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Escrito por Tássia Jaeger   
Sexta, 03 de Julho de 2009 - 17:30

26062009_faculdadeAo ler a coluna do jornalista de Zero Hora, David Coimbra, no dia 26, sexta-feira, na página 3, "O Primeiro Dia", a acadêmica do 6º semestre de Jornalismo do IPA, Tássia Jaeger, não apenas se indignou. Foi além de uma simples leitura e crítica. E por acreditar no ensino que vem sendo ministrado em nosso curso, a "futura" jornalista, Tássia escreveu e protestou!

Leia e comente!

Link para quem quiser ler a coluna do David Coimbra: O primeiro dia.


 

Faculdades de Jornalismo são de extrema
importância para a formação do profissional, sim!!!

Tássia Jaeger

Após ler a coluna do David Coimbra do dia 26, sexta-feira, fiquei muito chateada diante da sua constatação de que as faculdades de Jornalismo não ensinam. Como estudante de Jornalismo que sou, aprendi, entre outras tantas coisas, que generalizações são perigosas, portanto, devemos ter cuidado ao usá-las.

Tenho que concordar que ao fazer meus três primeiros semestres de faculdade na Unisinos não aprendi muita coisa, exceto na cadeira de Introdução ao Jornalismo, onde fui introduzida às teorias de cada técnica e veículo jornalístico. Após isso, seguiram-se várias e várias teorias chatas que quase me fizeram desistir do Curso. Isso porque, na minha concepção, Jornalismo se aprendia mais na prática do que na teoria, e aquilo não estava acontecendo ali.

Mesmo assim, antes de tomar a decisão de trocar de curso, decidi olhar a grade curricular do curso de Jornalismo que estava abrindo no IPA. Como ex-estudante do colégio Americano e apreciadora de seu ensino, eu já nutria um certo carinho pela Rede Metodista e, após olhar a grade, fiquei surpresa ao ver que cada semestre enfatizava um veículo de comunicação e que havia muita prática através de projetos experimentais, como eu desejava. Decidi me transferir para o IPA e não me arrependo até hoje.

Apesar de pouco conceituado em comparação à Unisinos, o IPA fez renascer em mim a paixão pelo Jornalismo. Não pensem que tenho alguma ligação com a faculdade e que estou puxando o saco. Assim como quaisquer outros alunos, eu pago a caríssima mensalidade (que inclusive deveria baixar com a derrubada do diploma) e sofro todo mês quando aquele dinheirinho sai da minha conta. Estou falando dela, pois, ao contrário do que David fala em sua coluna, no IPA eu tive e tenho ótimos professores e o conteúdo é sim um forte da faculdade.

Não enchemos cadernos com textos. Não mesmo! Por sinal, quase nenhum aluno tem caderno por lá. Isso porque ficamos em constante movimento produzindo matérias pra rádio, tv, impresso ou web. Sendo assim, aprendemos agindo e não trancados em uma sala de aula. Não é conteúdo escrito, mas, com certeza, é de alta qualidade e bem mais enriquecedor na nossa área.

Talvez a imagem que o David faz da PUC não corresponda à atualidade. Talvez ela tenha sido insatisfatória somente em sua época. Mas como não estudo lá, não posso falar, entretanto convido os meus colegas de lá a falarem sobre isso.

David ainda afirma que "Fazer faculdade não transforma aluno em profissional". Como assim não? Por que então estaríamos, nós alunos, professores e jornalistas, fazendo protestos em repúdio a derrubada do diploma? Se na PUC não se faziam profissionais no seu tempo, eu lamento.

Mas por favor, em meio ao sentimento de raiva e desolação de milhares de alunos de Jornalismo, fazer uma afirmação dessas é no mínimo um desrespeito. Fica aqui meu manifesto de insatisfação com a coluna de David dessa sexta, compartilhado por vários dos meus colegas com quem conversei.

LOGROS E LOGRADOS

O meu espírito é anarquista por natureza. Por mim, no extremo, fazendo caricatura, só profissões capazes de realmente colocar em risco a vida de um a pessoa, como medicina, deveriam exigir um diploma universitário específico. Mas isso é um sofisma bem ao gosto do raciocínio de mesa de bar. Conversa fiada. Universidade é cultura, experiência de vida, leitura, reflexão, espaço de discussão, descoberta do mundo, construção de imaginário. Faz o cérebro funcionar. Quando eu ouço um jornalista dizer que passou quatro anos na faculdade e não aprendeu nada, sou categórico: o problema não é da faculdade. Por pior que ela seja. É do cara que diz uma asneira dessas. Só tem duas explicações: ele é burro ou é burro. Ou é burro intelectualmente, incapaz de aprender, ou é burro emocional, cego para as oportunidades.

Claro, o sujeito pode ser gênio. Jamais conheci um. Nem Jean Baudrillard, Jean-François Lyotard e Jacques Derrida, com quem aprendi muito e achava assombrosamente inteligentes. Nem, para ficar em vivos universalmente conhecidos, Umberto Eco e Edgar Morin. Tenho encontrado muitas pessoas inteligentes. Todas dizem que aprenderam bastante na universidade e souberam continuar aprendendo por conta própria. Eu não tenho complexos. Estou bem satisfeito com a minha inteligência. Aprendi muito na Faculdade de Comunicação e História da PUC. Aprendi muito no curso de Antropologia da Ufrgs (terminou mal). Aprendi muito na Aliança Francesa em Paris, no Instituto Goethe, em Berlim (já esqueci), na Sorbonne, com Michel Maffesoli, no Colégio da França, onde segui as aulas de Pierre Bourdieu e Umberto Eco, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, com Derrida e Castoriadis.

Aprendi muito nesses lugares. Mas meus primeiros e decisivos aprendizados foram na Famecos, onde hoje me orgulho de ser professor. Aprendi e vi meus colegas aprenderem. Entramos todos meio toscos e saímos, em geral, muito melhores. Nas humanidades, onde se insere o jornalismo, o fundamental é o espaço de efervescência. Nada mais patético, quase sempre, do que ler opiniões sobre educação e ciência de jornalistas que desprezam a academia. São opiniões positivistas, anacrônicas, retrógradas, pré-Eistein (ia dizer pré-Popper, mas isso os obrigaria a uma corrida para o Google), baseadas num 'conteudismo' primário do tipo saber na ponta da língua a capital do Casaquistão ou se lembrar do valor do pi.

Cursos de jornalismo em empresas muitas vezes descambam para isso. Em Porto Alegre, já se teve cursos de empresa com o pessoal de uma entidade ultraconservadora europeia. Os guris não ficavam melhores como jornalistas, mas se tornavam reacionários e vestiam para sempre a camiseta dos patrões. Uma boa faculdade de Jornalismo deve ensinar a fazer o jornalismo global provinciano. Mas, acima de tudo, deve criar condições para se discutir esse jornalismo rasteiro e arrogante. Enfim, graças à Famecos, eu descobri um mundo novo de teoria, prática e autores. E reaprendi a escrever. Vai ver que, para um idiota como eu, uma faculdade faz bem.

 
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