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Projeto Boca de Rua dá voz aos excluídos Imprimir
Escrito por Bruno Moura, Guilherme Sampaio e Pumaira Coronel   
Quinta, 18 de Dezembro de 2014 - 14:06

Boca de RuaMostrar o lado de quem vive em uma situação de vulnerabilidade social, através de um canal de comunicação entre moradores de rua e quem vive sob um teto, é o projeto Boca de Rua. Fruto da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação – mais conhecida como ALICE, e com mais de 10 anos de existência, o jornal Boca de Rua é desenvolvido por 30 moradores de rua, além de três pessoas ligadas à ALICE e outros três apoiadores.

Todo o conteúdo do jornal, textos e fotos, são produzidos por moradores de rua, contando com a orientação de jornalistas voluntários e um fotógrafo. A edição e a diagramação do jornal ficam por conta de uma jornalista e de uma designer gráfica, ambas integrantes da ALICE. As vendas dos exemplares são feitas também pelos próprios integrantes, e todo o lucro é divido entre eles. Atualmente, o Boca de Rua tem cerca de 30 mil leitores – o que equivale a três em cada um dos 10 mil exemplares. Em 13 anos de existência, o jornal jamais deixou de circular, como afirma a coordenadora da ALICE e responsável pelo projeto, Rosina Duarte: "O Boca tem edições trimestrais e nunca esta periodicidade foi interrompida". O projeto ainda possui um espaço destinado à crianças e adolescentes carentes, o "Boquinha". Lá, participam de oficinas de arte e comunicação e de passeios culturais. Ao total são 10 meninos e meninas, que produzem seus próprios materiais. Eles não vivem na rua e não vendem o jornal. Eles recebem um apoio financeiro, a exemplo do Programa Bolsa Família do Governo Federal, no valor mensal de R$ 40,00 por criança.

Rosina conta que o Boca de Rua surgiu através de um grupo de jovens, com o auxílio de sua professora alfabetização. Na época em quefoi procurada por eles, ainda não conseguiam se expressar corretamente na escrita, então surgiu a ideia de criar uma rádio. Mas, segundo Rosina "eles foram taxativos: queriam um jornal. Levamos um susto enorme. Como iríamos montar um jornal com analfabetos funcionais?". A percepção de um certo preconceito fez com que a futura coordenadora do Boca de Rua seguisse em frente com o desafio de criar o jornal, afinal aqueles jovens podiam até não saber a forma correta para expressarem seus pensamentos e ideias no papel, mas verbalmente o faziam "muito bem", afirma Rosina.

Ao longo de toda a sua história, cerca de 1.400 pessoas passaram pelo projeto e grande parte desses indivíduos que vieram de uma situação vulnerável, tiveram a oportunidade de mudar suas vidas. Como é o caso de Paulinho, morador de rua há 18 anos e que há 12 trabalha no Boca de Rua. Apesar de sua situação social, não deixou se levar pelos vícios comuns a quem vive em um quadro como o dele. Para Paulinho, "a importância do BR é que a gente mostra para a sociedade. Quanta gente, morador de rua, tem valor. Morador de rua tem direito. Morador de rua tem dignidade e respeito pela sociedade. Eu penso que a gente é artista, escultor, e a gente tem valor". E complementa: "a sociedade é minha maior amiga, porque eu trabalho com eles".

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O projeto oferece oficinas de escrita e de fotografia para seus integrantes produzirem o conteúdo para o jornal. Um dos voluntários é o fotógrafo Luis Abreu. Incialmente, Luis registrava imagens de moradores de rua e acabou se envolvendo com o trabalho do Boca, onde, pouco tempo depois, começou a produzir material gráfico. "Esse trabalho é importante no sentido de dar voz e dar visibilidade a essa população que mora na rua. A fotografia é um canal muito importante na apresentação dessa identidade, da identidade deles, da persona deles", afirma Luis.

Todo esse trabalho vem sendo reconhecido através de diversos prêmios que o Boca de Rua já recebeu ao longo desses anos. Como, por exemplo, Prêmio Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, concedido pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do RS, Unesco no Brasil e Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (2002), Prêmio International Netwok Street Papers (2006, 2007, 2008), Prêmio Pontos de Mídias Livres, concedido pelo Ministério da Cultura (2006) e Prêmio Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) – Boas práticas de Direitos Humanos (2013). Além disso, o Boca de Rua é membro da Rede Internacional de Publicações de Rua (International Network of Street Papers - INSP), entidade com sede na Escócia que reúne jornais e revistas vendidos por populações em situação de risco de 28 países. Ele é o único desta rede que tem conteúdo produzido integralmente pelos próprios vendedores.

1702715 9008 atm14Confira abaixo, a entrevista com a coordenadora da ALICE e responsável pelo projeto, Rosina Duarte.

1 - O que é o Boca de Rua?

Vamos começar por uma pequena biografia da ALICE – Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação-, a ONG responsável pela criação e coordenação do projeto. A gente brinca que a identidade secreta da ALICE é a de aliciadora, no melhor dos sentidos, porque ela é, na verdade uma grande reunião de pessoas interessadas em descruzar os braços.

