banner multi
Capa Memória Coberturas Especiais Feira do Livro Quando autografar é um ato solitário
Quando autografar é um ato solitário Imprimir
Escrito por Carlos Macedo   
Domingo, 31 de Outubro de 2010 - 17:17

avidacontinuaNos cinquenta e seis anos de história, a Feira do Livro de Porto Alegre e as suas tradicionas sessões de autógrafos apresentam livros de célebres e desconhecidos escritores. Quase sempre, a atenção está nos célebres: Moacyr Scliar, Charles Kiefer, Carlos Urbin, Juremir Machado, Cláudia Tajes, entre tantos outros nomes da literatura gaúcha e brasileira. Alguns desconhecidos até nem passam despercebidos. São amparados pelo conforto da família, a devoção de amigos e a admiração de colegas e alunos. Mas ainda há os desconhecidos, somente. Para estes, autografar é um ato solitário. É o caso da Dona Eronita.

Na Praça de Autógrafos, numa das sessões de sábado (30), às 15h30, ela aguarda pacientemente por algum admirador, sentada na mesa reservada por instantâneos 30 minutos. Eronita Ferreira Moraes, 61 anos, não é nenhuma célebre, tampouco escritora. Por isso, quase passou despercebida. Mas, seu rosto denotava um ar esperançoso e parecia aguardar por alguém. A sensação era que Eronita, talvez, ficasse ali a vida toda. No entanto, assim como diz o título do pequeno livreto escrito por ela, "a vida continua".

Antes que a senhora fosse embora, me dirigi até o balcão onde estavam expostos os livros dos autógrafos do dia. Encontrei sua obra, 'A vida continua'. São apenas 32 páginas, mas que revelam uma paixão incondicional pelo cantor Roberto Carlos. "Neste livro estão pedaços desse amor que sinto", escreveu.

Achei curioso o livro composto de cartas, bilhetes e declarações para o "Rei", então fui entrevistá-la. "A senhora é fã do Roberto Carlos?", perguntei. "Minha paixão é o Rei", ela declara. Até aí nada de surpreendente. O cantor é adorado pelo Brasil todo. O inusitado está em como começou essa paixão.

"Ele veio para me salvar"

"Fui estuprada. E, na hora, veio em minha mente a imagem do Roberto Carlos. Foi como um milagre, um conforto para que eu não sofresse tanto. Ele veio para me salvar", revela.

Eronita, que tinha apenas 14 anos, quando tudo aconteceu, num matagal, em Cachoeirinha, cidade da Região Metropolitana, onde mora até hoje. Depois daquele dia, nunca mais esqueceu o cantor.

Dois meses após o ocorrido, ao descobrir o ato, seu pai obrigou que ela se casasse com o "estuprador". Viveram juntos durante quatro anos. Eronita ainda casou-se novamente, mas não deu certo. Teve dois filhos, "um com o estuprador e outro de um encontro amoroso".

A consolação, mais uma vez, foi a paixão por Roberto Carlos, descrita em cartas e bilhetes, devotos da solidão.

Sonhando acordada

Sonhar com ele é uma rotina. Numa das declarações platônicas, a amante conta no livro: a noite passada eu sonhei novamente com o Roberto Carlos. No sonho ele veio me ver. E nós saímos de mãos dadas sob o sol e a lua. Eu nem queria ter acordado.

O sonho não ultrapassa a imaginação de Eronita, que jamais foi a um show do "Rei". "Minha paixão é ver ele de perto. Colocar a mão nele. Será um milagre." Reunir todas as declarações num livro foi uma súbita tentativa de materializar um encontro entre amantes. Mas Roberto Carlos parece não ter recebido os comunicados apaixonados. "Eu escrevo muito para ele, mas não recebo resposta".

Amanhã de manhã

Nos trinta minutos em que esteve na Feira do Livro, Eronita deu dois autógrafos. E ainda aguarda o retorno do "Rei". Quem sabe "amanhã de manhã"... "O que eu mais quero é ser amada. Só que é impossível acreditar em tanto amor", comenta, ao citar uma de suas músicas favoritas, Café da Manhã - composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos – e que diz assim:

Amanhã de manhã
Vou pedir o café pra nós dois
Te fazer um carinho e depois
Te envolver em meus braços
E em meus abraços
Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar
E te amar na manhã
Amanhã de manhã
Nossa chama outra vez tão acesa
E o café esfriando na mesa
Esquecemos de tudo
Sem me importar
Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora
Vou ficar por aqui
Pensando bem
Amanhã eu nem vou trabalhar
E além do mais
Temos tantas razões pra ficar
Amanhã de manhã
Eu não quero nenhum compromisso
Tanto tempo esperamos por isso
Desfrutemos de tudo
Quando mais tarde
Nos lembrarmos de abrir a cortina
Já é noite e o dia termina
Vou pedir o jantar

Escute a música

 


Notícias relacionadas


Expediente

Mapa do Site :: Portal Universo IPA - 1º lugar na Intercom Nacional de 2008 :: Expediente
Creative Commons © 2005-2013 :: AJor - Agência Experimental de Jornalismo IPA