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Uma conversa com Jane Tutikian Imprimir
Escrito por Anselmo Cunha   
Sexta, 18 de Novembro de 2011 - 10:31

patrona57Nascida em uma família humilde, desde cedo Jane Tutikian já demonstrava ter talento com as palavras e aos oito anos já escrevia poemas. Daí em diante, o gosto pela literatura só aumentou e os pequenos poemas se tornaram diversos livros. Trabalhos que lhe renderam 15 prêmios, entre eles o Prêmio Jabuti, em 1984, muito desejado por escritores brasileiros. Sua atração pelas palavras também fez com que Jane se tornasse doutora em literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde também atua como professora. Simpática, atenciosa e gentil, Jane atualmente é a Patrona da 57ª Feira do Livro.


Universo IPA - Como é ser a quarta mulher patrona da Feira do Livro de Porto Alegre?

Jane Tutikian - Ser patrona da Feira do Livro indiscutivelmente é a maior homenagem que um escritor gaúcho pode receber, e ser a quarta mulher também me deixa muito honrada. Estava na hora de ter uma mulher patrona. Não é que seja sexista ou feminista, não levanto nenhuma dessas bandeiras, mas eu acho que estava na hora de ser uma mulher, porque as mulheres vêm dando uma contribuição super importante para a literatura gaúcha, brasileira e internacional e aí não pode haver essa diferença muito grande.

Não são só os homens que são bons escritores. Nós temos uma geração de mulheres produzindo muito aqui em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, e com muita qualidade. Isso as coloca como candidatas ou como patroneáveis, então eu espero que essa minha passagem pela feira como patrona abra uma porta no sentido de que nesse século mais mulheres sejam patronas.

Universo IPA - Quem poderia ser a próxima patrona da Feira do Livro?

Jane - Tem tanta gente tão boa, na poesia temos a Maria Carpi, na narrativa temos a Valesca de Assis, a Cintia Moscovich, nos trabalhos literários a gente tem Regina Zilmberman, Maria da Glória Bordini. Estou citando algumas, mas tem muita gente boa, produzindo muito e com qualidade.

Universo IPA - Por que você foi chamada de patrona e não patronesse?

Jane - Foi muito engraçado. No dia em que foi anunciado o patronato, houve uma grande discussão na universidade. Ainda tem uma terceira possibilidade que é Padroeira. Quase que eu escolhi padroeira, acima do bem e do mal (risos). Então, pode ser os três, patrona, patronesse ou padroeira. Padroeira tem tradicionalmente um sentido lúdico, religioso e ficaria descartado. Patronesse ficou descartado por estar muito ligado aquelas coisas de benemerência. Então foi uma opção, quando me perguntaram como eu gostaria de ser chamada, escolhi patrona.

Universo IPA - Você já foi patrona em outras Feiras do Livro. Qual foi a mais marcante?

Jane - Todas me marcaram muito, sendo pequenas e sendo grandes. O patronato sempre marca muito porque as pessoas são muito carinhosas, muito afetivas. Elas vêm, abraçam, contam historia, tem uns que acham que eu sou uma editora e pedem ajudar para publicar um livro, eu acho que todas as feiras tem as suas particularidades. Eu sempre fui muito bem acolhida pelas cidades onde fui patrona.

Universo IPA - Como surgiu o gosto pela literatura?

Jane - Surgiu muito cedo. Eu tenho na minha casa um poema que eu fiz pro meu pai quando tinha oito anos de idade. É evidente que não tem nenhum valor literário, mas se eu pensar que eu tinha oito anos de idade, e que eu estava na segunda série, eu percebo que já tinha uma relação forte com a palavra escrita e a partir daí ela faria parte da minha vida, como realmente fez. Agora tem imagens e situações que me marcaram muito, a minha mãe era costureira e estudou só até a segunda série do fundamental, meu pai era guarda de transito e se alfabetizou sozinho com 21 anos, então o dinheiro era curto e não tinha livros à disposição, mas a minha mãe era uma eximia contadora de historia. E muitas vezes eu surpreendi meu pai, escrevendo em papel de pão, na época o pão vinha enrolado em papel pardo, e eu acho que isso tem a ver com o gosto pela literatura.

Universo IPA - Daí em diante só premiações?

Jane - Aí veio uma fase muito boa, de vários prêmios, um pouco assustador também. Quando eu ganhei o prêmio Jabuti com o segundo livro, foi assustador por que a impressão que eu tinha era que as pessoas sempre iam me cobrar outro jabuti. Mas enfim deu para superar o trauma do jabuti (risos).

Universo IPA - E houve essa cobrança?

Jane - Houve sim, teve gente que me perguntou "será que vai conseguir escrever outro livro?", "será que virá com a mesma qualidade?". Mas enfim, tudo deu certo.

Universo IPA - Além de assustadora, essa cobrança motivou?

Jane - Eu sou touro com ascendente em touro, e touro é muito teimoso. Então ao mesmo tempo em que foi assustador, também foi estimulante.

Universo IPA - Muitas das suas obras são voltadas ao público infanto-juvenil. O que mais lhe atrai a escrever para eles?

