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Curso de Jornalismo Científico e Ambiental qualifica jornalistas Imprimir
Escrito por Carlos Tiburski   
Quarta, 20 de Maio de 2009 - 15:02

O Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS) organizou no sábado, dia 16 de maio, um curso para qualificar estudantes e jornalistas que já atuam ou  têm interesse em se especializar nas áreas científicas e ambientais. Os jornalistas convidados foram Wilson da Costa Bueno e Marcelo Leite, que prenderam a atenção dos participantes com informações de grande importância para as respectivas áreas, no auditório da Associação Riograndense de Imprensa, a ARI. Ambos convidados para ministrar o curso são autores de diversas reportagens, textos e livros produzidos na área científica e ambiental, tanto em solo nacional quanto internacional.

A abertura coube ao jornalista Wilson Bueno, que é mestre, doutor em Comunicação  e  também  professor acadêmico na Universidade de São Paulo (USP). Entre as suas especializações estão o Jornalismo Científico e Comunicação Rural. Bueno é também um dos diretores da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC). Marcelo Leite é jornalista da Folha de São Paulo, onde atua nas áreas de jornalismo científico e ambiental. É também colunista, mantendo no mesmo veículo um espaço já consolidado, a coluna “Ciência em Dia”. É autor de  diversos livros publicados, entre eles, Promessas do Genoma, Meio Ambiente e Sociedade. Recentemente, acompanhou a Expedição Brasileira à Antártida, onde cobriu o trabalho realizado por pesquisadores no continente do extremo sul do planeta, para o jornal  Folha de São Paulo. 

Um panorama sobre o jornalismo científico e ambiental

Wilson Bueno iniciou o curso traçando um perfil geral sobre as especializações do jornalismo em Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente, além de destacar problemas ocorridos na cobertura jornalística nas respectivas áreas.

Por atuar tanto no mercado jornalístico quanto no meio acadêmico, Bueno trouxe aos participantes do curso detalhes dos veículos e das universidades onde se realizam pesquisas científicas. Aliás, o jornalista acredita que exista um grande descompasso entre a produção acadêmica e o setor produtivo e tecnológico atribuindo  tal dissonância à falta de preparo da mídia ao cobrir temas científicos, inserindo aí os ambientais, caracterizados por  Bueno  como “modalidade do jornalismo científico”.

Bueno destaca que a produção científica está comprometida com um problema ou tema da pesquisa, com a trajetória do pesquisador ou do grupo de pesquisa, com os agentes (estado ou empresa) que financiam o projeto e com o momento histórico, determinado pela convergência de fatores econômicos, políticos, sócio-culturais. Então, conclui que “O contexto da produção científica precisa ser visto também sob a perspectiva política, econômica, sócio-cultural e não apenas em sua vertente eminentemente técnica”.  

De acordo com o professor da USP, boa parte dos investimentos em ciência e tecnologia está voltada para a indústria da guerra e, em contrapartida, o progresso técnico pode ser da “tecnoexclusão”. Para ele, “a baleia encalhada” não é apenas a personagem emblemática na cobertura temática ambiental”, mas destaca que “a ciência e a tecnologia também têm suas baleias encalhadas”.

Wilson criticou a imprensa por não aprofundar e nem investigar na área da ciência e da tecnologia, o que tem contribuído para desqualificar a cobertura científica e ambiental. Com relação às pautas científicas, mesmo quando divulgadas, salienta que esbarram em outra questão dentro das redações: um posicionamento comercial ao se abordarem esses temas. “Em geral, os grandes veículos de mídia estão comprometidos com questões comerciais e políticas”. Além disso, destaca que “há uma espetaculazarização na abordagem dessas pautas”. 