Pois a Alice surgiu há 15 anos, da inconformidade de três jornalistas- eu, Eliane Brum e Clarinha Glock- com os rumos que a mídia vinha tomando, ou seja, o de encolher cada vez mais o registro da vida do cidadão e produzir notícia espetaculares da exceção, ou seja: ricos e famosos ou pessoas que cometeram delitos. Acentuou-se – e segue, cada vez mais aguda - a lógica primária e alienante dos bandido e mocinhos, vencedores e perdedores.

A ALICE nasceu, portanto, com a missão de registrar o que a sociedade não vê, a história oculta das pessoas banidas dos grandes veículos e essencial para construir a visão crítica do leitor/expectador/ouvinte. A ONG já desenvolveu vários projetos, além do BOCA, entre eles o jornal Almanaque (mulheres idosas da fronteira entre Brasil e Uruguai), Dito e Feito (idosos asilados e com a memória comprometida), Mariposa (prostitutas), Pombo Correio (presidiárias) e Trilhas da Anistia (resgate da memória nacional no período da Ditadura Militar). Todos os projetos são autogestionáveis.

A ONG é independente e se mantém por meio de parcerias, projetos, doações individuais e promoções próprias, como um sarau mensal, com apresentações musicais e um bazar de arte e artesanato.
O JORNAL BOCA DE RUA é o primogênito. Foi gestado no ventre da ALICE, mas educado e criado pelo próprio grupo de moradores de rua. Por isso, está vivo e forte até hoje. É uma cria da rua e não de pessoas que vivem sob um teto, no ao abrigo da lei, dentro do confortável conceito de "normalidade". Ele é uma subversão e uma pequena revolução. A frase que mais o define- na minha opinião- é a do pensador francês Jean Cocteau: "Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez".

2 - Como surgiu o Boca de Rua?

Em uma praça de Porto Alegre, que fica entre uma das escolas particulares mais caras da cidade e um complexo hospitalar. Irônico, porque os moradores de rua não têm acesso nem à educação, nem a assistência médica de qualidade.

O BOCA DE RUA nasceu sem teto, como seus integrantes. Nessa praça- conhecida como Praça do Cachorrinho- vivia um grupo de jovens que moravam na rua desde pequenos. Fomos apresentadas a eles por uma professora chamada Deirdre (não lembro o sobrenome) que tinha alfabetizado essas crianças ali mesmo na praça vários anos antes. Entretanto, a maior parte deles ainda não conseguia expressar seus ricos pensamentos e experiências de vida por meio da escrita.

Assim, pensávamos em um veículo de voz, como uma rádio de poste, por exemplo. Mas eles foram taxativos: queriam um jornal. Levamos um susto enorme. Como iríamos montar um jornal com analfabetos funcionais? Descobrimos então que, como o resto da sociedade, subestimávamos aquelas pessoas. Foi, ao mesmo tempo uma revelação incômoda (a constatação do nosso preconceito) e fantástica.

Mesmo sem escrever no papel, eles se expressavam – e muito bem – oralmente. Então, começamos a inventar juntos uma forma de trabalho que consiste na passagem da linguagem oral para a escrita, na criação coletiva, na clareza da informação e na ética jornalística. Ou seja: o jornal não é imparcial – mesmo porque a propagada imparcialidade é uma hipocrisia na imprensa – mas é objetivo e respeitoso. Não se trata de uma Veja ao avesso, de um editorial disfarçado, mas da outra face de uma moeda viciada, que sempre cai do mesmo lado. Trabalhamos, por exemplo, todos os elementos da noticia, como as clássicas perguntas -que, quem, quando, onde, como e por que - além de dar voz para quem é mencionado negativamente em uma matéria.

A escolha do nome do jornal, as pautas, as fotos, são de autoria dos integrantes, Chamo a atenção para o poder de síntese do logotipo, porque traz símbolos de igualdade no começo e no fim (tudo que se quer é direitos iguais), um "de", que se assemelha a um tridentes de diabos (e remete para a auto imagem dos moradores de rua) e uma boca berrando, muito semelhante a do quadro "O Grito", do pintor norueguês Edvard Munch, embora o seu autor nunca tenha colocado os olhos na obra. O autor, aliás, foi um morador de rua, o Riquinho, que desenhou sobre um banco de praça, em um dia de garoa. Por isso, o original era todo tremidinho (devido às irregularidades do cimento) e manchado pelos pingos de chuva.

