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Capa Memória Geral "É preciso colocar rampa na cabeça das pessoas"
"É preciso colocar rampa na cabeça das pessoas" Imprimir
Escrito por Tássia Jaeger   
Terça, 02 de Agosto de 2011 - 17:17

midia-deficienciaNo dia 27 de julho, tive o privilégio de participar do seminário "Mídia e Deficiência - Qual o papel da comunicação no processo de inclusão?", na Assembleia Legislativa do RS. Durante o dia todo, ouvi diversos representantes sociais debatendo a temática.

Um novo mundo se abriu aos meus olhos. Um mundo não de todo desconhecido, mas em alguns pontos incompreendido em seu contexto mais amplo. Pelo visto, a maioria das pessoas que recebeu em seu e-mail a divulgação do evento não demonstrou tanto interesse quanto eu, tendo em conta o baixo número de participantes. Lamentável!

O grande objetivo do seminário foi fomentar o debate sobre a importância de utilizar a mídia para incluir as pessoas com deficiência (PcD), seja no seu direito a informação, ao facilitar a compreensão do que é veiculado nos diversos meios de comunicação, ou rompendo preconceitos na sociedade civil.

O que se debateu no encontro foi a inclusão, ou seja, o direito de TODAS as pessoas, com ou sem deficiência, respeitarem a diversidade humana. Obviamente, a inclusão, ao contrário da integração, exige a adaptação da sociedade para atender a menor porcentagem da sociedade, e não o contrário. No entanto, cabe salientar que um planejamento urbano mais estruturado beneficia não apenas pessoas com deficiência, e sim quaisquer pessoas que estejam com a mobilidade reduzida temporariamente como gestantes, mães com seus carrinhos de bebê, idosos, vítimas de acidentes e etc.

De acordo com a coordenadora do projeto "Assembleia Inclusiva" e promotora do evento, Juliana Carvalho, inicialmente é necessária uma mudança cultural na sociedade. Conforme ela, "é preciso colocar rampa na cabeça das pessoas". E ela tem toda a razão, pois qualquer transformação começa na educação. Obviamente, políticas públicas como a que obriga empresas com mais de 100 funcionários a incluirem em seus quadros pessoas com deficiência, já é um grande passo. Mas, que tal, se aliarmos ao cumprimento da legislação o cuidado em alocar estas pessoas em funções de acordo com seus reais interesses e capacidades, por exemplo?

Afora a inclusão no mercado de trabalho e na sociedade, deve-se incluir estas pessoas na mídia para ampliar a abordagem do tema ou contar com elas como fontes em assuntos que diferem de sua deficiência, sem esquecer de preocupar-se, também, em proporcionar sua acessibilidade aos meios de comunicação. Neste último caso, bastam decisões simples ancoradas no uso da tecnologia, ao determinar a obrigatoriedade de um recurso opcional nos televisores, com as ferramentas closed caption (legenda oculta), tradução em libras e áudiodescrição, assim como na internet e em outros meios.

No que se refere ao espaço na mídia, o gerente de jornalismo da Record, Givanildo Menezes, ressaltou que o jornalista está despreparado e mal informado para a inclusão. Segundo ele, o que importa não é o quanto se fala da pessoa com deficiência e, sim, como se fala. Já, o jornalista da Folha de São Paulo, Jairo Marques, lembrou que muitas reportagens se preocupam com os avanços da medicina para curar um PcD, e esquecem de mostrar os avanços urbanísticos a fim de incluir estas pessoas. Ele questiona por que a mídia planta a ideia de que o PcD só se interessa pela cura, como se estivesse inconformado com sua condição.

Na plateia, um participante afirmou que a mídia impõe ídolos "normais", quando há muitos ídolos paradesportistas, por exemplo, que não são evidenciados. Sendo assim, ressaltou em sua fala, que jovens com deficiência acabam por se espelhar em ídolos que não correspondem a sua realidade.

Foi consenso entre participantes e palestrantes que o grande problema da mídia é a tentativa de vender a ideia de milagre e não a de aceitação e/ou inclusão. A imagem de superação nem sempre é apropriada, visto que muito do que ocorre não é superação, é simplesmente sobrevivência. E, como bem explanou a jornalista Lelei Teixeira, as pessoas com deficiência precisam "recusar o papel de vítima ou herói". Elas não são'especiais' como se costumava chamar, elas têm necessidades específicas e só querem ser tratadas como parte de um todo e com o devido respeito que espera qualquer cidadão.

Todos os problemas apontados na mídia, no que se refere aos seus erros ou omissões na hora de expor seu papel social de inclusão, foram levantados em consonância com os problemas sociais.

Para o repórter da RBS, Manoel Soares "a mídia é um retrato da sociedade". Assim sendo, conforme o diretor do curso de Jornalismo da Famecos, Vitor Necchi, tudo deve começar pela educação, lembrando que a "a mídia se impõe à sociedade e que, portanto, não pode ser preconceituosa". Ou seja, ao seu ver, a mídia até pode ser um retrato social, mas tem um papel educativo superior a este retrato que deve impor educação à sociedade. Quanto a esse retrato social e a questão da educação, Lelei Teixeira simplificou bem a questão, ao relembrar que a sociedade não discrima o gay cabeleireiro, costureiro; o negro porteiro, faxineiro; o anão bufão, chacota, pois estas pessoas estão nos seus 'devidos lugares'.

Foi uma pena ouvir o jornalista Gustavo Trevisi afirmar que essa inclusão que se deseja nos dois aspectos levantados não ocorrerá de forma natural: "Vamos precisar mostrar que a gente existe". Mas, pena mesmo é saber que ele tem razão. E, conforme outro participante da plateia, também dotado de razão, o que foi possível perceber é que "a mídia é deficiente".

 


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