Por outro lado,  acredita que os próprios pesquisadores acabam não tendo grande interesse em divulgar as pesquisas científicas, em veículos da grande mídia, optando apenas pelas mídias especializadas. Isso acontece, de acordo com Bueno, porque os artigos científicos publicados em periódicos especializados, contam pontos no Currículo Lattes, base de dados que avalia instituições das áreas de ciência e tecnologia, enquanto as publicações em veículos da mídia convencional não são levadas em conta. Essa avaliação é realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Considero isso um grande equívoco”, comentou sobre a medida. E para esta preocupação dos cientistas denominou “síndrome do lattes”.

Outro grande problema enfrentado na divulgação de trabalhos científicos é que, em geral, só são levadas em consideração, ou têm credibilidade, as palavras dos doutores acadêmicos. Para Bueno, existem opiniões muito importantes fora desses centros, que acabam não sendo divulgadas. E ressalta; “No caso do meio ambiente, a síndrome dos doutores e mestres exclui do debate o saber público, o saber popular, os movimentos sociais e o cidadão comum”. E complementa: “assim, muitas pautas que poderiam ser enriquecidas com o saber popular privilegiam a elite intelectual do país, muitas vezes comprometida com os grandes interesses”. 

Outra questão abordada por Bueno, referente aos profissionais que atuam no Jornalismo Científico, é que muitos   "andam de salto alto e esquecem que são mediadores no processo de relacionamento entre a informação especializada e o público leigo”. Porém, mesmo dentro das universidades afirma que existe uma precariedade no que diz respeito ao jornalismo científico. Segundo Bueno, “Menos de 10% dos cursos de jornalismo do país têm espaço para a modalidade em sua grade curricular”.

Nas políticas públicas sobre ciência e tecnologia, também existem problemas, de acordo com o palestrante. Por vezes, medidas tomadas por determinada gestão, que são escassas, quando não são visíveis à população, não são mantidas posteriormente. “É necessário que se crie um processo básico permanente de divulgação científica”, disse.

Apesar das dificuldades, Bueno acredita que o número de jornalistas interessados em trabalhar com áreas científicas e ambientais tem crescido, e vê justamente nestas especializações uma boa saída para se aprimorar a divulgação jornalística. 

Se nos veículos a situação pode melhorar muito, a produção de livros escritos por jornalistas têm sido uma boa saída, segundo ele. “A produção de literaturas sobre ciência e tecnologia aumentou nos últimos tempos. Pode crescer ainda mais, porém se constitui como uma ótima fonte de divulgação atualmente”, completou o professor da USP.

Após encerrar a sua participação no curso, Bueno  foi desafiado a citar algumas das habilidades de um jornalista que atua nas áreas ambiental e científica. E ressaltou: ter “capacitação”, que inclui o domínio dos conceitos e das fontes confiáveis, espírito investigativo, coragem, perseverança e ética. Quanto a esta última habilidade, lembrou da concessão de espaços para o ponto e o contraponto e do compromisso público com a verdade.

O processo da informação no jornalismo científico e ambiental

Assim como Wilson Bueno considera a produção na literatura científica uma boa ferramenta para se divulgar os temas voltados para a ciência e tecnologia e meio ambiente, seja através de livros, fascículos ou outros formatos,  o  jornalista Marcelo Leite, segundo palestrante do curso, destacou a importância  e afirmou que se utiliza  desse recurso.

Além de ser free-lancer e colunista da Folha, o jornalista tem diversas publicações de livros científicos. Muitos delas oriundas de grandes reportagens para o próprio jornal. Um de seus últimos trabalhos, No coração da Antártida, onde acompanhou pesquisadores pelo continente, foi um dos temas apresentados por Marcelo durante o curso. 

Claro que não é sempre que o jornalista científico pode ir a campo para se produzir matérias ou grandes reportagens. É um processo que, por vezes, pode ser muito caro, como foi de fato esse trabalho realizado no pólo sul. No caso, a empresa bancou a produção e a publicação, procedimento que depende da aprovação do editor e da empresa. Porém, por vezes, as pautas científicas são cotidianas e, como qualquer outra editoria,  necessitam de outras formas de coleta de informações. Em geral, as primeiras fontes que se buscam são oficiais. 