Também as regras do grupo, foram votadas e são revisadas de tempos em tempos nos encontros especiais chamados DeBate Boca (nome criado por eles). O mais incrível é que essa "lei" privada nunca foi escrita, mas todos sabem de cor cada artigo. A base é o respeito e a criação de um ambiente de trabalho. São regras simples que dizem respeito à frequência, ao cumprimento do horário, a postura profissional durante a reunião e as vendas. Mas faço questão de citar uma delas, muito impressionante, na minha opinião: se sumir uma única caneta durante a reunião, todo o grupo é suspenso e não recebe a sua cota semanal de jornais. Eu sempre me posicionei contra a isso, pois considerava uma injustiça. Eu dizia: "Vocês querem uma ilha da Fantasia. Em qualquer lugar a gente precisa cuidar da bolsa". Um dia, um dos guris- o Leandro - me calou a boca dizendo o seguinte: "Tu és muito estranha. Diz que confia em nós, mas acha impossível que o Boca seja um território livre de chinelagem (pequenos furtos)". Então entendi o respeito deles pelo projeto. Eu estava vendo com os meus olhos de classe média e, mais uma vez subestimando o grupo. Eu estava errada. A regra existe até hoje e só foi aplicada três vezes em 14 anos. Nessas ocasiões, eu estava sozinha diante de 30 moradores de rua, tirando o ganha pão deles por uma semana. Eles protestaram, claro, mas aceitaram. E nenhum me desrespeitou.

Exceção feita a essa punição simbólica, o BOCA é baseado no diálogo e na compreensão ao invés da punição, que nunca resolveu os principais problemas da sociedade. Por isso, o BOCA não é apenas um jornal, mas uma outra forma de enfrentar as questões nefrálgicas das cidades, de praticar a solidariedade, o respeito mútuo, a busca de soluções coletivas, o respeito às diferenças, a prática do debate –incluindo a crítica e o protesto - e o prazer da convivência. Também é um exercício de reinvenção do mercado de trabalho, em vez de "incluir" pessoas na condição de cidadãos de quinta categoria lá no fim da fila, com direitos absolutamente desiguais e regras incompreensível para eles.

3 - Como funciona atualmente? Qual sua periodicidade?

Uma vez por semana – na terça-feira – acontecem reuniões com cerca de duas horas em um local cedido por um parceiro. No momento estamos na sede do Grupo e Apoio à Prevenção da Aids- GAPA (Luiz Afonso 234), mas vamos mudar para outro local em razão das férias de verão do Gapa. Provavelmente será o Memorial do Rio Grande do Sul ou Casa de Cultura Mario Quintana.
Nas reuniões, são decididas e encaminhadas as pautas, divididos os grupos responsáveis por cada tema, organizadas as entrevistas ou coberturas de eventos e montados os textos coletivos. Em outros dias da semana, quando necessário, os grupos realizam as matérias, de acordo com o planejado na reunião.
Participam da equipe 30 integrantes e três pessoas ligadas à ALICE e três apoiadores (dois universitários e um geógrafo)

Todos os textos e fotos são feitos pelos integrantes, orientados por jornalistas e um fotógrafo. A edição e a diagramação são feitas por uma jornalista e uma designer gráfica da ALICE.
O jornal também publica o material produzido pelo grupo de crianças do BOQUINHA, o suplemento infanto-juvenil do Boca de Rua. São 10 meninos e meninas em situação de risco social, mas que não vivem na rua e nem vendem jornal. Estão todos em casa com a família e estudando. Eles participam de oficinas de arte e comunicação e de passeios culturais. Suas famílias recebem uma ajuda de custo (semelhante à Bolsa Família, mas implantada muito antes, em 2003) no valor mensal de R$ 40,00 por criança. Suas mães ou responsável frequentam uma reunião mensal e produzem uma crônica por edição, também publicada na coluna Mãe Coruja. Elas podem vender o jornal, caso queiram.

Os adultos recebem, a cada reunião semanal, uma cota de 40 jornais. O valor das vendas é integralmente deles. O Boca tem edições trimestrais e nunca, em 13 anos, esta periodicidade foi interrompida.

4 - O jornal possui apoiadores ou patrocínio? Se sim, quem são eles?

Sim. A impressão é paga pela Federação dos Metalúrgicos/CUT RS, a logomarca é resguardada pela Paulo Affonso Marcas e Patentes, a sede do Boca emprestada pelo GAPA e a do Boquinha pelo Sindicato dos Petroleiros. As bolsas auxílio do Boquinha são bancadas por "padrinhos" (doadores voluntários). Quem trabalha no projeto também é voluntário.

5 - Como funciona a comercialização do jornal e é destinada a quem?

Os próprios integrantes vendem de mão em mão (sinaleiras, bares, universidades, etc) e a renda é toda dele.

6 - Como é o relacionamento com os leitores?

Como a venda é direta, os vendedores costumam explicar brevemente como funciona o jornal. Isso é um exercício diário de comunicação e uma forma direta de contato capaz de contribuir significativamente para reduzir o preconceito. Trata-se daquele velho ditado: não se respeita o que não se conhece. Uma pesquisa que vem sendo realizada há mais de ano pelos próprios integrantes com seus leitores – embora ainda não tenha sido completamente tabulada – revelou um dado significativo: a absoluta maioria compra porque gosta de ler e não apenas para ajudar.

7 - Você considera o Boca de Rua um jornal comunitário?

Sim, porque revela o ponto de vista da comunidade do Povo

* Reportagem produzida para a disciplina de Comunicação Comunitária. Jornalismo IPA.

 


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