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Capa Memória Geral A desumanização do parto
A desumanização do parto Imprimir
Escrito por Renato Araújo   
Segunda, 03 de Dezembro de 2012 - 11:46

parto-humanizadoUm dos atos mais naturais dos seres humanos, o parto, ainda representa para algumas mulheres um momento de medo e insegurança. O movimento pelo parto humanizado pretende desfazer mitos e apresentar alternativas tanto para a gestação, quanto o parto e o pós-parto. Durante este ano diversas manifestações e debates sobre a questão do parto humanizado tomaram Porto Alegre e tiveram destaque nos veículos de comunicação. De um lado, um pequeno grupo de mulheres, médicos, doulas e parteiras, de outro um sistema médico que movimenta uma verdadeira indústria do parto.

Nessa queda de braço onde o que está em jogo é o modo como as mulheres terão seus filhos, o obstetra Ricardo Jones, representante da Coalizão para a melhoria dos serviços de maternidade para o Brasil e América Latina (CIMS), é categórico quando perguntado se realiza parto humanizado: "Quem realiza o parto é a mulher". Para Jones o parto é o grande poder das mulheres, e para combater isso a sociedade patriarcalista passou a tratá-lo como se fosse uma doença, empoderando assim a classe médica, composta em sua maioria por homens.

Tendo iniciado seu trabalho com humanização do nascimento no ano de 1986, quando ainda fazia residência, Ricardo Jones atribuí a desumanização do parto a dois pontos principais. Primeiro a lógica de industrialização, a qual visa à redução de custos e maximização do lucro, que nos anos 20 levou o procedimento do parto das casas para os hospitais, onde as mulheres eram submetidas a um sistema de "esteira de montagem", como se refere o obstetra. "As gestantes vão ser identificadas num lugar, admitidas em outro, preparada em um terceiro, vai aguardar o trabalho de parto, vai parir em um outro lugar, vai depois pra maternidade e depois vai ser descarregada para casa. Como se fosse uma esteira de montagem", relata Jones.

Na visão do médico, o preço pago pela escolha desse modelo é a desumanização do indivíduo, em que a pessoa passa a ser tratada como um objeto sobre o qual múltiplos profissionais em diversos momentos vão tomar cuidado. O outro ponto de grande importância nesse processo de desumanização o obstetra atribuí a uma ideologia da classe médica obstétrica em que a mulher é um ser defeituoso por natureza. Ou seja, tanto o parto, quanto os ciclos menstruais e a menopausa, são tratados como doenças.

Mas o especialista deixa claro que este é um modelo inconsciente, e que ele é a base de toda a ciência obstétrica. Ricardo cita o trabalho da antropóloga e ativista do parto natural Robbie Davis-Floyd, escritora do livro Birth as an American Rite of Passage, a qual utiliza a noção de 'rito de passagem' para mostrar o quanto o parto medicalizado é um evento ritualístico que afirma os valores dominantes da sociedade industrial e patriarcal sobre a mulher. Robbie Davis-Floyd inaugura essa visão do parto como um rito de passagem.

Uma personagem de grande importância para a humanização do nascimento é a doula. A pedagoga Amanda Martins desempenha com amor e dedicação esse papel. Para ela, o movimento pela humanização do nascimento é um movimento de algumas mulheres e homens que querem ter liberdade de escolha, respeito pelo corpo feminino, pela singularidade de cada mulher e de cada família, é a luta pelo direito de parir em liberdade, da forma que a mulher achar melhor e mais seguro. Amanda tem a visão de que "o que é seguro para mim, pode não ser seguro para outra mulher". Há mulheres que morrem de medo de hospital, então, esse provavelmente não vai ser o melhor lugar para ela parir seu filho de uma forma tranquila, acredita Amanda.

Enquanto outras mulheres tem receio de parir em casa, por isso, Amanda deixa claro que a questão da humanização do nascimento não é um movimento pelo parto em casa, mas sim pelo direito de escolha. "É um movimento que entende o nascimento como um evento humano e não como um ato médico, portanto singular, cheio de particularidades. É impossível querer respeitar as mulheres nas suas singularidades, oferecendo o mesmo modelo de nascimento para todas", afirma a doula. A pedagoga pensa que esse movimento ocorre porque os direitos reprodutivos não são respeitados, por isso tantas e tantas mulheres sofrem maus-tratos dentro do modelo de atendimento ao parto que temos hoje.

Assim como o obstetra Ricardo defende, Amanda acredita que as mulheres são consideradas incapazes de parir, mesmo quando seus corpos se mostram plenamente saudáveis, quando seu tempo de parir é outro. Mas o momento atual é positivo para a doula "as mulheres finalmente estão reivindicando o seu lugar de protagonismo na cena do parto, que ao longo desses 40 anos foi assumido pelo médico". Elas estão dizendo: "nós sabemos o que é melhor para parir nossos filhos, nós sabemos o que é melhor para nosso corpo". É um movimento de tomada de consciência e de trazer a responsabilidade para si, afirma a pedagoga.

A estudante de biologia Naieth e o biólogo Eduardo sentiram a experiência do 'rito de passagem' durante o nascimento de sua filha Aiyra no final de agosto deste ano. Assessorados pelo médico Ricardo e sua equipe, da qual fazem parte sua esposa e enfermeira Zeza Jones e a doula Zezé. Para o casal a experiência de ter realizado o parto de forma humanizada transformou suas vidas de forma positiva. Desde a escolha pelo parto em casa e pela equipe do doutor Ricardo, tanto Naieth quanto Eduardo vivenciaram toda a gravidez de forma ativa. A leitura fez parte desse momento do casal, que indicam os livros O Parto Ativo da autora Janet Balaskas, diretora do Active Birth Centre, e o livro Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra da cientista Laura Gutman.

Com relação às dores do parto, Naieth relata: "não é uma dor insuportável, cansa, porque o teu corpo precisa estar cansado pra tu te entregares e relaxar. Não é uma dor que dói, ela é uma dor que cansa, porque tu precisas". Para ela, esse cansaço é necessário por "sermos muito racionais e, durante o parto, a mulher deve se entregar e não ficar racionalizando. Outro relato do casal é com relação à sensação da passagem do tempo, para eles "as horas passaram voando em câmera lenta" durante às nove horas que durou o parto.

O movimento do parto ativo e da humanização do parto no Brasil tem um grande desafio a enfrentar. As estatísticas do Ministério da Saúde indicam que o número de cesáreas foram cinco vezes maior que o de partos normais no ano de 2011. O médico Ricardo alerta que nos hospitais privados brasileiros 90% dos partos são cesarianas, sendo que a Organização Mundial da Saúde recomenda que esse percentual seja de 15%.

Amanda reflete sobre a situação da mulher: "ainda precisamos caminhar muito até que a sociedade respeite as escolhas das mulheres com relação a tudo que se refere a seu corpo e entenda que o parto é um evento humano e que cesárena não é um parto e sim uma cirurgia". Para a cesárea, as mulheres se entregam confiantes de que ela mais segura, mais higiênica, mais rápida e sem complicação, pensa a doula. "Isso tudo é uma verdadeira mentira", afirma ela. Com o apoio do doutor Ricardo, ela diz o parto normal para mulheres de baixo risco é muito mais seguro.

Matéria produzida na disciplina de Projeto II.
Professora responsável: Michele Limeira

 


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