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Mia Couto encerra o Fronteiras do Pensamento 2012 Imprimir
Escrito por Bruno Moura   
Quinta, 15 de Novembro de 2012 - 07:51

mia-couto-fronteirasO biólogo, jornalista e escritor moçambicano, Mia Couto, participou, na noite desta segunda-feira, da última conferencia do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS. Utilizando-se do bom humor, o conferencista refletiu sobre as palavras: fronteira e pensamento, que denominam o evento, e trouxe inúmeras analogias que puderam ser usadas para refletir quem somos nesta era Contemporânea, sempre acompanhadas com demonstrações de grande simpatia ao Brasil.

"O pensamento não tem fronteiras", destacou Mia. E para exemplificar a sua afirmação, usou algumas figuras de linguagem e comparou o homem ao tucano, um pássaro que se aloja no na parte oca da árvore para arrancar suas próprias penas e criar um ninho para os filhotes. Ao arrancar as penas, o tucano sentencia a sua morte por não poder mais voar, num ato de amor às suas crias.

Nesta linha de raciocínio, Mia revela: "O problema é que o nosso pensamento, ao contrário dessas entidades vivas, facilmente se encerra em si próprio. E nós não sabemos fazer paredes vivas. Nós erguemos paredes inteiras como se fossemos tucanos secos". E complementou: "temos medo da mudança, temos medo da desordem, temos medo da complexidade". Ao referir-se ao medo como uma fronteira, ressaltou que "temos medo que pensem diferente de nós, temos medo dos que pensam como nós".

As histórias vividas pelo palestrante no Brasil, tendo em vista a confusão gerada com os significados de uma série de palavras, ganharam espaço na palestra. E entre elas está a palavra bala, que para os moçambicanos têm um único significado: projétil de uma arma. Ele relembrou, então, a sua primeira visita ao Brasil. Em Moçambique, a sua filha Rita costumava relatar incidentes graves que aconteciam no Brasil, como assaltos com mortes. Ao desembarcar em São Paulo, encontrou um homem com um cartaz onde estava escrito seu nome. Mia conta que pensou estar sendo conduzido para seu "momento final", num carro funerário (uma limusine). No trajeto, o homem, que era o motorista do veículo, em dado momento virou-se para o escritor e perguntou se aceitava uma "balinha". "Eu pensei que realmente fosse um assassino gentil".

Além de discorrer sobre a influência do Brasil e da África na língua portuguesa, Mia Couto alfinetou os brasileiros que costumam espelhar-se "para cima", referindo-se aos Estado Unidos, e pouco "para os lados"! Também se referiu ao Brasil, como um país que desperta curiosidades em Moçambique, em especial pela sua música.

Quando as ciências entraram em pauta o biólogo, ressaltou: "Nós não imaginamos o quanto a ciência não sabe". Também ressalta que as mídias não noticiam a ciência em torno do homem, e costumam dar destaque às ameaças presentes, como o efeito estufa. Para mostrar que informações importantes são descartadas, lançou como desafio a notícia: "A cada dez das nossas células, nove não são humanas. São bactérias, são micro-vírus que vivem dentro de nós e que são parte de nós".

As 'idéias'também fizeram parte de sua reflexão, e lembrou: "As ideias que nós já temos impedem que novas possam surgir". Para ele as ideias seriam como amantes que dormem com o homem todas as noites, levando-o a exaustão: "cada vez mais nós somos quem já fomos". E concluiu: "A fronteira do pensamento e das ideias é algo mais complexo do que se imagina".

 


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