O gigante está acordado? Imprimir
Escrito por Bruno Moura   
Segunda, 24 de Junho de 2013 - 02:02

017Porto Alegre. Quinta-feira, 20 de junho de 2013. Próximo das 18 horas, tempo chuvoso na Capital, com ventania e 13º. A Praça Montevidéu estava tomada por manifestantes dos mais variados perfis: dos mais novos aos mais velhos e dos mais entusiasmados aos mais tímidos. Os cantos eram muitos, as reivindicações também. Algo em torno de 20 mil presentes estavam preparados para protestar contra a corrupção. Enquanto alguns se protegiam da chuva com guarda-chuvas e capas, outros permaneciam desprotegidos enquanto cantavam.
 
Bandeiras partidárias eram proibidas de serem erguidas pelos manifestantes, que faziam questão de dizer que o movimento era do povo. Ao redor, nas saídas das ruas que conectam a Praça, alguns manifestantes de negro e máscara seguravam estandartes com o símbolo do anarquismo. Repórteres de diversos veículos andavam atônitos e com receio de serem agredidos, já que as vaias eram muitas e intensas. Guardas municipais ficavam em frente à prefeitura montando um verdadeiro muro humano, enquanto brigadianos se mantinham apostos no Largo Glênio Peres, atentos a qualquer principio de confusão. No céu, helicópteros sobrevoavam. Sim, helicópteros, havia mais de um. O som das hélices era impressionante, mas, não tanto quanto o canto do hino Rio-grandense, entoado por todos os manifestantes.
 
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”, cantaram. Sim, as manifestações que se espalharam pelo Brasil nasceram ali. Por mais que São Paulo tenha sido o palco que deslanchou a indignação dos brasileiros, não se pode esquecer o berço de tudo. Os 20 centavos foram esquecidos, já que o reajuste foi revogado, e o foco mudara para todas as injustiças causadas contra o povo. Era justiça, o sentimento de muitos naquele local. Era justiça que seria feita, não só com as mãos, mas principalmente com as vozes. Com o grito.
 
A manifestação tomou dois rumos. Segui com aqueles que tomaram a Senador Salgado Filho. Ao som de "vem pra rua”, pessoas aplaudiam nas sacadas dos prédios. Alguns prendiam lençóis brancos em apoio, enquanto outros piscavam as luzes de seus apartamentos. O trajeto seguia pacífico, com alguns porto-alegrenses observando de dentro das poucas lojas parcialmente abertas, ou mesmo das calçadas. Não havia sinais de vandalismos, exceto algumas pichações em paredes. Em dado momento, circulei a manifestação e fui pela Dr. Flores, onde percebi três jovens, menores de idade provavelmente, chutando lixeiras. Não demoraram e foram embora, enquanto eu segui para cima do viaduto da Rua Duque de Caxias. Era possível ter uma dimensão da enorme quantidade de manifestantes que foram para a rua. Da Avenida Senador Salgado Filho, desembocaram na Avenida João Pessoa, onde pararam brevemente sobre o viaduto que passa por cima da Avenida Loureiro da Silva. Segundo informações de um manifestante, os responsáveis por puxar a manifestação decidiam qual seria o trajeto.
 
Poucos minutos depois, a marcha seguiu. No prédio do DCE da UFRGS, mais faixas brancas e estudantes gritavam das sacadas em apoio à manifestação. Muito papel picotado atirado ao chão formava um imenso tapete branco, em contraste com as poças d’água que refletiam as luzes dos postes. Em um contêiner, um cartaz colado que pregava o fim da corrupção. Era uma festa, algo semelhante com uma marcha de carnaval que tinha direito a uma banda, inclusive. Puxando o som, e consequentemente gritos. “O gigante acordou” era bradado. Então houve um principio de briga que foi vaiado por mais de dez mil vozes. 
 
