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Não vale mais a pena ir às ruas? Imprimir
Escrito por Fredo Tarasuk   
Segunda, 24 de Junho de 2013 - 01:27
protestoO clima tenso que presenciei durante as duas manifestações que cobri em Porto Alegre (segunda, 17 e quinta, 20) me deixou essa sensação. O brasileiro está nas ruas e sabe pelo que quer protestar (afinal, motivos não faltam) mas não sabe se organizar. Por quê? O simples motivo de não haver educação e consciência política na formação intelectual de nosso povo. Nossa educação está jogada às traças desde a época da colonização, e isso vem se refletindo desde então. Como cheguei a essa conclusão? Andando pelas ruas da cidade. 
 
Protestar virou balada
 
Uma amiga falou uma sábia frase: "O protesto é o novo Beco, e isso é muito triste". Não posso discordar dela, comparando as manifestações com uma casa noturna da cidade. Gente bebendo, pessoas consumido drogas em frente ao mercado público. Peraí, não era sobre uma tarifa de ônibus? Até os próprios coros, em frente a prefeitura e por todo o caminho percorrido, eram entoados em ritmo de estádio de futebol - talvez nossa única referencia de mobilização por uma causa comum seja a camisa canarinho. Os mesmos que entoavam os “cânticos futebolísticos” também são os mesmos que cantaram, com o perdão da expressão, “Foda-se a Copa, foda-se a Copa, olê olê olá”. É meio irracional. Repito, não temos consciência política. As pessoas clamam por democracia, mas vaiam bandeiras políticas. "Sem partido" e "Abaixa essa bandeira" foram gritos muito comuns. Como assim? As primeiras manifestações foram organizadas por movimentos da esquerda, não há como negar isso. Mas agora, a questão é: como que isso tudo virou uma estupida e desnecessária briga política?
 
Não há poder maior do que as pessoas na rua. É nela em que as coisas acontecem. Mas o povo na rua se torna fácil de influenciar, desvirtuar e inclusive manipular. Basta ter os olhos mais abertos e ver que os conflitos também são entre manifestantes com diferentes ideais políticos. Não há apenas a repressão policial contra o vândalo (prometo não mais repetir esse termo, já imortalizado durante os últimos dias pela grande mídia). Não é apenas briga de gente que diz “QUEBRA” contra quem diz “NÃO QUEBRA”, é gente que diz “Ditadura já” contra quem diz “Viva a democracia”. Sim, ruímos. 
 
Em meio a tudo isso, temos a massa desorientada (mas não ilegítima!) nas ruas e nas redes sociais, sendo alvo fácil de manobras políticas dos mais diversos grupos ideológicos. Descontentes, raivosos ou até entorpecidos pela “festa”, o povo na rua se torna maior e mais frágil. Não há uma unificação em uma multidão que, quando se reúne, clama por tantas coisas ao mesmo tempo. Um prato cheio para grupos extremistas e um golpe de estado. A história recente do Brasil nos prova isso. Mas do que adianta não ir às ruas e ficar olhando tudo do sofá da sala, na sua nova televisão full HD? Aí que entra a cobertura midiática.
 
A revolução não será televisionada 
 
É sabido, desde sempre, que a grande cobertura midiática no Brasil é voltada aos ideais de direita. As comunicações no Brasil nunca foram democráticas e isso tornou o povo despolitizado. Os jornais abrem suas edições dizendo que as manifestações são pacíficas mas evitam mostrar bandeiras contrárias às suas ideologias. Depois enchem os olhos do espectador com imagens grotescas de pancadaria, repressão policial e depredação do bem público e privado, enfurecendo a opinião pública e pressionando os governantes. Tudo lá do alto dos helicópteros, bem de cima, porque a mídia está no topo. Eles alcançam do Oiapoque ao Chuí num estalar de dedos. A revolução não será televisionada porque ela está sendo realizada “em off”. 
 
O que nos resta?
 
Imagino que seja mais ou menos como quando a polícia joga aquela bomba de efeito moral, seguida do gás lacrimogênio. As pessoas correm, agonizando e com medo, tentando salvar sua pele, enquanto alguns mais orientados gritam “CALMA, CALMA, NÃO CORRE”! Devemos manter a calma e repensar como a situação toda chegou a esse ponto. Sejamos racionais. As manifestações já fizeram barulho o suficiente pra nos acordar e pra deixar nossos políticos de olhos arregalados e cabelo em pé. Eles já sabem do que somos capazes. Agora é hora de parar e pensar em que rumo queremos dar pras nossas vidas. Eu, particularmente, só vejo um possível: o do conhecimento; nossa querida educação. Sem ela não poderemos criar uma consciência política (coisa que muito se fala e pouco se vê nos dias de hoje) e saber a hora certa de ir pra rua e tomar as decisões corretas para todos nós. Como pessoas, como país, e, principalmente, como uma democracia. 
 
Galeria de Fotos | Fredo Tarasuk
 
 


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