A biblioteca imaginária Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quinta, 13 de Novembro de 2014 - 22:26

alberto manguel spO segredo dos livros é permitir ao leitor um permanente contato com os seus respectivos autores – muitos deles já falecidos. São milhares de volumes; impossível ler todos. Entretanto, há personagens, arcos e passagens que compõem um local transcendental, onde tudo se reúne e faz sentido: a "biblioteca da imaginação". Não há livro que não habite esse cenário invisível da cultura.

Para defender estas ideias, o Fronteiras do Pensamento trouxe a Porto Alegre, no dia 03 de novembro, o escritor argentino Alberto Manguel, uma das grandes referências literárias do mundo. Ele, assim como Quixote, Machado de Assis, Sheakspeare, e outros "prisioneiros da palavra grifada", entram para a história naturalmente. Entretanto, Alberto assume sua humildade ao reconhecer que existem autores mais competentes, cujos títulos estão em evidência na biblioteca imaginária.

CULTURA PARA AS GERAÇÕES FUTURAS

"Nosso conhecimento da realidade depende da imaginação", afirmou. E é por meio da biblioteca que as obram sobrevivem ao tempo e à passagem dos séculos. Mas existem dois tipos de biblioteca: uma individual e uma coletiva. A primeira separa fragmentos da memória de cada um. Guarda aquilo que, idiossincraticamente, é interessante ao leitor. A coletiva reserva as obras que tem o apresso da humanidade; documentos históricos da literatura.

Não são os autores que decidem o que ficará como legado da literatura. O que define são os próprios leitores, por meio de um fato, um episódio, uma expressão. Normalmente, as pessoas são monolíngues. Isso não é, para Alberto, um problema. Há milhares de tradutores dispostos a transliterar os textos originais, tornando-os equivalentes, porém em outros idiomas. O escritor argentino comenta também que todo tradutor deveria de compartilhar da autoria e ter o nome na capa, pois ele é o verdadeiro autor daquele texto.

Há um ano, Alberto Manguel sofreu um derrame. "Eu não conseguia passar da ideia às palavras. Algo que jamais tinha sentido". O susto não desestimulou sua crença de que existe um bibliotecário invisível que habita o seu cérebro. Um funcionário mental que separa os textos na memória; os melhores dos piores. Às vezes textos ruins são separados. Isso também pode acontecer. Em suma, tal figura metafórica sempre tem um texto à disposição trazer a Alberto novas palavras. Ele espera, portanto, que esse bibliotecário nunca se aposente. E é desse modo que ele nunca se sente só. "Eu nunca estou sozinho. Tenho a minha biblioteca", conclui.

MAIS SOBRE ALBERTO MANGUEL

Nasceu em 1948, em Buenos Aires, e hoje é cidadão canadense. Passou a infância em Israel, onde seu pai era embaixador argentino, e fez seus estudos na Argentina. Em 1968 transferiu-se para a Europa e, à exceção de um ano em que esteve de volta a Buenos Aires, onde trabalhou como jornalista para o La Nación, viveu na Espanha, na França, na Inglaterra e na Itália, ganhando a vida como leitor para várias editoras. Em meados dos anos 70, aceitou o cargo de editor-assistente das Editions du Pacifique, uma editora do Taiti. Em 1982, depois de publicar The Dictionary of Imaginary Places (em colaboração com Gianni Guadalupi), mudou-se para o Canadá. Editou uma dúzia de antologias de contos sobre temas que vão do fantástico à literatura erótica. Autor de livros de ficção e não-ficção, também contribui regularmente para jornais e revistas do mundo inteiro. Atualmente vive no interior da França, num antigo priorado transformado em residência onde instalou sua vasta biblioteca.

 


Notícias relacionadas


Expediente

Mapa do Site :: Portal Universo IPA - 1º lugar na Intercom Nacional de 2008 :: Expediente
Creative Commons © 2005-2013 :: AJor - Agência Experimental de Jornalismo IPA