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Anjo das pernas tortas Imprimir
Escrito por Daniel Freire   
Segunda, 18 de Fevereiro de 2008 - 13:37

daniel-garrinchaNo dia 20 de Janeiro de 1983, feriado de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, saia de cena Manoel Francisco dos Santos. Desconhece este nome? Trata-se de Garrincha, ou, simplesmente "o Mané". A morte foi conseqüência de uma cirrose hepática.

A alegria do povo se esvaía e o gênio das pernas tortas deixava assim esse mundo para ir brilhar em outras esferas desse imenso universo. Sua passagem por aqui foi breve, porém intensa. Nos 49 anos em que por aqui esteve, viveu os extremos sem nunca encontrar o equilíbrio. Dentro de campo, foi intensamente feliz. Os seus dribles e gols alegraram muita gente. Era incontrolável, um vencedor. Fora das quatro linhas, foi controlado, dominado, vencido pelo álcool.

Garrincha, apelido dado por uma irmã sua, inspirada em um passarinho muito comum na região serrana de Petrópolis - nasceu em Pau Grande, distrito de Magé, no interior do Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1933. De origem humilde, foi agraciado por Deus com o dom de jogar futebol. Mais ainda! Deu-lhe a honra de ser o maior driblador que o mundo já conheceu. O gol é o ápice da prática futebolística, com toda certeza. Mas para os amantes do futebol refinado, entretanto, um drible, bem dado, pode se tornar mais importante que um gol. O drible tem um glamour. Ele carrega em si, algo que não sei definir muito bem. Nesse instante, vou usar a primeira palavra que me surgiu para adjetivá-lo: feitiço. Garrincha soube como ninguém embelezar cada gol, seu ou de um outro companheiro, com sua estupenda capacidade de iludir os adversários, aplicando-lhes fintas desconcertantes, incompreensíveis, "malabarizadas", que marcaram uma época. Enfatizo que Garrincha não só driblava, fazia gols também. Digo isto para rebater àqueles que dizem ter sido ele somente um driblador irresponsável.

Um traço físico, marcante de Garrincha, eram as pernas tortas. Essa distrofia física - sua perna esquerda, seis centímetros mais curta que a direita - levava todos a não acreditar na potencialidade para o futebol daquele garoto. Porém, com 14 anos de idade começou a jogar no Esporte Clube de Pau Grande e seu talento começou encantar. Levado para o Botafogo, já nos minutos iniciais do primeiro treino, ele deu vários dribles em Nilton Santos enlouquecendo o já renomado jogador da seleção brasileira e deixando todos ali boquiabertos. Foi contratado de imediato e, a partir daquele momento, começou a conquistar o mundo.

Defendeu na maior parte de sua carreira o time da estrela solitária (1953-1965) - auge de sua carreira e vários títulos conquistados. Na Seleção Brasileira (1955-1966) - só perdeu uma partida e foi bi-campeão mundial em 58 e 62. Jogou também no Sport Club Corinthians Paulista (1966); no Clube de Regatas do Flamengo (1969); e no Olaria, em 1972. Atuou em jogos festivos por outras equipes, é bom lembrar. Marcou cerca de 280 gols em toda sua carreira. Na vida amorosa também foi "goleador". Casado três vezes, teve, oficialmente, 14 filhos.

Lembro da primeira vez que vi alguns vídeos do Mané. Fiquei estupefato diante de seus dribles. Não acreditei naquilo que via, pensei tratar-se de montagem, algo irreal. Um tio meu, já falecido, figura certa no Maracanã não somente em jogos do seu clube, o Flamengo (diga-se, curiosamente, maior vítima do Mané e clube pelo qual era apaixonado) me dizia que, apesar de ver seu time ser tão humilhado pelo anjo de pernas tortas, agradecia sempre a Garrincha por tanta beleza oferecida. Afirmava: "Mané é a perfeita tradução de espetáculo". E com pesar, lembrava de um dos dias mais tristes de sua vida: O velório de Garrincha no Maracanã, palco principal do artista, naquele dia envolto não em alegria, mas em prantos e tristeza. Meu tio quando viu o corpo de Mané repousado no caixão caiu num choro compulsivo, incontido, inesquecivelmente doloroso para aquele senhor amante do bom futebol.

Vários casos são contados por amigos de Garrincha. Seu Toti, o primeiro técnico do ex-camisa 7 do Esporte Clube Pau Grande, revela que Garricha gostava muito de beber sua cervejinha, seu conhaque Dreher e sua pinga, além de ser um mulherengo incorrigível. Mas tinha uma coisa que ele detestava: ser elogiado. Destaca ainda que perdeu as contas de quantas vezes Garrincha driblou o time adversário inteiro antes de marcar gols antológicos, que eram comuns no campo do Pau Grande. Zagalo cita como o melhor momento vivido ao lado do "anjo de pernas tortas", um amistoso na Itália, pouco antes do embarque para a Copa do Mundo na Suécia. Conta que Garrincha driblou o time inteiro da Fiorentina, até o goleiro, chegou na cara do gol, deu mais um drible no goleiro e depois entrou com bola e tudo. A Fiorentina não era um time qualquer. Contava, na época, com seis jogadores da seleção italiana.

Este ser que parecia entrar em campo como quem chega a uma festa, com seu jeito leve e alegre, exclusivamente preocupado em divertir e que lhe valeu o apelido de "Alegria do Povo", que só chamava os companheiros por apelidos, que reconhecia times adversários apenas pela cor do uniforme e que não tomava conhecimento de quem iria marcá-lo (qualquer lateral era chamado de "João"), jamais será esquecido. Para quem o viu desfilando seu talento pelos estádios do mundo fica a recordação esplêndida, envolvida com todo carinho, daqueles momentos sublimes do futebol. Vocês foram privilegiados! Para quem não teve o privilégio de vê-lo entortando seus adversários, só resta lamentar e torcer para que o criador faça surgir o mais depressa possível algum artista da bola, pelo menos parecido com Garrincha.

Vinte e cindo anos após a morte de Mané Garrincha, o humilde Mané, o "passarinho" desligado, o homem bom e amigo e, infelizmente, refém do alcoolismo. Enalteço a figura de Garrincha e o agradeço por ter feito o povo do meu país tão feliz. Obrigado Mané. Deixo aqui o registro de parte de uma crônica belíssima de Carlos Drumonnd de Andrade:

"Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho".

Salve o anjo de pernas tortas, alegria do povo!

 


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