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Capa Memória Geral O dever da felicidade
O dever da felicidade Imprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Segunda, 27 de Outubro de 2014 - 16:29

pascal bruckner conferencia poa2Pascal Bruckner é um dos maiores escritores contemporâneos. Com mais de 15 livros publicados e traduzidos para diversas línguas, o francês estuda o cotidiano das sociedades pós-modernas, especialmente no que tange ao "dever da felicidade". Foi para falar mais sobre o assunto que ele palestrou no Fronteiras do Pensamento, na quarta-feira (22/10), no salão de atos da UFRGS.

Bruckner faz parte da geração dos "novos filósofos", uma turma de pensadores que atacou o marxismo, o estruturalismo e os totalitarismos da esquerda e de direita, num momento histórico, quando as ideias de revolução efervesciam as mentes, em especial dos jovens e intelectuais ao redor do mundo. Em suas obras, ele usa a ficção e o ensaio como meios a discussão de temas contemporâneos.

"Nós só somos felizes quando da inconsciência de sê-lo"

Bruckner considera que a noção de felicidade nasce com o Cristianismo, que a herdou dos costumes gregos. O medo do inferno era permanente, orientando as pessoas a promoverem atos éticos e retilíneos. Felicidade, para ele, é uma coisa perigosa, pois pertence ao passado, ao futuro, mas não ao presente. Citou, nesse contexto, o filósofo Francis Bacon: "o objetivo do homem não é sofrer, é melhorar".

Com o Iluminismo, a humanidade evoluiu, racionalizou-se. Mas foram nos anos 60 e 70 que os saberes foram aprofundados, especialmente após novas descobertas tecnológicas. O fim da fome, o fim do câncer, o fim das desigualdades passaram a ser constantemente citados na agenda das Nações Unidas. Os direitos trabalhistas também facilitaram a felicidade humana – antes atribuladas por jornadas cruéis de 18 horas diárias. "Os patrões ficaram horrorizados ao ver seus operários visitando lugares que antes pertenciam à elite", explicou.

A felicidade tornou-se, portanto, objetivo último do ser humano. "Estamos na terra para aproveitar o máximo de dias que nos foram concedidos pela providência", resume. A frase foi seguida de provas legais sobre como a felicidade é fundamental. Lembrou a Declaração da Independência dos Estados Unidos, que a transpõe como direito.

Bruckner constata que hoje a vida é bela, cheia de sabores e possibilidades. O desenvolvimento do poderio econômico, traduzido nas centenas de linhas de crédito, é um fator que compõe essa realidade. "O crédito e a publicidade incutiram nas pessoas o desejo daquilo que não temos", argumentou. O capitalismo está a serviço da felicidade, entretanto, o principal obstáculo para alcança-la continua sendo o próprio ser humano. Pascal levantou o caso das cirurgias plásticas, que crescem à profusão, pois a imagem influencia o bem-estar dos indivíduos.

"O mercado da felicidade é o mais extenso dos próximos séculos. Passamos do direito ao dever de sermos felizes", definiu. Para ele, um dia a vida vai acabar, mas a felicidade é esse parêntese em que as pessoas deixam de lado todos os pequenos problemas. E vai além: "nós só somos felizes quando da inconsciência de sê-lo".

Encerrando a conferência, Pascal afirmou que a felicidade é algo que acontece, não pode ser provocada. É impossível fabricar felicidade na vida. "Deixemos ao acaso", concluiu.

 


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