Mas, para o jornalista da Folha de São Paulo, uma grande dificuldade no jornalismo de ciência e tecnologia é que muitos dos dados, mesmo oficiais e  obtidos através de estudos, são imprecisos. “É difícil de se ter precisão em diversas questões científicas, assim como há divergências. Eu vejo que, para se manter uma maior credibilidade na produção de matérias científicas, o jornalista deveria informar ao leitor a margem de erro sobre os dados apresentados”.

Alguns monitoramentos oficiais, são avançados, contou Leite. Entre eles, o que acompanha o desmatamento da floresta amazônica. O jornalista acredita que os dados relacionados a esse tema e levantados por um sistema tecnológico brasileiro, são bem atuais e completos. Porém, citou, como exemplo, o que trata do estudo sobre a emissão de  gases responsáveis pelo aquecimento global, no Brasil. O último inventário realizado sobre o tema  está desatualizado em cerca de 20 anos. Tecnologias que estudam as alterações climáticas são imperfeitas, sendo muito difícil de se saber ao certo qual é o real dano que está sendo produzido no planeta.

Para Marcelo, boa parte dos jornalistas desconsidera que esses dados podem ser um tanto imprecisos. Além disso, nos casos relacionados a empresas, a própria fonte oficial pode fazer uso de forma tendenciosa das informações cedidas, de acordo com seu interesse pessoal. Assim como Bueno, o jornalista da Folha de São Paulo considera que  verificar dados com fontes independentes e especialistas, sem comprometimento com determinada instituição, seja uma medida importante.  

Os periódicos científicos são outras fontes que podem ser bem exploradas pelo jornalista científico. Porém, a busca direta nessas publicações é algo um tanto complicado, segundo Leite. Com o tempo, os próprios pesquisadores se tornam um bom filtro de fontes, indicando onde a informação pode ser achada de uma forma mais direta.

Na hora de transmitir a informação científica, Marcelo  também vê alguns problemas por parte dos jornalistas. Um deles, naturalmente, refere-se aos interesses comerciais e políticos. Em algumas circunstâncias, determinado veículo tem um posicionamento comprometido perante essas duas questões. Porém, considera um equívoco também o posicionamento inverso: “Não é papel do jornalista fazer campanha. Ele deve exercer um meio termo, reportando as informações para que o público faça seu próprio juízo de valor”, comentou.

Também destaca o palestrante que antes de tudo, especializando-se ou não, o jornalista que realiza reportagens científicas ou ambientais é um profissional que tem as suas particularidades e, talvez, umas das principais seja a falta de espaço nos veículos. Em geral, o jornalista da Folha de São Paulo considera que as pautas relacionadas à ciência e tecnologia e meio ambiente, não despertam tanto o interesse das empresas de comunicação e, até mesmo, da opinião pública, a  não ser quando gerem algo de extraordinário, como uma grande descoberta ou uma grande tragédia. 

Assim como Bueno, Marcelo Leite também afirmou que existem pautas de grande interesse coletivo nestas áreas e que há necessidade de boas fontes, e espírito  investigativo, além de saber  lidar com as incertezas comuns na área científica, as quais “ não podem ser escamoteadas”. Também ressaltou a importância de incluir os céticos junto às fontes, além dos convictos nas pesquisas.

O jornalista científico e ambiental, ao contrário de outras editoriais, deve promover uma batalha interna considerável nos veículos onde atuam, comentou Leite. Por isso, as especializações em jornalismo científico e ambiental podem gerar um espaço maior de divulgação, na grande mídia, de pautas dessa modalidade. Considero encontros como esse, algo muito importante para se atingir esse objetivo”, completou o jornalista, referindo-se ao curso promovido pelo Núcleo de Ecojornalistas do sul.

 


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