História de uma paixão pelo Rio Grande Imprimir
Escrito por Gisele Perna   
Segunda, 15 de Novembro de 2010 - 09:41
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Modelo para o monumento do Laçador e, em especial, para a literatura gaúcha, o patrono da Feira do Livro, Paixão Côrtes fala sobre a sua paixão pelo Rio Grande. Foto de Gisele Perna

Na quarta-feira, dia 10, na Tenda Pasárgada, na área geral da Feira do Livro, Paixão Cortes lembrou de seu amor pelo Rio Grande ao falar para uma platéia jovem, sobre o tradicionalismo, seus aspectos sociais e como cultivar as verdadeiras tradições.

Paixão Cortes iniciou sua fala salientando a importância da preservação de nossas tradições. Completou, fazendo um breve parecer aos educadores e como estes devem procurar compreender que tradicionalismo é mais que se vestir de gaúcho. . "Não estou aqui pra traçar normas sobre a tradição, apenas para repassar o que eu sei".

Com uma apresentação ilustrada por fotos de sua vida, Paixão narrou, de forma emocionada, como se deu o inicio do Movimento Tradicionalista, nascido em meio aos estudantes do Colégio Julio de Castilhos, em 1947. Paixão Cortes foi um dos seus mentores, acompanhado de mais sete rapazes e que mais tarde receberiam o nome de "Os oito magníficos".

O interesse em comum era criar algo que validasse a cultura do homem do campo, seus hábitos campeiros e suas vestimentas. O primeiro passo veio com a idéia de escoltar os restos mortais de David Canabarro que vinha para o Estado para inaugurar o Panteon. Entraram em contato com a Liga Nacional de Defesa do Tradicionalismo e propuseram dar essa escolta a cavalo.

Para a aventura, procuram mais jovens, que como eles, amavam as tradições do campo e se propusesse a usar suas vestimentas típicas, trajes campeiros, e saíram a cavalo pelas ruas de Porto Alegre. Na época, faltou homem para o cortejo. Muitos não compartilhavam da ideia de se vestir com os trajes do campo: "Naquela época era vergonhoso usar as roupas que usávamos no campo. Um fazendeiro, mesmo que importante não podia freqüentar os salões, se estivesse vestindo uma bombacha e botas".

Alguns dias depois, por iniciativa de Paixão Cortes, em frente ao Colégio Julio de Castilhos, ergueu-se uma tocha em frente ao Monumento alusivo a Revolução Farroupilha. Nasceu ali a Chama Crioula, parte de nossa cultura até os dias de hoje.

O segundo passo viria com a formação do Departamento Tradições Gaúchas, liderado por alunos do Julinho. Pautado na ideia de buscar elementos que validassem a cultura gaúcha, Paixão partiu para uma pesquisa, em vários segmentos: indumentária, música, danças, poesias, etc. Saiu com seu gravador super oito para registrar em todo o Estado, pequenas manifestações culturais que fossem de valia para a formação do Movimento de Tradição Gaúcha.

Criou-se uma cartilha de danças típicas. Paixão descreveu a série de levantamentos fotográficos com passos e danças típicas que eram executadas pelo interior do Estado. A Comissão Estadual de Folclore acabou editando esse manual que até hoje é usado pelos CTGS. O Bailão Caído, Vinte e Quatro, Chula e o Sapateiro foram os passos devidamente documentados, através de fotos e de partituras musicais escritas por Paixão, para a obtenção do compasso certo das danças.

A respeito dos trajes típicos, nosso patrono e sua assistente Ana Fraga falaram que os trajes de hoje estão se diferenciando da proposta inicial. As longas saias de algodão, hoje, deram lugar para o filó, muito usado na Europa como armação de saia. Outro equivoco, ocorre nas festas típicas do Estado. Durante as festas Juninas, vê-se crianças vestidas de caipira, figura do folclore paulistano. "Criança deve se vestir como criança. Eu fiz um levantamento com as roupas infantis de nossa tradição. Se vestir de caipira é uma distorção, que parte dos pais e dos professores" Para ele a defesa da tradição é algo imprescindível. Deve partir desde criança com a finalidade de formar uma identidade. Passar os elementos de nossa cultura de forma verossímil é tarefa dos educadores e dos pais.

Com uma longa carreira no tradicionalismo gaúcho e um dos ícones de nossa cultura local, Paixão Cortes terminou a apresentação ressaltando que, as tradições, bem como o folclore são partes fundamentais da cultura pessoal. São como relevos da sociedade. Sua preocupação é levar a veracidade de nossos costumes. Através do projeto Mogar, Paixão faz várias palestras em escolas, em grupos tradicionalistas e oferece cursos onde também são distribuídos seus livros sobre as tradições do Rio Grande do Sul.

Questionado sobre o tempo de demora para efetuar essa pesquisa que garante uma tradição coesa e que inclui diversos nichos, como dança, musica, poesia, vestuário, etc. Após um leve ofegar, ele respondeu: "Ainda não terminei minha pesquisa. Hoje parto para uma reavaliação de coisas que fiz há 40 anos atrás. Fico relembrando e muita coisa ainda me sai da memória. Tenho 20 obras publicadas, mas ainda pesquiso para as próximas, até porque tradição não é sinônimo de estagnação". Paixão ainda falou no final que havia sido convidado a fazer um curso sobre a importância da tradição ao lado do desenvolvimento social. "A tradição não se faz parada!" Exaltou o tradicionalista e patrono da Feira do Livro. Aliar nossos costumes ao crescimento urbano e às novas propostas sociais é um plano e uma necessidade para que ainda se cultivem as tradições gaúchas..

 


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