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Comunicador público deve ser um profissional sensível e capaz de estimular o diálogo com os cidadãos Imprimir
Escrito por Michele Limeira   
Quinta, 19 de Abril de 2012 - 19:00

heloiza-matosNeste 20 de abril, o Parlamento gaúcho comemora mais um ano de uma história que começou em 1835, em cumprimento a Lei nº 16 de 12/08/1834, um Ato Adicional que fez alterações e adições à Constituição Política do Império, e permitiu a criação das Assembleias Legislativas Provinciais. A Assembleia Legislativa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul é instalada próximo à eclosão da Revolução Farroupilha, por isso, a normalidade das funções da Casa duraram apenas cinco meses após a instalação da primeira legislatura, ou seja, até 20 de setembro de 1835. De 1889 até a Revolução de 1930, o Legislativo funciona como uma câmara orçamentária e é reduzido a conhecida Assembleia dos Representantes.

Os períodos de instabilidade que caracterizam os primeiros anos da vida da Assembleia prosseguem, marcando a história de um Poder que atualmente busca reafirmar-se como espaço público de debates e discussões que possam contribuir com o Estado, bem como fortalecer as suas atribuições constitucionais de legislar e de fiscalizar as ações do Executivo. Para tanto, a atuação dos profissionais da comunicação é analisada como estratégica e fundamental. Tal movimento tem sido, inclusive, tema de estudos acadêmicos, como os realizados pela docente do Programa de Pós-Graduação da ECA/USP, doutora Heloiza Matos. A pesquisadora chama atenção para a responsabilidade do comunicador público, como agente que atua junto aos órgãos públicos e tem o dever de viabilizar ações favoráveis ao diálogo entre os Poderes e os cidadãos.

Processo comunicativo de duas vias

Na opinião da especialista, os comunicadores públicos precisam estimular a troca de informações entre os cidadãos e o Legislativo. A doutora em ciências da Comunicação, pela USP, Heloiza Matos, que ao longo de sua carreira pesquisa sobre comunicação política, comunicação pública e opinião pública, acredita que a Assembleia tem que criar mecanismos para dar continuidade ao diálogo que começou na campanha eleitoral. Entretanto, ressalta que este é um "processo de duas vias", no qual Legislativo e cidadão têm responsabilidades. Um exemplo, segundo Matos, são as atividades das comissões parlamentares. "As comissões são agências cívicas, espaço onde o cidadão toma conhecimento das discussões que vão redundar em lei e projetos. Para que haja o engajamento, o cidadão precisa ser informado", analisa. Na avaliação da pesquisadora, compete ao legislador "harmonizar interesses regionais com os do Estado, porque o Parlamento representa o Rio Grande do Sul e não apenas a cidade ou região do Deputado."

A interação entre o Legislativo e a sociedade nem sempre é simples . Será preciso levar em conta as características da cultura política e suas manifestações . Uma delas, conforme Heloiza Matos, situa-se entre a descrença nos seus representantes e, ao mesmo tempo, a disponibilidade do cidadão para engajar-se politicamente. "O cidadão está deslocando a comunicação isolada com seus representantes do legislativo para os movimentos sociais. Ou seja, ele se engaja nos movimentos sociais como uma força maior de pressão e não mais como cidadão isolado. É um movimento mais amplo e mais consistente", explica.

Heloiza Matos exemplifica ações de "agências cívicas" que se organizaram para serem ouvidas pelos legislativos e estão apresentando resultados tais como a Lei Maria da Penha, o Estatuto do Idoso, os movimentos de combate à violência contra mulher, a defesa do consumidor e as discussões sobre o direito de interrupção da gestação no caso de fetos anencéfalos. "São temas que afetam não só as mulheres mas a toda a sociedade. Cada vez mais o Legislativo tem atuado sob estas pressões da opinião pública".

As redes sociais e os jovens

As redes sociais estão cumprindo papel importante de mobilização. É o que defende a pesquisadora da USP ao analisar a disponibilidade que o cidadão tem de engajar-se, constituindo aquilo que ela conceitua como manifestação de "capital social", entendido como redes de interação cujas caraterísticas básicas são a confiança e a reciprocidade. Heloiza Matos acredita que a força das redes sociais precisa ser compreendida pelo Legislativo, não apenas como pressão mas sobretudo como potencial de influência nas discussões e aprovações de legislação que possam atender as novas demandas sociais "Os jovens estão nas redes sociais, na internet e são parte da opinião pública. A AL precisa entender onde estão os jovens, o que buscam, onde estão engajados e com quais causas estão se envolvendo".

Leis de acesso à informação pública e responsabilidade do comunicador

A professora da USP também aponta a internet como principal espaço para acesso às informações públicas. Ela acredita que a lei de acesso a informações públicas (Lei Federal nº 12.527/2011), que entra em vigor em maio deste ano, "é um marco histórico no país, uma conquista da sociedade, e resultado do engajamento do cidadão aliado ao esforço do legislativo". Mas, para ela, é apenas um ponto de partida, pois é preciso encontrar formas de manter o diálogo aberto com os cidadãos e os movimentos sociais. "As Assembleias estão mais próximas dos cidadãos e precisam encontrar mecanismos de atrair o cidadão com o objetivo de orientar o que fazer com a informação que recebe".

Heloiza Matos reforça a responsabilidade dos comunicadores públicos. "Devem ser profissionais preparados, sensíveis, para que as ações de comunicação sejam de fato eficazes". Na sua opinião, estes profissionais devem encontrar formar para manter o diálogo aberto com a sociedade.

Os perigos

Ao entender o Poder Legislativo como um espaço público institucional, dentre os vários espaços públicos, com graus de engajamento, poderes e perspectivas diferenciadas, a professora Heloiza Matos acredita que, na medida em que Legislativo deixa de escutar o cidadão, ele entra na força gravitacional do poder. "Esse é o perigo que os órgãos correm", observa, ao lembrar que quando isso ocorre o Parlamento se isola como uma força poderosa que gravita em torno dela mesma.

 


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