma nação. “França e Brasil, por exemplo, defendem direitos humanos na OMC, na UNESCO, porém não admitem a cultura estrangeira em seu próprio país”, ressalta.

Segundo o jornalista Frédéric, no quesito diversidade, a França tem muitas dificuldades. Tanto para comunicar com o resto do mundo, quanto em agregar culturas estrangeiras. “Nós franceses, temos de aumentar nossa troca cultural, fortalecendo a produção nacional e criando redes mundiais para acompanhar os novos tempos”. 

De acordo com Ana Carla, apesar da imensa troca cultural, o Brasil poderia realizar um maior intercâmbio em sua produção. “No Brasil, um dos principais problemas no que diz respeito a trocas culturais é a dificuldade de nacionalizar a produção. Fixam-se muito em seus estados e pouco trocam com outros, gerando mercados regionalizados”. 

Outro problema no Brasil, segundo a mediadora é que as instituições financeiras não estão prontas para financiar a indústria cultural. As que desenvolvem projetos nesse sentido, trabalham com financiamentos centralizados em poucos e grandes grupos, criando uma disparidade da produção nacional. E por fim, falta um maior preparo para os produtores culturais. Segundo a economista, existem subsídios parados em empresas, esperando bons projetos chegarem, fato que, em muitos casos, não ocorre. “De uma forma geral, no Brasil, precisamos aprender a aproximar a cultura da economia, para fortalecer a nossa indústria cultural, ampliando-a para um número maior de grupos produtores”, comentou Ana Carla ao encerrar o Seminário em homenagem à Malraux.

 


Notícias relacionadas


Expediente

Mapa do Site :: Portal Universo IPA - 1º lugar na Intercom Nacional de 2008 :: Expediente
Creative Commons © 2005-2013 :: AJor - Agência Experimental de Jornalismo IPA