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Tragédia, crime e amor no 'Caso Kliemann' Imprimir
Escrito por Gisele Perna   
Segunda, 08 de Novembro de 2010 - 16:51

kliemanEspeculações policiais, um crime sem solução, uma imprensa sensacionalista e dualidades políticas marcam o livro do jornalista Celito De Grandi. Caso Kliemann. A História de uma Tragédia, em sua segunda edição, já esgotada, narra o episodio de um crime que abalou o Estado na década de 60.

A Feira do Livro toma ar de um romance policial. Daqueles que tendem à estética Noir, com personagens repletos de charme, bem sucedidos, crimes passionais e o retrato de um mundo cínico da sociedade. Porém a obra de Celito De Grandi, não tem nada de ficção. Trata-se da narrativa sobre o caso Klimann, onde Euclides Klimann, jovem político da época, é acusado de cometer o assassinato de sua bela e jovem mulher: Magrit Kliemann.

De maneira emocionada, De Grandi, acompanhado do historiador, Sergio da Costa Franco, do secretario de Cultura, Luis Antonio de Assis Brasil e do jornalista Jaime Cimenti, falou sobre a política e a paixão seguida de morte que marcaram o Brasil na década de 60.

O crime ocorreu em uma noite de inverno no ano de 1962. Magrit foi encontrada morta aos pés da escada da mansão localizada no bairro Moinhos de Vento, bairro tradicional de Porto Alegre. O suspeito? Nada mais que seu apaixonado marido, Euclides Kliemann. Após essa noite, Porto Alegre e todo o Estado não foram mais os mesmos. A imprensa tendenciosa passou a investigar e a divulgar fatos que indicavam Euclides como o único suspeito. A polícia, em meio a questões políticas, ia de encontro ao que a imprensa divulgava. Todos na época tornaram-se detetives e teciam comentários sem a mínima investigação plausível.

Logo que abrimos o livro, nos deparamos com a foto de casamento de Euclides e Magrit. Ambos eram de família tradicional de Santa Cruz, e o jovem deputado Euclides, era um dos políticos mais cotados para uma brilhante carreira política dentro do partido PSD. Tinham três belas filhas e vivia uma linda relação de amor que causava a inveja a muitos socialites da época.

Na tarde de hoje, Celito inicia o bate-papo contando que na época era um jovem jornalista que não atuava na parte policial, mas esteve presente e atento em todo o percurso do caso. Para quem estava começando, esse era, sem duvida, um caso que marcaria, não só para o autor, mas para toda a imprensa da época.

Num tempo onde a imprensa disputava com a policia a primazia dos casos e que os jornalista atuavam como investigadores, esse caso foi, segundo o escritor, um emaranhado de tudo que tanto a policia quanto jornalistas não devem fazer.

Celito ressaltou que o ano do assassinado de Magrit, também era marcado por disputas eleitorais. De um lado o partido do PSB, de Euclides, do outro, o partido PTB, de Leonel Brizola, recém eleito Governador do Estado. Euclides que era deputado estadual e vice-presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Legislativa atuava como um dos maiores líderes de oposição ao governo de Leonel.

O autor comentou que se deparou com alguns problemas enquanto construía sua obra. Como apurar fatos sem envolver as três filhas do casal, que durante todo esse tempo, negaram-se a falar sobre o assunto? Até que ponto mexer em um passado tão trágico poderia causar certa comoção às meninas, hoje jovens senhoras.

Através de amigos em comum, De Grandi entrou em contato com a filha mais nova do casal, Cristina, que repassou as informações à irmã mais velha, que vive na França. Virginia, a mais velha, escreveu para o jornalista e comentou a surpresa que teve ao saber da sua intenção de reunir informações em um livro, porém, era chegada a hora de se manifestarem. Após decidirem contar uma história, que para elas era difícil de relembrar, repassaram a Celito documentos, fotos e, em especial, algo que traria à obra seu diferencial: os apontamentos de Euclides Kliemann, uma espécie de diário pessoal, onde se encontra a narrativa das horas que antecedem o encontro dele, com sua mulher morta.

Para Celito, que entrevistou vários criminalistas a respeito do caso, o cônjuge, dentro de uma relação que jamais passou por problemas, deveria ser o ultimo a responder pelas acusações. Em uma critica ao posicionamento da policia da época, o autor fala que sua obra deveria servir de manual para saber exatamente o que não fazer em um caso como este.

O historiador Sergio da Costa Franco ressaltou que as investigações transitaram dentro dos rumos que o Brasil se encontrava: com grandes disputas de poder e dois partidos muito importantes se digladiando, era esperado que a polícia se posicionasse da forma mais plausível. Em um crime como este, o marido, sobrevivente e comovido, certamente tem algo a esconder. Foi dentro desta tendência que a policia, assim como a imprensa, arquitetou os fatos, criou personagens fictícios e conduziu uma investigação que levava a crer, que Euclides, era apontado como o único criminoso.

Por mais que Celito tenha estruturado um livro-reportagem, todas as evidências postas em sua obra não trazem a certeza de um culpado. Tão pouco visa solucionar o crime. Cada fato narrado é deixado para que o próprio leitor tire suas conclusões.

Euclides Kliemann foi assassinado um ano depois da morte de usa esposa. O assassino? O vereador do partido oposicionista, Floriano Peixoto Karan, conhecido como Marechal. Durante uma coletiva na radio de Santa Cruz, empunhou o revólver e atirou certeiramente em Euclides. O crime foi gravado e serviu como um dos indícios para incriminar o Marechal em seu julgamento que ocorreu em dezembro de 1965. Uma semana após a sua morte, em 1963, Euclides foi inocentado da acusação de assassinar sua esposa Magrit.

 


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