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A gota d´água: R$ 0,20 e o saldo Imprimir
Escrito por Fredo Tarasuk   
Quarta, 19 de Junho de 2013 - 17:50
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Se o que está em jogo são números, então, calculemos: um dia de 24 horas em uma cidade de 1,51 milhões de pessoas. Um sistema de transporte urbano que movimenta cerca de 325 milhões de passageiros por ano. Duas passagens, uma de ida e outra de volta, no mínimo. Um valor de R$ 3,05, diminuído na base do grito para R$ 2,85 por viagem. A gota d'água, um número bem pequenino, R$ 0,20. "Não imaginava que isso pudesse ser real", pensei enquanto descia do T9, no centro da cidade, naquela segunda-feira gelada, dia 17 de junho.
 
14:55h
 
Desci a antiga Rua da Praia quando, ao chegar na Borges, vi ‘uma’ soldado fardada e com um colete preto sem identificação alguma. Apenas a faixa amarela no braço, 9º Batalhão da Brigada Militar. Nunca havia reparado antes, mas se aquilo fosse um hábito, seria estranho. Porém, se fosse proposital seria pior. Passei na frente da Prefeitura e tudo parecia "muito calmo". A cidade seguia seu habitual ritmo frenético. Segui com ela.
 
17h20
 
Quando retornei, por volta das 17:20h, havia aproximadamente uma centena de pessoas. Não perca as contas. A manifestação, marcada para ter inicio às  18 horas, ganhava muitos corpos por minuto, as pessoas traziam - e também faziam ali mesmo - cartazes com os mais diversos dizeres. Já não era mais somente pelos 20 centavos do ônibus, eram muitos gritos entalados na garganta. Contra a PEC 37, a má educação, corrupção, violência, além das humoradas odes à FIFA. Alguns versos também eram destinados para a força policial, porque, sim, a multidão é consciente de que o policial também passa por maus bocados na profissão. "A maioria de nós estaria protestando, também, cara. Tem colegas que estão aqui, só por descontar a desvalorização que o governo dá pra instituição, Brigada Militar, no corpo de um anarquista". Foi o que me disse um oficial da BM que preferiu omitir sua identidade.
 
Anarquistas. A maioria das cenas de depredação registradas foi marcada por bandeiras negras, vermelhas e o famoso "A de anarquia". É complicado dizer se o que os grupos anarquistas, aliados a vândalos incitados, fizeram não é justificável. Primeiro, pelo argumento teórico do anarquismo. Que afirma que qualquer propriedade é um roubo. Segundo - e muito mais palpável - é o preceito de que as ações são legítimas em simples resposta a décadas de descaso e desapego de nossos governos. A linha que separa a razão e loucura disso tudo é tão tênue como a razão e loucura de um oficial que bate mais forte e com mais raiva para descontar o mau aparelhamento da força policial, o soldo miserável, o estresse a qual é submetido diariamente. Linha essa que já foi rompida, por ambas as partes.
 
Notei um certo direcionamento da Cavalaria da Brigada Militar quando a manifestação começou a se movimentar pelas ruas da cidade. Os acessos às avenidas Mauá e Júlio de Castilhos eram bloqueados por cavalos e tropa de choque. Agora, os 10 mil manifestantes subiam a Borges de Medeiros. Sabe-se Deus se por destino ou intenção, a manifestação chegou até a Avenida Ipiranga, passando pela Av. Salgado Filho, Av. João Pessoa – onde começaram a surgir as primeiras lixeiras viradas. Ao aproximarem-se da sede do jornal Zero Hora ambos ânimos exaltaram, tanto de manifestantes como da polícia. Os atos e as imagens, falam por si só. Bombas de gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral, tropas de choque em ambas as vias da avenida. Excesso de violência e de pedidos de não violência. Manifestantes atiravam as bombas de gás para o Arroio Dilúvio, a fim de neutralizar o efeito entorpecedor do gás lacrimogêneo, quando, de ímpeto, a tropa de choque avançou sobre todos com mais granadas e gás. Uma granada de efeito moral explodiu há cerca de dois metros de mim. Vi tudo branco, um barulho ensurdecedor e fui recuando junto aos manifestantes que estavam na linha de frente sob gritos de não violência e com as mãos – limpas - ao alto. Em meio à confusão e correria, moradores do bairro Cidade Baixa ajudavam. A cena se repetiu diversas vezes durante a noite em vários pontos da cidade, no dia que não terminou.  
 
O saldo? Além do sistema de transporte suspenso naquela noite, seis ônibus foram depredados – um deles foi queimado pelos manifestantes - 50 contêineres de lixo incendiados, seis feridos, 38 presos. 
 
Mas não devemos falar de números, devemos falar de mudanças e pessoas.
 
Galeria de fotos
 
 
Fotos: Fredo Tarasuk
 


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