Jane - Na verdade eu entrei sem querer na literatura juvenil, nunca foi meu projeto escrever tantos livros para adolescentes e hoje metades dos meus livros são para adolescentes e outra metade para adultos. Eu escrevi uma novela e mandei para a editora, na década de 80, então a minha novela foi uma pioneira dentro da literatura infanto-juvenil, porque é na década de 80 que a gente começa a falar em literatura juvenil. Antes disso Érico Veríssimo tinha escrito Clarissa e Musica hoje e ninguém diz que é literatura juvenil, mas de fato é, pela temática, pelos personagens, pelas circunstancias todas e pelos conflitos é novela juvenil. Eu acho que no terceiro livro para adolescentes foi que eu descobri que eu realmente gostava de escrever para adolescentes. Cada adolescentes é uma caixa de surpresa, é o sujeito que vê o corpo modificar a cada, que vê a voz modificar, que tem vergonha de si mesmo e orgulho de si mesmo é um sujeito cheio de duvidas e cheio de razão, ele é cheio de contradições então o adolescente é extremamente rico nesse sentido, e muito espontâneo, o que é uma coisa legal. Então a partir do terceiro livro eu me dei conta de que eu realmente queria fazer e desde 81 que eu to na estrada com esse projeto, como o autor presente. E isso também terminou me animando e hoje isso alimenta o texto que eu escrevo para eles, eu discuto o que estou escrevendo, eu digo das minhas dificuldades de escrever, eles me dão palpite, e isso é um barato. Por exemplo, eles pediam um livro sobre o "ficar", e eu ficava com problemas porque a minha geração não é uma geração "ficante". Então eu tive que conversar com eles durante um ano inteiro, pesquisar intensamente, para poder escrever um livro sobre "ficar". Quem me deu o título, "Fica ficando", foi uma menina de Guaíba. E quando eu voltar apresentar um livro infantil eu não mando primeiro para a editora, eu sempre acho importante ter a opinião de outra pessoa. Eu me correspondo com adolescentes de todo o país, então eu escolho aleatoriamente seis e mando e aí eles me dizem o que eles acham e a gente pode discutir. Só depois eu mando para a editora. E tem sido uma experiência fascinante, a descoberta do adolescente.

Universo IPA - É fácil ou difícil agradar este público tão contraditório?

Jane - É fácil. Eu acho que fundamentalmente eles têm a mesma exigência que os adultos, a gente precisa se reconhecer no livro pra gente gostar. E os livros para adolescentes também tem a mesma exigência. Eu não faço nenhuma concessão em termos de estilo, eu escrevo como escrevo para adultos: não tem gírias, não tem língua oral, nada disso que eles usam. Eu uso o português "culto", mas as personagens são adolescentes, a psicologia das personagens é adolescente e o mundo é adolescente e eles terminam se reconhecendo e eu acho que é por isso que eles vêm se reconhecendo, e é por isso que tem funcionado.

Universo IPA - Nós estamos entrando na era dos livros digitais, na sua opinião, o que isso altera na relação das pessoas com a leitura?

Jane - Como toda a nova tecnologia, depende do uso que a gente dar a ela. Eu vou te dar um exemplo: como profissional de universidade eu tenho percebido as pessoas dizerem que estão lendo mais por causa da internet. Não, é um engano dizer isso e eu não sei a quem estamos enganando. As pessoas lêem mais resumos e lêem mais trabalhos prontos. Então não é verdade que estão lendo mais, e desenvolvendo censo crítico por causa da internet. O livro em papel não vai desaparecer, o homem levou séculos para chegar a escrita, séculos para chegar ao papel e ao livro, o que isso quer dizer? Isso quer dizer que cada livro, por mais simples que seja a edição, cada livro é parte do patrimônio cultural da humanidade. O que nós temos que fazer é saber que o livro existe em outros formatos.

Universo IPA - Você tem um Tablet?

Jane - Eu tenho um tablet e baixei dois clássicos da literatura para meus netos - uma menina de um dois e meio e um netinho de um ano e meio. Da literatura universal, Alice no País das Maravilhas e da literatura brasileira, Relações de Narizinho. A ilustração é fascinante, ela permite que a criança entre na história. Por exemplo, tem um momento que Narizinho tem dois insetos no nariz e quando a criança toca o nariz da personagem ela espirra e os insetos caem, tem essa interação que é bem legal. No primeiro dia a Duda (neta) ficou enlouquecida, mas depois de um tempo aquilo passou a se tornar repetitivo, por estar pronto, é tudo sempre igual. Daí é curioso por que a Duda tem um baú de livros e ela escolhe um determinado livro para eu ler e nós passamos semanas com a mesma história. Só que quando tu lê tu da uma possibilidade maior à imaginação, então nuneca é a mesma história. É na cabecinha dela que as coisas são armadas a imagem do livro não é entregue pronta. Embora fascinante para nós adultos, para esse público não é tanta novidade assim. E se para comprar um livro é caro, comprar um tablet é muito mais caro.

Universo IPA - Que dicas daria para os novos escritores?

Jane - Eu acho que aquele que quer ser escritor primeiro tem que ler muito, escrever muito e não ter vergonha de mostrar seu trabalho para ninguém. Terminou a era do escritor despreparado, isso terminou e não tem volta. Por isso que tem essa proliferação, por exemplo, de oficinas. Hoje nós temos editoras que já estão percebendo isso e que quando o jovem escritor manda originais de qualidade, elas já estão trabalhando da seguinte forma: Elas tem um carro chefe, que é um escritor consagrado que garante o funcionamento da editora e esse carro chefe permite que se invista em novos autores. Eu acho que o mercado está se abrindo, já foi muito mais difícil.

Universo IPA - Você pode deixar um recado?

Jane - O meu recado é de agradecimento por todo o carinho, gentileza e atenção que tenho recebido como patrona. Lá no inicio, quando anunciaram o patronato, me perguntaram o que eu queria para a feira e eu disse que quero uma feira que seja alegre e afetiva e chegando ao final da feira eu vejo que isso tem se concretizado.

Entrevista produzina na Oficina de Jornalismo do Correio do Povo

 


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