A passeata seguiu pela Avenida João Pessoa. Havia muitas pessoas, o que obrigou com que eu seguisse pela Rua da República para depois entrarmos na Rua General Lima e Silva, junto com os meus colegas que acompanharam a cobertura, Frederico Tarasuk e Thamires Rosa. A chuva não dava trégua, e os manifestantes também não, logo, nos dirigimos o mais rápido possível para chegarmos novamente à Av. João Pessoa, através da Rua Otávio Corrêa. A multidão cruzou a esquina com a Avenida Venâncio Aires e tomou caminho até virar a direita na Avenida da Azenha. Dali foi possível ouvir  que a manifestação tinha um rumo definido: a Avenida Ipiranga.
 
Era consenso geral de que um possível confronto se iniciaria, caso a manifestação seguisse para a Avenida Ipiranga. No entanto, os manifestantes seguiam cantando, e vez que outra pulando. Moradores davam seu apoio das sacadas. Não havia tensão, só felicidade e confraternização até então. Passo a passo os manifestantes se aproximavam da Ipiranga, e então o nosso colega Frederico, que tirava fotos da manifestação, se separou para chegar ao front. Mais tarde, meu telefone tocou. Uma chamada do Frederico, da qual não consegui escutar muita coisa devido ao alto barulho dos manifestantes somados ao dos helicópteros. O que consegui entender é que ele estava na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua General Lima e Silva, e que a Tropa de Choque estava posicionada. Quando chegamos na esquina da Ipiranga com a Azenha, a manifestação estava parada. Enquanto eu tentava retornar a ligação para o Frederico, ouvimos explosões de granadas de gás lacrimogêneo, tiros e gritos. A manifestação pacífica tomava ares de tensão. Um helicóptero sobrevoava mais próximo do solo, com refletores apontando para a multidão. Parecia um principio de guerra civil entre a policia armada e a população desarmada.
 
Segundo relato de dois manifestantes, da qual as informações bateram, ao chegarem na Avenida Ipiranga, a manifestação encontrou a Tropa de Choque com escudos levantados fechando a rua, próximo ao edifício da Zero Hora. Um grupo de manifestantes tomou a frente, sentando ao chão com braços erguidos. Outros manifestantes também haviam se sentado, quando a Brigada Militar disparou granadas de efeito moral para dispersar a multidão do local. Outras granadas foram atiradas no meio, e não mais no front, causando pânico e desespero.
 
Neste meio tempo cruzaram pessoas correndo, algumas carregando manifestantes desmaiados. O cheiro do gás podia ser sentido de uma enorme distância, mesmo que fraco. Pessoas gritavam “sem violência” e se sentavam no chão para mostrar que não iriam reagir com violência, mas, a repressão violenta da Brigada fez com que muito regressassem pelo caminho que vieram. A ação da polícia de conter a manifestação, caso fosse forçada, seria correta. Mas, novamente podemos perceber o despreparo dos policiais militares que agiram precipitadamente. 
 
Não houve sequer negociação e o que se viu foi um ato covarde. A manifestação voltou, mas, os vândalos ficaram. Estes revidaram e enfrentaram a policia, e vez que outra destruíam o que encontravam pela frente. Os manifestantes pacíficos se dispersaram, com alguns voltando para casa, enquanto outros decidiam regressar novamente para frente da prefeitura. As canções continuavam no regresso, assim como foi no inicio da caminhada. Na altura da Avenida Borges de Medeiros, descobrimos que nenhum ônibus estava chegando ao local. Voltamos todos para nossas casas da forma que podíamos. Um de ônibus, um de táxi e outro que conseguiu ficar junto à casa de um conhecido.
 
A conclusão que posso tirar é de que as manifestações devem continuar, e a repressão também. Meu medo é de que chegue o dia em que a população vá se cansar de respirar gás lacrimogêneo, de ser generalizada por vândalos e passe a reagir com a mesma força dos policiais. A mesma revolta que há contra a corrupção está crescendo contra a Brigada Militar. É o momento das autoridades acordarem e adotarem medidas, tanto para identificar os vândalos, como os policiais que abusam do poder. Que a democracia prevaleça.
 
Galeria de Fotos | Fredo Tarasuk
 
 
Galeria de Fotos | Thamires Rosa
 
 


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